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Jornal da USP

Acervo que faz "vibrar o coração de um bibliófilo"

Publicado em 14 dezembro 2009

Por Ana Carolina Prado

Com 352 páginas ricamente ilustradas, livro reproduz as mais raras obras da biblioteca do Instituto de Biociências da USP, que inclui publicações dos séculos 18 e 19 escritas por autores como Karl von Martius e Charles Darwin

O Instituto de Biociências lança nesta terça-feira, dia 15, na Livraria João Alexandre Barbosa, na Cidade Universitária, o livro Ciência, História e Arte - Obras Raras e Especiais do Instituto de Biociências da Universidade de São Paulo.

Organizado pela diretora técnica do Serviço de Biblioteca do instituto, Nelsita Ferraz de Campos Trimer, o catálogo de 352 páginas, ricamente ilustrado, é fruto dos trabalhos de restauração das obras realizados desde 1996.

O acervo é formado principalmente por obras dos séculos 18 e 19 e parte dele veio através de doações e transferência de obras da biblioteca da Escola Politécnica e da então denominada Faculdade de Farmácia da USP - que em 1962 passou a se chamar Faculdade de Ciências Farmacêuticas. Muitas dessas obras, únicas no País e raras no mundo, se encontravam em péssimo estado de conservação. Isso se devia em grande parte a intervenções inadequadas de restauração e conservação realizadas anteriormente e a problemas relacionados a fungos e cupins.

Além disso, estavam sendo mantidas em um ambiente que não atendia às recomendações de temperatura e umidade relativa. Para custear as providências necessárias, foram obtidos recursos da Fapesp (Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo) e da Fundação Vitae, além da Comissão de Pesquisa do Instituto de Biociências. Hoje, a Sala de Obras Raras e Especiais prevê a conservação e restauração de todo o acervo, além da adequação ambiental. Ela está aberta aos pesquisadores, professores e alunos da USP e ao público em geral.

A apresentação do livro foi escrita pelo bibliófilo José Mindlin, que doou no ano passado grande parte do seu acervo de 45 mil títulos para a USP e acompanhou a equipe de Nelsita no trabalho de restauro. Segundo ele, o acervo é motivo de grande orgulho para a USP e "faz vibrar o coração de um bibliófilo".

Relatos de viajantes

A biblioteca do Instituto de Biociências possui um vasto acervo de relatos de viagens ao Brasil, que resultaram em importantes descobertas feitas por estudiosos europeus, como o alemão Ernst Ludwig Bresslau. Nascido em 1877, ele estudou medicina e pesquisou diferentes grupos animais, de protistas a vertebrados. Veio ao Brasil pela primeira vez em 1904, servindo como médico em uma linha naval. Gostou tanto da "terra prometida para os zoólogos" que retornou em 1913 para uma expedição zoológica. O resultado foi publicado em 1927 e contém, além dos dados zoológicos, descrições do ambiente ao redor de São Paulo e Rio de Janeiro. Em 1934 foi convidado para ser o primeiro professor catedrático da cadeira de Zoologia da então recém-criada Universidade de São Paulo.

Outro estudioso que se interessou pelo Brasil foi o naturalista Johann Baptist Emanuel Pohl. Nascido na Boêmia em 1782, ele veio inicialmente para estudar minerais do País na missão científica austríaca que acompanhava a futura imperatriz Leopoldina. Porém, como um dos botânicos da missão voltou antes para a Europa, Pohl passou a se dedicar também a essa área. O exemplar da obra pertencente ao Instituto de Biociências em que ele descreve as plantas coletadas na viagem é uma das raras edições do mundo com litografias coloridas e, segundo o catálogo, é uma das mais belas publicações sobre a flora brasileira.

O alemão Karl Friedrich von Martius também foi incluído na comitiva da imperatriz que, por ocasião do seu noivado com D. Pedro I do Brasil, solicitou ao seu pai, o imperador da Áustria, que fizessem parte de sua comitiva naturalistas, geógrafos e desenhistas para registrar e estudar a natureza de sua segunda pátria. Martius já havia tentado vir ao País antes e solicitou uma expedição ao rei da Baviera, mas o pedido foi negado por falta de recursos. O resultado da viagem se encontra em numerosas obras que podem ser encontradas na biblioteca do Instituto de Biociências.

Outro livro sobre viajantes no Brasil é a Histoire d"un voyage faict en la terre du Brésil, de Jean de Léry (1534-1611). Léry, estudante de teologia em Genebra, viajou ao Brasil em 1556 integrando o grupo de colonizadores e pastores protestantes solicitado por Nicolas Durand de Villegagnon ao reformador João Calvino. Villegagnon havia fundado uma colônia na atual Baía de Guanabara a fim de reunir homens de todos os credos religiosos. Quando o grupo chegou ao País, no entanto, o fundador da colônia começou a persegui-los, submetendo-os a um regime intolerável. Léry e alguns companheiros conseguiram escapar após grandes tribulações e foram escondidos por índios. Depois de voltar para a França, diante do interesse de seus amigos pela viagem e para revelar a atitude de Villegagnon contra os protestantes, ele escreveu o livro. O trabalho traz não apenas um relato dos acontecimentos, mas também observações sobre o clima, a flora, a fauna e os índios brasileiros. O acervo possui também obras do naturalista inglês Charles Darwin (leia texto ao lado).

Estudos brasileiros

No catálogo da biblioteca constam também obras de brasileiros, com destaque para a história de frei José Mariano da Conceição Velloso. Citado por José Mindlin como autor de um dos trabalhos mais importantes do acervo, o religioso mineiro teve o apoio do governo brasileiro para as suas extensas pesquisas em botânica e sobre peixes e insetos. No entanto, seu trabalho só foi publicado após sua morte, o que é estranho quando se considera que ele mesmo foi o responsável por uma editora que publicou cerca de 80 títulos em Portugal.

"A menos que existisse proibição velada à publicação da Florae fluminensis sob pena de divulgar as preciosidades do Brasil, não se entende por que ela não foi publicada. O mesmo destino teve uma obra de frei Mariano sobre os peixes do Brasil, cuja publicação também havia sido autorizada logo após sua chegada a Lisboa", escreve o professor do Departamento de Zoologia do Instituto de Biociências e colaborador do catálogo, Miguel Trefaut Urbano Rodrigues. Segundo ele, a obra completa do frei é muito rara hoje. Apesar de terem sido impressos 2 mil exemplares, apenas 500 vieram para o Brasil, os quais ficaram guardados em depósitos do governo do Rio de Janeiro e acabaram estragados.

Além de livros, a biblioteca do Instituto de Biociências possui também os exemplares publicados entre 1904 e 1909 da revista científica, artística e literária Kosmos, uma das mais belas produzidas no Brasil na época, segundo o professor Trefaut. "Para o geógrafo, botânico, zoólogo e ecólogo, as fotografias de paisagens de um Brasil hoje desaparecido, especialmente na região da mata atlântica, constituem documentação histórica da maior importância", afirma.

Ciência, História e Arte - Obras Raras e Especiais do Instituto de Biociências da Universidade de São Paulo, de Nelsita Trimer (organizadora), Edusp e Fapesp, 352 páginas. O lançamento ocorrerá nesta terça-feira, dia 15, a partir das 18 horas, na Livraria João Alexandre Barbosa (avenida Professor Luciano Gualberto, travessa J, nº 374, térreo, Cidade Universitária, telefone 3091-4156).

As antigas flora e fauna do Brasil

Entre as obras raras da biblioteca do Instituto de Biociências estão os 40 volumes da Flora Brasiliensis, de Karl von Martius (1794-1868), e a Florae Fluminensis, de frei José Mariano da Conceição Vellozo (1742-1811), impressa em Paris em 1827. A Flora Brasiliensis descreve detalhadamente 22.767 espécies vegetais, das quais 5.939 eram até então desconhecidas. A obra contém ainda 3.800 ilustrações.

A Encyclopédie d"histoire naturelle, de Jean Charles Chenu (1808-1879), uma das mais importantes enciclopédias de história natural do século 19, com cerca de 7 mil páginas, 800 gravuras e outras 5 mil gravuras em madeira, também faz parte do acervo da biblioteca. Essa enciclopédia pertencia inicialmente à Escola Politécnica, localizada à época na região central de São Paulo. Durante a Revolução de 1924, tais obras, assim como outras do acervo da Politécnica, sofreram alguns estragos com os ataques de balas e granadas ao prédio.

Obviamente, a obra de Charles Darwin (1809-1882) está presente na forma de mais de 25 títulos, dentre os quais se destacam, além da edição de 1873 de L"origine des espèces au moyen de la sélection naturelle, uma edição de 1878 do livro Les récifs de corail, livro que traz informações coletadas por Darwin na famosa viagem a bordo do Beagle, que aborda a geologia dos corais dos Oceanos Pacífico e Índico, principalmente.

Merece destaque em meio ao enorme acervo o trabalho do alemão Peter Simon Pallas (1741-1811), intitulado Miscellanea zoológica. Ele viajou pela Sibéria entre 1768 e 1774 a convite da imperatriz russa Catarina II, tendo depois publicado o relato da primeira descoberta de um rinoceronte totalmente preservado nas geleiras, que serviu de base para as hipóteses sobre as grandes alterações climáticas do globo de Georges Louis Leclerc, o conde de Buffon (1707-1788), e do Barão Georges Cuvier (1769- 1832), o pai da anatomia comparada e da paleontologia. Fazem parte do acervo do Instituto de Biociências obras de ambos, sendo que as de Cuvier contêm belíssimas pranchas aquareladas à mão.