Notícia

Jornal da Tarde

Acervo histórico de escolas ameaçado

Publicado em 22 setembro 2008

Os livros de matrículas registram datas de 1898, os pianos foram importados pelo governo no início do século e as fotografias retratam o refinamento das primeiras escolas públicas fundadas no Estado de São Paulo. Essas são algumas das preciosidades encontradas em mau estado de conservação nos 79 antigos colégios visitados pelo Centro de Memória da Educação da Faculdade de Educação da Universidade de São Paulo (CME/FE-USP).

A inexistência de políticas públicas de preservação do acervo escolar é uma das causas que levam diretores a ficar de mãos atadas frente ao patrimônio - por não receberem orientação para cuidar das peças, além de sequer ter espaço para guardá-las. Este é o caso dos arquivos do início do século da Escola Estadual Pereira Barreto – antiga Escolas Reunidas da Lapa, que acaba de completar 100 anos –, hoje, guardados em um porão úmido.

Desde o início do ano, o CME/FE-USP, com o aval da Secretaria Estadual de Educação e financiamento da FAPESP e do CNPq, iniciou o mapeamento do acervo das primeiras escolas públicas de São Paulo. Serão visitadas 215 unidades em todo o Estado até o fim de 2009. O objetivo do projeto é, a partir do diagnóstico, trabalhar junto à Secretaria Estadual de Educação para criar meios de preservação dessa memória.

O Caetano de Campos, primeiro colégio do Estado de São Paulo, que hoje abriga a Secretaria Estadual de Educação, não está na lista de visitas porque já possui ações voltadas para a preservação de seu acervo.

Mobília centenária no bar

Uma das conseqüências da inexistência de política pública evidenciada com as visitas dos pesquisadores da USP é a perda de parte do acervo dessas escolas. Foi o que aconteceu com as primeiras carteiras escolares da Escola Normal de Piracicaba, fundada em 1911, atual Escola Estadual Sud Menuci. Hoje elas decoram um bar desse município do interior paulista.

Muitas escolas, ao longo dos anos, tiveram de se desfazer dos móveis antigos para receber os novos enviados pelo governo. “O dono do bar comprou o mobiliário em um ferro velho. O mesmo aconteceu com os móveis escolares em um sebo em São Carlos”, diz a pesquisadora do CME/FE-USP Iomar Zaia. Nesse contexto, ela ressalta a importância da ação da universidade em parceria com o poder público.

A Secretaria Estadual de Educação reconheceu no início do ano a ausência de políticas públicas para a preservação de todas as escolas e iniciou a busca de parcerias. Segundo Maria Salles, coordenadora do Centro de Referência Mário Covas – órgão ligado à pasta que atua na preservação do patrimônio escolar – o primeiro passo é o diagnóstico por meio de parcerias, como a da USP, para apoiar os colégios na conservação.

Para o ano que vem, a pasta pretende iniciar a digitalização do acervo em papel, além de registrar as peças encontradas. “Estamos abertos às parcerias. Conforme recebermos os diagnósticos das escolas, pretendemos incentivar a criação de centros de memórias e capacitação dos funcionários para manter o acervo aberto à comunidade.”

O professor do curso de conservação e restauro de bens culturais móveis e integrados da PUC-SP, Júlio Moraes, aponta a criação de centros de memórias como o ideal para trabalhar educação patrimonial. Diários antigos guardados em porões e móveis nos entulhos de obras nas escolas foram cenas presenciadas pelo professor ao longo dos 22 anos de trabalho com restauro. “Já fizemos exames cuidadosos de prédios escolares e pude ver valiosos tesouros de memória descartados ou em porões”, conta.