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A.C.Camargo lança incentivo privado para pesquisa e dita tendência

Publicado em 18 março 2013

Por Paulo Silva Jr.

A seção de biografias do site do hospital A.C.Camargo conta a história de sete personalidades que, nas palavras da instituição, “dedicaram suas vidas” para a história do reconhecido centro de excelência em câncer. O último deles é Ricardo Renzo Brentani, um ítalo-brasileiro que morreu em 2011 reverenciado como médico pioneiro no País.

Mas se um mal súbito interrompeu a vida do pesquisador aos 74 anos, o hospital tratou logo de mantê-lo presente na rotina da nova geração de cientistas.

No final de 2012 foi criado um subsídio com o nome daquele que presidiu o A.C.Camargo por mais de uma década. Com recursos próprios no montante de R$ 500 mil, o Prêmio Professor Ricardo Renzo Brentani contemplou nove profissionais com valores entre R$ 20 mil e R$ 100 mil.

“Fazia pouco tempo que o professor Brentani havia falecido. Então era em parte uma homenagem, uma forma de levar as ideias dele no sentido da importância da pesquisa. A instituição quis mostrar que existia um compromisso com os pesquisadores. Mostrar que ele não está mais, mas a instituição está garantindo as ideias que o professor tinha”, conta a diretora do Centro Internacional de Pesquisa do A.C.Camargo, Vilma Regina Martins. “Acho que a tendência é que isso comece a acontecer, porque o paciente tem de acreditar nas pessoas que estão trabalhando. Esse retorno é muito grande”.

Vilma destaca também que o hospital, numa iniciativa privada e independente, acaba por motivar uma modalidade que muitas vezes não tem espaço junto aos órgãos de fomento, caminho natural de financiamento dos projetos. “O hospital prestigia um tipo de pesquisa que é muito ousada, onde você não tem dados preliminares para mostrar. Quando você ainda não teve resultados para expôr, é mais difícil [conseguir o patrocínio]. Algumas pesquisas envolvem casos específicos de pacientes. E algumas pessoas contempladas são jovens, que estão começando, e às vezes quando você tem ainda uma produção pequena acaba tendo menos chance de competir”, completa, ressaltando ainda os valores trabalhados. “Um jovem pesquisador no projeto universal do CNPQ, por exemplo, ganha em torno de R$ 20 mil. No nosso prêmio, a menor bolsa foi de R$ 20 mil. Então é significativo”.

Antônio Hugo Campos é o autor de um dos dois projetos que levaram o valor máximo de R$ 100 mil cada. No departamento de Anatomia Patológica ele apresentou o “Impacto do tempo de devitalização em tecidos criopreservados para análise de expressão gênica em massa”. Ele classifica como “grandes” a cobrança e a responsabilidade de se trabalhar em novas pesquisas no A.C.Camargo. E compara o prêmio interno aos editais de fomento público.

“A grande diferença é o fato de ser um estímulo da própria instituição, o que cria uma interação entre o corpo clínico e os pesquisadores básicos. As exigências de análise por experts, o cronograma e os relatórios científicos e financeiros são rígidos como as das agências”, opina.

E apesar da prática ainda não ser comum nos hospitais particulares, Campos vê o futuro próximo com otimismo. “Outras instituições também estão tentando aliar a pesquisa à assistência. E o Brasil tende a ganhar com isso, inclusive do ponto de vista da visibilidade internacional”.

Outro que viu o projeto render R$ 100 mil é Emmanuel Dias-Neto, que em parceria com Luiz Paulo Kowalski, no departamento de Cirurgia de Cabeça e Pescoço, concluiu o “Estudo molecular em larga escala para distinção entre recidiva verdadeira ou segundo tumor primário dem carcinomas epidermópides da boca”.

“A gente está entrando numa tendência mundial de ter clínicos cada vez mais capacitados para atender. Muito mais que o atendimento pontual da retirada de um tumor. E sim resolvendo o problema da doença, não só do paciente. O problema é que na rotina clínica é difícil você encaixar isso com a demanda do consultório e as dezenas de pacientes por dia. Então o prêmio vem para estimular os médicos”, acredita Dias-Neto.

Entraves

O pesquisador, apesar do sucesso com esse último trabalho, aponta ainda algumas falhas do setor no País. Para Dias-Neto, o principal gargalo a ser enfrentado ainda é a burocracia. “Eu trabalhava nos Estados Unidos e pagava num equipamento 20% do preço de catálogo. Aqui pago três vezes isso. Importar um material para pesquisa é igual importar um pneu para um caminhão. Não há distinção”.

Na mesma linha fala o assessor da diretoria científica da Fapesp, Hernan Chainovich. “A diferença para outros países é a legislação brasileira, que ao invés de estimular, às vezes impede esse tipo de iniciativa. Temos poucos prêmios dessa magnitude. Por isso para o ponto de vista da Fapesp é fantástico, gostaríamos de logo ver isso em todos os hospitais”.

A Fapesp é, aliás, responsável pela maior parte do fomento das cerca de 200 pesquisas feitas por ano no A.C.Camargo. Pelos números da fundação como um todo, por volta de 30% do investimento em inovação são destinados à área de saúde. “Em certas áreas o Brasil está bem em termos de volume; em outras, em termos de impacto. Uma das áreas que o Brasil tem avançado em impacto é exatamente a pesquisa em câncer. Não somos totalmente competitivos mundialmente ainda, mas entre as áreas que temos qualidade, está essa”, finaliza.

Vencedores do Prêmio Ricardo Renzo Brentani:

Pesquisador: Antônio Hugo Campos

Departamento: Anatomia Patológica

Valor: R$ 100 mil

Projeto: Impacto do tempo de devitalização em tecidos criopreservados para análise de expressão gênica em massa

Pesquisador: Luiz Paulo Kowalski

Departamento: Cirurgia de Cabeça e Pescoço

Valor: R$ 100 mil

Projeto Estudo molecular em larga escala para distinção entre recidiva verdadeira ou segundo tumor primário em carcinomas epidermópides de boca

Pesquisador: Marcus Duarte

Departamento: Diagnóstico por Imagem

Valor: R$ 50 mil

Projeto: Avaliação do exame de ressonância magnética no corpo inteiro (RMCI) no estadiamento dos pacientes oncológicos pediátricos

Pesquisador: Hirofumi Iyeyasu

Departamento: Mastologia

Valor: R$ 50 mil

Projeto: Avaliação da clonagem do câncer de mama bilateral

Pesquisadora: Maria Dirlei Ferreira de Souza

Departamento: Anatomia Patológica

Valor: R$ 50 mil

Projeto: Determinação do perfil de expressão miRNA em carcinomas de endométrio: correlação com dados clínicos e histopatológicos

Pesquisador: Samuel Aguiar Junior

Departamento: Tumores Colorretais

Valor: R$ 50 mil

Projeto: Identificação de perfis imunoistoquímicos e de variantes polifórmicas de genes envolvidos no metabolismo do 5-fluorouracil como preditores de resposta à radioterapia e quimioterapia neoadjuvantes em adenocarcinomas de reto

Pesquisador: Rubens Chojniak

Departamento: Diagnóstico por Imagem

Valor: R$ 50 mil

Projeto: Análise morfológica de células tumorais circulantes em comparação com tumor primário e metástase em diversos tumores epiteliais metastáticos

Pesquisador: Wesley Andrade

Departamento: Mastologia

Valor: R$ 30 mil

Projeto: Tratamento não cirúrgico de câncer de mama: avaliação e seleção de pacientes com resposta completa após tratamento com quimioterapia neoadjuvante

Pesquisador: Vítor Piana de Andrade

Departamento: Anatomia Patológica

Valor: R$ 20 mil

Projeto: Avaliação do índice proliferativo dos carcinomas da mama: aspectos técnicos e utilidade clínica

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