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Agro Sustentar (São Paulo)

Ácaro-rajado, Praga Comum no Mamão, é Encontrado em Cafezais e Preocupa Pesquisadores e Produtores. (16 notícias)

Publicado em 06 de maio de 2025

Descoberta ocorreu em plantios consorciados no norte do Espírito Santo, onde os aracnídeos atacaram folhas jovens da espécie Coffea canephora, provocando deformações, necrose e queda prematura.

Agência FAPESP * – Estudo publicado na revista Acarologia trouxe um alerta para produtores de café do Espírito Santo: o ácaro-rajado ( Tetranychus urticae ), tradicionalmente uma praga do mamão naquela região, causou danos expressivos em alguns cafezais da variedade Coffea canephora (o café conilon). A descoberta ocorreu em plantios consorciados com mamão no município de Boa Esperança, no norte do Estado, onde os ácaros atacaram folhas jovens do café, provocando deformações, necrose e queda prematura.

“Em nosso projeto de pesquisa nós rodamos o Brasil todo coletando ácaros para conhecer melhor a diversidade desses organismos nos diferentes biomas. Um de nossos parceiros do Espírito Santo entrou em contato relatando o problema no café e nós fomos até o local para registrar, já que este é o primeiro relato do ácaro-rajado atacando cafeeiros” , explica Raphael Castilho , professor do Departamento de Entomologia e Acarologia da Escola Superior de Agricultura Luiz de Queiroz da Universidade de São Paulo (Esalq-USP) e um dos autores da publicação.

O Brasil é o maior produtor mundial de café e o Espírito Santo lidera a produção da variedade conilon, responsável por cerca de 30% da safra nacional. Nessa região, é comum o cultivo em consórcio de café e mamão nos primeiros anos de implantação da lavoura, uma prática que visa o sombreamento dos pés de café durante seu crescimento ao mesmo tempo em que garante uma renda ao produtor enquanto o café ainda não está em plena produção. No entanto, a proximidade com os mamoeiros – hospedeiro preferencial do ácaro-rajado – pode ter facilitado a migração para os cafeeiros.

O cultivo consorciado visa o sombreamento dos pés de café durante seu crescimento ( foto: Raphael Castilho/USP)

Os pesquisadores observaram que os ácaros, em diferentes estágios de desenvolvimento, se concentravam no verso das folhas jovens de café, produzindo teias abundantes e causando malformação foliar (folhas retorcidas e deformadas), necrose (tecido foliar morto) e queda prematura de folhas, comprometendo o desenvolvimento das plantas. Em um dos locais analisados, cerca de 30% das plantas foram afetadas e o comportamento do ácaro-rajado no café chamou a atenção: enquanto em outras culturas ele costuma atacar folhas mais velhas, no café o ataque ocorreu em folhas jovens, um padrão incomum, cuja razão precisa ser investigada.

Ácaros em diferentes estágios de desenvolvimento se concentravam no verso das folhas jovens de café, causando malformação ( foto: Raphael Castilho/USP)

Segundo os pesquisadores, o fato de a espécie ser um dos principais problemas fitossanitários do mamão no Brasil, e de difícil controle, leva produtores a intensificar o uso de acaricidas, muitas vezes de forma excessiva ou indiscriminada. Isso pode ter levado à seleção de populações mais resistentes do ácaro-rajado que, por sua vez, migraram para o café. Ou, ainda, pode ter eliminado inimigos naturais do ácaro, agravando o problema. “Também não podemos descartar as mudanças climáticas como um fator importante. O ácaro-rajado gosta de ambientes com umidade mais baixa e temperaturas mais altas e as mudanças climáticas podem estar impactando a região estudada exatamente nesse sentido”, destaca Castilho.

As recomendações para quem pratica o plantio consorciado é fazer o monitoramento frequente dos cafeeiros e também nos mamoeiros. No caso de presença do ácaro-rajado, o controle pode ser realizado com o uso de acaricidas apenas no mamoeiro, pois não existem registros no Ministério da Agricultura e Pecuária (Mapa) de acaricidas para o controle do ácaro-rajado em cafeeiros. Esse controle químico deve ser feito sempre em dosagens e quantidade de aplicações adequadas ao local, evitando o uso indiscriminado ou excessivo, além de rotacionar produtos com modo de ação diferentes.

“Nos cafeeiros, e também nos mamoeiros, uma das opções que indicamos é o controle biológico utilizando espécies de ácaros predadores, que controlam eficientemente a população do ácaro-rajado” , explica Castilho. “As duas espécies mais utilizadas no Brasil são Neoseiulus californicus e Phytoseiulus macropilis, que já são produzidas comercialmente no Brasil e são registradas no Mapa para o controle do ácaro-rajado em qualquer cultura agrícola.”

O uso de ácaros predadores para o controle biológico é considerado uma forma eficiente e sustentável para o controle de pragas na agricultura. Ampliar o conhecimento da diversidade de ácaros predadores nos diferentes biomas brasileiros é o objetivo central da pesquisa – apoiada pela FAPESP – que deu origem à descoberta retratada nesta matéria. O grupo mapeou e descreveu as espécies encontradas e estabeleceu criações de laboratório com aquelas de maior potencial de aplicação na agricultura. O trabalho foi conduzido no âmbito do Programa BIOTA-FAPESP

O artigo A pest out-of-place: two-spotted spider mite, Tetranychus urticae (Tetranychidae), on coffee plants pode ser lido em: https://www1.montpellier.inrae.fr/CBGP/acarologia/article.php?id=4762

* Com informações de Érica Speglich, do boletim BIOTA Highlights.