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Diário de Pernambuco online

Açafrão-da-índia pode ajudar no combate à dengue

Publicado em 08 junho 2015

Por Augusto Pio

Belo Horizonte — A dengue atingiu números alarmantes este ano em todo o país. E, cada vez mais, pesquisadores investem na busca de soluções para combater a transmissão do vírus pelo mosquito Aedes aegypti. Na cidade paulista de São Carlos, um composto extraído da raiz do açafrão-da-índia está sendo testado com sucesso no combate às larvas do inseto. “A curcumina, uma das substâncias que conferem a cor alaranjada ao açafrão, tem propriedades fotodinâmicas naturais. Na presença da luz, ela induz à produção de espécies reativas de oxigênio, que são altamente tóxicas”, explica o professor da Universidade de São Paulo (USP) Vanderlei Bagnato, coordenador do estudo.

A pesquisa consiste em usar uma substância que, ao ser colocada na água e ingerida pelas larvas do Aedes, faz com que elas morram. “Como as larvas são basicamente transparentes, se essa substância provocar uma forte reação sob a luz do Sol, poderemos eliminá-las, colocando a curcumina durante a noite e esperando o dia para fazer o trabalho. Esse tipo de reação, na qual a luz induz à morte pela produção de oxidação, chama-se ação fotodinâmica e vem sendo estudada em diversos laboratórios em diferentes contextos”, observa Vanderlei.

Segundo ele, há alguns anos, um grupo de cientistas de sua equipe vem investigando derivados do açafrão para controle microbiológico. “Basicamente, colocamos a substância em um local, iluminamos e eliminamos os micro-organismos. Essa é uma pesquisa grande que temos feito com financiamento da Fapesp e da Finep, que nos tem permitido introduzir diversas técnicas para controle de infecções. Dessa atividade, e motivados pelo trabalho de um grupo de cientistas italiano, é que surgiu a ideia de realizar um estudo com as larvas do mosquito da dengue”, observa o professor.

O grupo de pesquisa brasileiro é composto por diversos especialistas, liderados por Natália Inada e Cristina Kurachi. “Além disso, temos participação de professores da Universidade Federal de São Carlos (Ufscar), que atuam no mesmo centro que nós, e também uma empresa que vem se empenhando para nos ajudar a produzir moléculas derivadas do açafrão.”

Testes

O pesquisador salienta que foram feitas inúmeras avaliações em laboratório e também em viveiros. “Nosso próximo passo é fazer um teste de campo. Para isso, precisamos de parcerias com instituições aptas a realizar conosco o exame”, informa Vanderlei, assinalando que o resultado foi excelente, matando por completo as larvas, mesmo na sombra. Ele ressalta ainda que foram feitos ensaios com outros mosquitos. E revela que em breve o método será testado no Anopheles, responsável pela transmissão da malária.

Na experiência mais bem-sucedida, 100% das larvas de Aedes aegypti presentes na amostra morreram depois de oito horas de exposição à luz solar, — a taxa de mortalidade começou a subir depois das duas primeiras horas. “Como o composto à base de curcumina se degrada num período de 24 horas, a aplicação nos criadouros teria de ser periódica, no caso de ser adotado em uma estratégia de prevenção da dengue. Para testar a viabilidade da proposta seria necessário haver interesse das autoridades sanitárias”, destaca o professor.

Ele conta que há uma empresa interessada em desenvolver o produto. “Esperamos que chegue ao mercado o mais rapidamente possível. Contra a dengue precisamos de diversas armas. As que estão aí parecem não estar dando conta. Sendo uma substância de origem vegetal e natural, a curcumina já é mais amigável ao meio ambiente. Além disso, ela se degrada depois de interagir com a luz do Sol, e os fragmentos moleculares resultantes são totalmente inofensivos. A única ‘desvantagem’ é que teremos que constantemente colocar algumas gotas do produto em locais que possam acumular água.”

Caso saia dos câmpus da universidade, esse produto seria de fácil acesso à população, pois sua forma de usar é bastante fácil: é preciso colocar, nas formas em pó ou líquida, alguns miligramas ou mililitros por litro de água. “As larvas digerem a substância, que fica acumulada no seu trato digestório. Sendo a larva transparente, a luz do Sol age sobre a substância, fazendo com que o oxigênio seja convertido em uma espécie reativa, destruindo todas as partes da larva. A oxidação é como queimar com fogo, tem destruição completa. É um produto totalmente inofensivo ao usuário. Como não somos transparentes, nem se bebermos grandes quantidades seremos atingidos pela luz”, garante Vanderlei.

Estado de Minas