Notícia

Revista PIB - Presença Internacional do Brasil

Academia global

Publicado em 01 agosto 2011

Por Christine Puleo

A Ohio State University (OSU), uma importante instituição de pesquisa dos Estados Unidos, com cerca de 65.000 alunos em Columbus, prepara-se para abrir um escritório em São Paulo até o fim deste ano. O esforço é liderado por William Brustein, vice-reitor para assuntos estratégicos e relações internacionais da escola. Ela não será a primeira. A OSU vem se unir a uma série de instituições que já marcam terreno no Brasil. A tradicionalíssima Universidade de Harvard foi a pioneira. A unidade, inaugurada em 2006 na Avenida Paulista, é dedicada a fomentar a pesquisa, incentivar estudos de alunos e professores e proporcionar um ambiente hospitaleiro para brasileiros com destino aos Estados Unidos. Assim como a representação de Harvard, o Brazilian Global Gateway, da OSU, não é um escritório de recrutamento. Mas não há dúvida: o que quer mesmo é atrair estudantes brasileiros para suas salas de aula.

Assim como as americanas, universidades do mundo todo estão cortejando estudantes no Brasil. O interesse pode ser explicado em números. Com 8,3 milhões de alunos no ensino médio, o potencial brasileiro de futuros graduandos está em franca ascensão. Em 2008, apenas 11% das pessoas com idade entre 25 e 64 anos tinham diploma universitário no país. Entre os membros da Organização para a Cooperação e o Desenvolvimento Econômico (OCDE), que reúne os países mais desenvolvidos do mundo), a média é de 28%. O Chile, por exemplo, tem 24%, e a Rússia, 54%. Nesse contexto, o país tornou-se um mercado estratégico para escolas internacionais em busca de novos alunos. E, sobretudo, de alunos com alta performance acadêmica. "Além de seu poder econômico e vastos recursos naturais, a commodity mais valorizada do Brasil é o talento", reforça Paul Davidson, presidente da Associação de Universidades e Colégios do Canadá.

Em maio deste ano, a University AllianceMetropolisRuhr(UAMR),um consórcio de três universidades alemãs, montou um escritório no Rio de Janeiro. As escolas, Ruhr-Universität Bochum, TechnischeUniversitätDort-mund e Universität Duisburg-Essen, também têm planos de abrir uma representação em São Paulo até o fim deste ano. A decisão da UAMR de marcar presença no Brasil foi motivada por um desejo muito maior do que simplesmente encher seus campi com estudantes brasileiros. Elas querem cérebros.

Essas escolas foram incentivadas a promover o "ganho de cérebros" -o oposto do termo conhecido como "brain drain" (drenagem de cérebros, em inglês), em que talentos nacionais abandonam o país em busca de melhores oportunidades, conta Christoph de Oliveira Käppier, da Technische Universität Dortmund. Käppier, que foi durante anos professor visitante na Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), observa que, enquanto a população estudantil na Alemanha deve diminuir no futuro, o Brasil oferece um conjunto crescente de estudantes que podem estudar, pesquisar, ensinar e se tornar especialistas em seus campos de atuação. A busca, então, é pela importação de talentos embrionários. Para atrai-los, a maior das barreiras caiu: a fluência no alemão já não mais é uma precondição para se inscrever em algum dos programas oferecidos. Logo que chegam ao país, os brasileiros passam a contar com cursos intensivos de alemão com duração de um semestre.

Se as universidades estrangeiras estão de olho nos cérebros brasileiros, o Brasil está atento também ao potencial da formação de alto nível de seus talentos no exterior. Curiosamente, toda essa movimentação em busca de alunos no Brasil ocorre no momento em que o governo brasileiro anuncia que passa a ser prioritário ao país o envio de estudantes ao exterior. O objetivo é a capacitação de talentos, que, com uma formação global, tornam-se elementos ativos do processo de inserção internacional do Brasil. Em abril, a presidente Dilma Rousseff anunciou a oferta de 75.000 bolsas complementares de estudo no exterior para alunos do ensino médio ao pós-doutorado.

E os estudantes têm correspondido. O número de brasileiros estudando no exterior só cresce - esse índice quase quadruplicou desde 2004, passando de 42.000 para 160.000 em 2010, considerando todos os níveis de ensino (veja outros números no quadro na pág. 72). E deve aumentar ainda mais. "O Brasil é a bola da vez. Todos estão intrigados com o que está acontecendo no país", explica Thomas Trebat, diretor executivo do Instituto de Estudos Latino-Americanos de Columbia University e chefe do Centro de Estudos Brasileiros. A escola, que montou recentemente escritórios, chamados Global Gateway Offices, em Pequim, Paris, Amã e Mumbai tem planos para abrir dois desses centros na América Latina - o Rio de Janeiro é o local mais cotado para abrigar a representação brasileira.

Enquanto as escolas fazem sua parte, governos também alavancam as relações governamentais bilaterais. O presidente da Alemanha, Christian Wulff, reuniu-se, em maio, com a presidente Dilma Rousseff para discutir o aumento do intercâmbio acadêmico entre a Alemanha e o Brasil. Uma das novidades dessa visita foi o anúncio, em São Paulo, da futura Casa Alemã de Ciência e Inovação (DWIH), que vai reunir escritórios de instituições de pesquisas que tenham projetos de parceria com centros de pesquisa brasileiros. Depois dos alemães, foi a vez dos ingleses. Em junho, uma missão comercial britânica no Brasil, encabeçada pelo vice-primeiro-ministro Nick Clegg, contou com o reforço do ministro das Universidades e Ciência, David Willetts, interessado em fortalecer os vínculos educacionais e de cooperação científica com o Brasil. Eles foram recebidos pelo ministro brasileiro de Ciência e Tecnologia, Aloísio Mercadante, e por personalidades da área acadêmica, como o diretor científico da Fapesp, Carlos de Brito Cruz. Durante a visita, os representantes do governo britânico anunciaram 20 bolsas integrais de três anos de estudo para estudantes de doutorado nas universidades de Birmingham e de Nottingham. Além disso, as escolas ofereceram um Programa de Fellows de três meses de visita para 20 professores e pesquisadores de pós-doutorado júnior que estejam ligados a universidades brasileiras.

Experts em Brasil

Além de ser um celeiro para universitários em potencial, o Brasil também conta com mais uma característica importante para as universidades internacionais: ninguém o conhece melhor que seus próprios moradores. Como o país em desenvolvimento não pode mais deixar de estar presente em grandes discussões, universitárias ou não, contar com alunos brasileiros em sala de aula é incentivar a visão global do grupo.

E por isso que os brasileiros estão na mira da Amos Tuck School of Business, um dos dez melhores programas de MBA dos EUA, localizado no campus do Dartmouth College. Até muito recentemente, a escola recebia, em média, seis estudantes brasileiros por ano. A atual classe de graduação tem 19 deles, 5% de todo o grupo. Quando chegam ao campus, esses estudantes rapidamente percebem que o país é tema quente, diz o estudante Thiago Teodoro. "Não são apenas os departamentos de matrículas; os professores estão interessados no Brasil também. Eles querem ouvir a nossa perspectiva, assim como a de outros países em desenvolvimento, para que possamos compartilhar nossas experiências de trabalho", diz ele. Thiago é chefe do programa de embaixadores do Brasil, estratégia adotada pela escola que lança mão de alunos com origem em outros países para divulgar seus cursos mundo afora.

A especialista em educação internacional Rosi Vieira, do Canadian University Applications Centre (Cuac), escritório que representa as universidades canadenses pelo mundo, concorda. Ela menciona que os professores estrangeiros têm prazer em dar aula a estudantes brasileiros por serem muito participativos e liderar as discussões em grupo. Para atraí--los, o Cuac abriu, há dois anos, seu escritório em São Paulo. Dirigido por Rosi, promove programas de graduação e pós-graduação e orienta os candidatos no processo de admissão. No Canadá, diplomados estrangeiros não têm dificuldade para obter vistos de trabalho enquanto procuram emprego - o que tem incentivado a ida de brasileiros ao país. Mas assim como o consórcio alemão, na hora de recrutar, as escolas canadenses são seletivas. As áreas prioritárias são engenharias Civil, Elétrica e Mecânica, Finanças e Gestão. A McGill University, em Montreal, por exemplo, está promovendo no país um mestrado em gestão de manufatura em parceria com o escritório brasileiro do Cuac.

Escolha cega

Considerando cursos de graduação e pós-graduação, os brasileiros são o 14° maior grupo de estudantes estrangeiros nos EUA, com 8.786 alunos matriculados no ano letivo de 2009/2010, segundo dados recentes do Instituto Internacional de Educação(IEE),vinculado ao Departamento de Assuntos Educacionais e Culturais da Secretaria de Estado americana. Durante o ano letivo de 2008/2009, o número de brasileiros em universidades dos EUA já havia aumentado cerca de 15%.

Se depender dos esforços das representações no Brasil, essa parcela deve aumentar ainda mais. A Universidade de Yale, por exemplo, realiza um evento anual para atrair estudantes de graduação para seus domínios e acena com vantagens que poucas podem oferecer. Yale faz parte de um pequeno grupo de universidades americanas "need-blind admissions", que delibe-ramente deixam de avaliar as condições financeiras do candidato durante o processo de admissão, seja americano ou estrangeiro. Harvard é outra que faz parte do grupo. Isso significa que os encarregados de selecionar os candidatos fazem vista grossa quanto à situação financeira deles. Quem for aceito, mas não tiver condições de pagar seus estudos, recebe da universidade subsídios, bolsas e outros auxílios para custear sua presença na instituição. De acordo com Jean Lee, codiretor de admissões de Yale, as inscrições para graduação feitas por estudantes brasileiros duplicou nos últimos cinco anos. Existem hoje cerca de 15 estudantes brasileiros no campus.

Aumentar efetivamente a presença brasileira exige também apaziguar as diferenças culturais, como sinaliza Yale. Um exemplo é o custo de uma boa educação universitária. Fora do Brasil, as melhores escolas cobram valores substanciais; no Brasil, as melhores escolas são, em geral, gratuitas. Outra diferença envolve o treinamento de profissionais. Nas instituições brasileiras, até mesmo os graduandos do primeiro ano podem fazer estágios práticos em seu campo de atuação. "No Brasil, a vida profissional começa ainda na escola", diz Rosi Vieira, do Cuac.

"Minha função é ajudar os candidatos a compreender que no Canadá o modelo de estudo vem em primeiro lugar e, em seguida, o início de uma carreira."

Outra diferença diz respeito ao reconhecimento dos cursos feitos no exterior. Não é raro acontecer de aqueles que retornam com um diploma de graduação terem dificuldade em conseguir com que as escolas de pós-graduação brasileiras honrem os créditos obtidos no exterior, sobretudo se o objeto de estudo for de uma área acadêmica diferente. Rosi Vieira, do Cuac, diz que, por conta disso, muitos estudantes que estão cursando graduação fora do país fazem a escolha de permanecer no exterior durante certo período de suas carreiras.

Não são só os estudantes brasileiros que estão indo para fora. O fluxo inverso, de estrangeiros interessados no Brasil, também é crescente. Desde a abertura do escritório de Harvard, mais de 450 estudantes da universidade viajaram ao Brasil para atividades acadêmicas e de pesquisa. Em 2010, os EUA enviaram um total de 2.777 alunos para o Brasil, uma tendência que aumenta progressivamente. Com isso, o Brasil deve, em breve, estar entre os 20 principais destinos mundiais de estudo - internacionalizando seus talentos e suas universidades.