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Celulose Online

ABTCP: De olho no futuro

Publicado em 29 maio 2007

Por Candida Lemos

Um percurso de 40 anos de história fez da ABTCP — Associação Brasileira Técnica de Celulose e Papel - o braço direito da indústria neste segmento. A associação saiu da função de mera ofertante de cursos de capacitação e, hoje, pensa no futuro. Integrada com universidades, outras associações e representantes ligados ao setor industrial, além, é claro, das próprias empresas de celulose e papel, a ABTCP caminha para se transformar em um sistema de inteligência, gerando e fornecendo informações preciosas para o setor.

O futuro, que torna tudo mais acelerado, gera, porém, uma crise: como avaliar o impacto das novas tecnologias digitais no consumo de papel? O presente também impõe uma necessidade: é preciso avançar tecnologicamente para otimizar ainda mais o uso dos recursos naturais e aperfeiçoar os processos de reaproveitamento.

Os 40 anos de fundação da ABTCP serão comemorados neste mês de maio, com uma homenagem aos seus fundadores e às empresas que participaram da sua criação. As conquistas e desafios da entidade são o tema da entrevista com o gerente institucional da ABTCP, Francisco Bosco de Souza.

celuloseonline - Segundo dados do BNDES (de 1995 a 2005), EUA, Japão e Canadá estão entre os maiores consumidores e produtores de papel do mundo. Qual o lugar ocupado pela indústria de celulose e papel do Brasil neste cenário? Qual tem sido papel da ABTCP neste contexto?

Francisco Bosco de Souza — Com relação a sua capacidade de produção, o Brasil, hoje, está no 11º lugar no ranking como produtor de papel. Como produtor de celulose, o país acrescentou um número, pulando para o sexto lugar entre os maiores produtores de celulose do mundo. Isso por causa do crescimento da capacidade produtiva da celulose de eucalipto, facilitada pelas nossas vantagens em termos de solo e clima, que favorecem o plantio do eucalipto para produção da celulose de fibra curta, parte importante do movimento da indústria de papel no mundo. Hoje, o país exporta celulose para todo o mundo, em especial, para grandes produtores de papel. Algumas empresas, inclusive, estão mudando seu foco de atuação, dando maior ênfase à produção de celulose, como é o caso da VCP, que recentemente fez troca de ativos para investir no segmento. Isso mostra qual é a tendência do Brasil com relação ao aumento da produção de celulose a partir de fibra curta. Para falar de consumo per capta de papel no Brasil, temos, no entanto, que fazer relação direta com o aumento da cultura e da leitura. Neste ponto, a ABTCP tem sido uma grande incentivadora deste desenvolvimento, que conduz a uma maior produtividade por parte das empresas e à capacidade de gerar empregos. Em relação ao desenvolvimento tecnológico do nosso parque fabril, desde a instalação da ABTCP e do início da produção de celulose de eucalipto podemos notar uma evolução que repercute na aceitação mundial da celulose brasileira no mercado e no mundo.

celuloseonline -  Em termos técnicos e tecnológicos, quais os maiores avanços da indústria de papel e celulose no país? Como a ABTCP tem contribuído com o cenário da inovação e formação de pessoal?

Francisco Bosco de Souza - Nesse ponto, o principal desenvolvimento tecnológico da indústria de papel e celulose no Brasil foi o domínio da cultura do eucalipto. Colaborou neste sentido o projeto Genoliptos, que contou com o apoio da Fapesp — Fundação de Apoio a Pesquisa de São Paulo, do Ministério da Ciência e Tecnologia, de universidades e um pool de empresas. O projeto conta com os estudos desenvolvidos nas universidades e com a experiência prática das empresas. Os resultados desse estudo serão disponibilizados para as empresas consorciadas. O objetivo é melhorar o aproveitamento do eucalipto, sobretudo em relação aos tipos de solo, visando a qualidade que se pretende obter da produção e a relação com as comunidades onde a cultura do eucalipto está inserida.

A substituição do uso do cloro por peróxidos e ozônio, no processo de branqueamento da celulose, é outra contribuição importante que trouxe ganhos para o meio ambiente. Qualquer tecnologia que favoreça esse desenvolvimento, e que já é aplicado hoje, contribui para a obtenção da melhor fibra branqueada, sem prejuízo ao meio ambiente e agregando valor à cadeia produtiva. Dentro deste panorama, temos ainda as tecnologias de tratamento de efluentes. Neste caso, o Brasil é avançado em termos de legislação e uma referência mundial nas práticas de tratamentos de resíduos pelas empresas.

Na produção do papel, temos o processo de conversão do ácido para o alcalino, empregado na colagem do papel, que contribui para o aumento de qualidade e durabilidade, já que preserva a qualidade da folha, principalmente no caso dos papéis de imprimir e escrever. Outra contribuição tecnológica importante está na área de recuperação, já que os gases eliminados no processo se transformam em energia e vapor necessários ao processo produtivo, reduzindo o impacto ambiental e aumentando a eficiência na recuperação de químicos para gerar energia. Hoje, as fábricas integradas, que produzem celulose e papel, têm auto-suficiência energética. É uma contribuição para o meio ambiente, para os avanços energéticos e para o processo produtivo das próprias empresas.

celuloseonline - Com o avanço dos debates na área ambiental, quais os desafios para a indústria de papel e celulose nos próximos anos?

Francisco Bosco de Souza — Um dos desafios é a redução do uso de recursos naturais, como a água, um bem que precisa ser preservado para consumo humano, além de energia e madeira. Para isso há os estudos para otimizar o uso destes recursos. Outro desafio é o melhor aproveitamento dos insumos utilizados desde o início até o final do processo produtivo, visando maior geração de resíduos e emissões. Por isso, outro desafio é a própria contribuição no programa de combate ao efeito estufa, através da emissão de créditos de carbono.

Dentro disso, nosso desafio como associação é buscar uma maior articulação setorial para realizar estudos sobre os grandes temas e para a busca de novos padrões de ecoeficiência, que vão levar a resultados em termos de qualidade ambiental e melhoria do ecosistema. Esse é um dos nossos maiores desafios, pois as necessidades são grandes e, hoje, as comunidades fazem questão de transparência no tratamento dos temas. Daí nosso esforço de articulação setorial e como braço técnico do setor patronal temos buscado isso.

Nos processos fabris, hoje, através do fechamento do circuito de máquinas, temos o reaproveitamento da água. Assim, o consumo de água por tonelada de celulose e papel produzida é muito menor do que antes e as empresas brasileiras são referência mundial em termos de redução do consumo de água. Os resíduos gerados são usados para adubação, confecção de telhas, por exemplo, agregando valor ao que antes era descartado. A reciclagem tem crescido mundialmente e no Brasil, no segmento de embalagens de papelão ondulado, números da Bracelpa de 2005 — 2006 mostram que já ultrapassamos os 62% de reaproveitamento.

celuloseonline - A ABTCP está completando 40 anos de atuação. Quais os maiores avanços na associação desde a sua criação?

Francisco Bosco de Souza - Iniciamos o trabalho com o fortalecimento de nossa identidade no setor. Com melhoria contínua e evolução, deixamos de ser ministrador de cursos e caminhamos para sermos um gerador de soluções para as empresas nas áreas de formação de recursos humanos, gestão de processos, diagnóstico tecnológico. Isso nos dará um retrato de como está a empresa e como podemos contribuir para a otimização dos processos através da transferência de tecnologia.

A própria articulação junto às agências reguladoras, a representação junto ao Conama — Conselho Nacional de Meio Ambiente, CNI, Fiesp — Federação das Indústrias do Estado de São Paulo, onde estamos dando contribuição técnica, faz parte desse processo. Hoje somos referência mundial em exposição técnica. Em termos de organização, consolidamos grupos de estudo e comissões técnicas que trocam experiências em áreas como automação, reciclagem, meio ambiente e normas técnicas. Aliás, funcionamos como um comitê de normas técnicas para o setor e temos liderança junto ao comitê técnico da ISO, além de coordenamos duas de suas subcomissões.

celuloseonline - Quais os próximos desafios para a associação?

Francisco Bosco de Souza - Continuar contribuindo com o aperfeiçoamento técnico do que já existe no mercado, como os cursos oferecidos pelo Senai, que precisam estar atualizados pois tecnologias estão evoluindo, com a preparação de novos gestores em termos tecnológicos, através de cursos de especialização e pós-graduação em celulose e papel. Pretendemos também maximizar o intercâmbio de artigos técnicos internacionais, através da nossa revista O Papel, de forma a ganhar maior expressão tecnológica. Hoje já somos referência internacional e, dentro do nosso planejamento estratégico para cinco a dez anos, estamos caminhando para uma linha de serviços de inteligência.

Este ano, estamos apresentando ao setor a composição de indicadores de benchmark para máquinas de papel de forma que as empresas possam fazer suas análises de eficiência e produtividade.

Outro estudo que acabamos de concluir é sobre tecnologia digital e sua influência para o papel de imprimir e escrever, o que será importante para que diversos segmentos possam estar integrados e aprimorar sua visão de futuro. A evolução mostra que tudo será mais acelerado e temos que ter corpo técnico para oferecer soluções para o segmento.

 Entrevistado: Francisco Bosco de Souza

Descrição: Gerente Institucional da ABTCP — Associação Brasileira Técnica de Celulose e Papel.