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Revista Philos online

ABRACADABRA: A poética e a magia de Beatriz Azevedo pelas lentes de Zé Celso

Publicado em 23 abril 2020

Por Jorge Pereira

Sempre fui um entusiasta do trabalho da Beatriz. A primeira vez que nos encontramos, em 2018, num restaurante na Lagoa Rodrigo de Freitas, falamos sobre política brasileira, antropofagias e nossas memórias sobre a Hilda Hilst. Faltavam duas semanas para a Flip – Festa Literária Internacional de Paraty, onde Beatriz estaria com Márcia Tiburi numa mesa na estreia da Casa Philos. Aquela noite de quarta-feira me rendeu muitas boas lembranças e o Sol da amizade antropofágica, das mãos de Bia. De lá pra cá nunca nos separamos, nossos encontros e abraços são uma grande alegria, e sempre acompanho os projetos, sonhos e anseios dessa amiga.

Beatriz Azevedo é poeta, compositora e performer, multiartista brasileira. Doutora em Artes da Cena (UNICAMP) e Mestre em Literatura pela USP. Estudou no Mannes College of Music em Nova York e na Sala Beckett em Barcelona. Atualmente é Pesquisadora de Pós-Doutorado na UNICAMP/FAPESP. Escreveu Antropofagia Palimpsesto Selvagem, publicado pela Cosac Naify e re-editado pela editora do Sesi, que conta com prefácio de Eduardo Viveiros de Castro e desenhos do artista Tunga; Abracadabra (Demônio Negro) com prefácio de Zé Celso Martinez Correa; Idade da Pedra e Peripatético com prefácio de Jorge Mautner (Iluminuras). Está nas antologias de poesia contemporânea Garganta e Ato Poético, organizada por Marcia Tiburi; no Lula Livro; e em Acabou Chorare, com Arnaldo Antunes e Caetano Veloso.

Gravou os discos A.G.O.R.A., com composições originais e participações de Moreno Veloso, Matheus Nachtergaele e Zélia Duncan, antroPOPhagia ao vivo em Nova York, gravado no Lincoln Center em Nova York; e Alegria, com participação de Tom Zé, todos pela Biscoito Fino; Mapa-Mundi e Bum bum do poeta, pela Natasha Records Brasil (Nippon Crown Japão).

Beatriz Azevedo criou parcerias musicais com Augusto de Campos, Cristóvão Bastos, Vinicius Cantuária, suas composições foram gravadas por Adriana Calcanhotto, Tom Zé, Zé Celso Martinez Correa, e outros. Dirigiu e assinou a dramaturgia dos espetáculos teatrais I Love Maiakovski e Lili Brik, Matamoros, Ópera Urbana Zucco, Bilitis, Fantasia de Fedra Furor, Funâmbulo, trabalhando com atores como Maria Alice Vergueiro, Lucélia Santos (no incrível Cabaré Transpoético), Magali Biff, Rosi Campos, Petrônio Gontijo, Jairo Mattos, Leopoldo Pacheco… Como atriz, foi dirigida por encenadores como Zé Celso Martinez Correa, Aderbal Freire-Filho (conheci Beatriz por meio de do Arte do Artista, do Adebal, na TV Cultura), Celso Nunes e Marcio Aurélio. Como tradutora, traduziu textos de Jean Genet e Bernard-Marie Koltès.

Ainda estava em Recife quando fiz o convite à Beatriz para participar da nossa edição de abril, para uma mostra de poemas de sua mais recente obra. Tudo é genial em ABRACADABRA, é cabalístico. Os poemas nos jogam nessa ilha de ruídos, de falas necessárias. Semanas depois, já no meio da pandemia que nos afeta, muito honradamente recebo em meu e-mail a mensagem de Beatriz, que diz: “Melhor que um ensaio… estou enviando em primeira mão… o texto do Zé Celso sobre o meu livro Abracadabra!” Zé Celso escreveu que Beatriz vem abrindo alas num mundo tomado pela Palavra Morta in Fake News. Abracadabra traz a palavra que conhece o seu ofício diante dessa enfermidade ligeira da linguística. Depois disso, nada mais posso fazer além de abrir espaço nesse singelo texto de abertura para o prefácio de Zé sobre a mágica e poética obra de Beatriz Azevedo:

Prefácio de Zé Celso

ao livro ABRACADABRA de Beatriz Azevedo

Bi-Atriz Azê

Yo, Vêdo

ABRACADABRÁSTE-TE

Muito Cêdo

Já depois do Golpichement

Y Atravessa hoje

o Muro das Lamentações Pós Eleições

Já de dentro de seu Tesouro de PALAVRAS

publicando Agora na Divina Comédia Brasileira

tornada ao Século 11-Pré Dante:

“ABRACADABRA”

Penetrando in caminhos Nunca Dantes Navegados

In Palavras Liquens Perfurantes,

com as Próprias Palavras

Relavradas,

infiltrantes na Língua Criola Brazileira

q “já passou do Português”.

Cada vez q li seu Poema,

fui levado por sua via magnética

das Palavras inRedadas,

in Redes q se desenredam,

saltimbânticas in Teias Tetéias

q atraem a ser Cantadas

DeCantadas. Musicadas.

Drummond publicou seu Poema “No Meio do Caminho”:

(o mesmo outro mezzo camino do Poeta Dante y Beatrice na “Divina Comédia”) na

Revista Antropófaga, criada por outro Andrade:

o Oswald Poeta Muso Dante desta Beatriz Azevedo.

Esta linhagem de Dante a Beatriz

vai antropofagiando o senso comum,

virando o direito ao avesso,

num abre caminho,

abrindo alas

num mundo tomado pela Palavra Morta in Fake News.

Este livro-poema ABRACADABRA

é a Subversão da sub-versão.

É a Alegría de Circo dos q se lançam

dos Trapézios sem redes, Funâmbulos

que chegam do Outro lado

Vivos sem temer a Morte.

Palavras Palhaças

finos fios q tecem

o Salto Imortal da Vida

Sempre Surpreendente

y Plurisignific-Ativa.

Podia ficar digitando dias y noites

na inspiração do ABRACADABRA

– mas tenho q parar de escrever hoje

por q nesta semana estreamos,

inspirados neste ABRACADABRA:

“RODA VIVA”

refrescando-nos com o Público na Cachoeira das Letras dos Versos das Musicas de

Chico Buarque, na primeira Peça do Jovem Poeta de 24 anos ao encontro das

CARAVANAS dos 74 anos do Poeta q não perde a Lyra.

Beatriz Poeta Amada,

hoje q escrevi este Prefá-Cio pra você,

foi meu único dia de folga.

Precisava sair de mim, ver um filme, tomar um banho de mar,

mas teu ABRACADABRA ME TROUXE INSPIRAÇÃO

PRA ESSA TRAVESSIA COM “RV2”=”RODA VIVA” y

“RV1= “O REI DA VELA”.

Gratidão Eterna Musa Poeta Beatriz

Zé Celso

Exú das Artes Cênicas

Laroiê

Sem mais delongas, apresentamos uma mostra poética do livro Abracadabra, de Beatriz Azevedo, lançado pelo Selo Demônio Negro, em 2019:

Poesia não dá camisa a ninguém

a vida inteira ouvi isso:

“poesia não dá camisa a ninguém”.

melhor,

vivo nua.

Agora

Agora

para balançar esta

libido neopentecostal

dos canhões de phalos ocidentais

só uma frente de alegria frontal

uma festa de floresta total

uma capoeira de 360 graus

uma encruzilhada de Bauhaus

uma fresta de poesia original

um moquém da deusa canibal

uma lilith vedete tropical

um comunismo tribal

da era transmatriarcal

com xamãs de iphone

tocando berimbau

Centauros com lentes de contato

centauros com lentes de contato

psiquê de silicone

medusa de mega-hair progressiva

vênus de mamilos com botox

alquimias virtuais

plantas dormem com sede

florestas imaginam suas próprias chuvas

dilúvios nas metrópoles ateias

some meteorites are older than the formation of the earth

repare bem:

há uma impressão digital na pedra

há um olho no furacão

há um ouvido na terra

há uma boca no mar

e Xamãs cantam para que o céu não caia

Beatrice

io sono la Beatrice

senza dente

sono la Beatrice

dândi

abbondante

sono la Beatrice

stridente

gigante

io no sono piu

la Beatrice di Dante

Abracadabra

abracadabra

cada traço da palavra

me dê seu abraço

abracadabra

cada cabra abra seu lastro

seu berro seu béééé errante

abracadabra

cada pétala se abra

de cada chacra

do corpo da palavra

abracadabra

cada passo faça

voo rasante

no rastro da asa

abracadabra

todo astro ilumine

a minha casa

toda poesia em brasa

me aqueça no seu aço

abracadabra

toda porta fechada se abra

todo cansaço passe

nenhuma dor nos alcance

até a via láctea dance

na mágica lábia

da sábia palavra

abracadabra

Minha memória é um território minado

Cresci ouvindo vó Nazita falar do Gualaxo,

da fazenda onde passou a infância

nas redondezas da cidade de Mariana.

Brinquei muitos carnavais

subindo ladeiras de paralelepípedos

na Ouro Preto de meus avós e bisavós

na Vila Rica de minha mãe.

Quando mais tarde quis conhecer o Gualaxo,

o famoso afluente do Rio Doce,

e me banhar na doçura das lembranças da minha avó

– o rio de repente virou lama.

Um tsunami de rejeitos da civilização

que mata, explora, vende o invendável.

As Minas Geraes totalmente usurpadas

do ciclo do ouro ao ciclo da lama

a terra esburacada, perfurada, estuprada

em toneladas de ganância e brutalidade.

Transborda a lama tóxica

Derrama a lama trágica.

Minas é um território minado.

Minha memória é um território minado

Vó? Não há mais.

Mãe? Não há mais.

Minas não há.

Só há lama.

Escape no Skype

Procurei você no chat

Você escapou no skype

Pinterest acho muito hype

Agora tem mais glitter no twitter

Queria falar com você no what’s app

Vi que você mudou seu look no facebook

Um beijo, até amanhã, vejo você no instagram

De tanto ficar online não estamos todos borderline?

Renovação tropical

A Igreja da Renovação Tropical Maravilha de Jesus

convida para a cerimônia solene

do Milagre da Multiplicação dos Orgasmos.

Após a sessão de Desapego do Rivotril,

a descatequese prosseguirá

com o Sermão da Teologia da Libertação Tropical

em honra, luxo e glória

de Nossa Senhora da Cloaca Divina Hilda Hilst.

Chamamos todos os infiéis para a novena mística

dos últimos capítulos da novela bíblica lésbica.

Haverá ainda a leitura das Notas de rodapau de

São Genet das hermafroditas descalças.

Venham todos para o Sermão da Montanha Mágica

entoar os quânticos dos quânticos:

este é meu corpo que é dado por voz

Eu sou a pedra no meio, o caminho, a verdade e a vida

Sou a Renovação Tropical, a Renovação Tropical sou Eu.

Irmãos, é dando que se recebe.

Deu é amor.