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Abertura em meio a aumento de casos de Covid-19 confunde cérebro na análise de risco

Publicado em 18 julho 2020

Cientistas explicam por que é comum se chocar mais no início de uma pandemia e ir perdendo o medo

Por mais extraordinário que o cérebro humano seja, ele tem limitações quando analisamos riscos. Isso acontece porque, embora haja diferentes sistemas neurais para tentar entender que tipo de ação vale ou não a pena tomar, ainda tropeçamos em obstáculos impostos pela nossa própria natureza ao decidir, por exemplo, durante o curso da pandemia, se podemos sair de casa e, caso isso aconteça, como vamos nos comportar.

Se somarmos isso ao fato de que as informações que o indivíduo recebe podem ser conflitantes —ao mesmo tempo em que há alta de casos e mortes, a economia começa a ser reaberta, pessoas se aglutinam em bares, e festas começam a ser organizadas—, traçar o melhor caminho a seguir pode se tornar um fardo.

“Criou-se um discurso dicotômico entre o que é necessário ser feito e o que nos propomos a fazer. O brasileiro se sente perdido”, afirma o infectologista Alexandre Barbosa, da Sociedade Brasileira de Infectologia e professor da Unesp em Botucatu.

Segundo ele, a existência de dois discursos confunde a população. “Tem um fácil, político, que diz que a pandemia não é nada. Mas há outro, talvez precavido demais, que não dá uma solução para quem não pode trabalhar. E nós invertemos a lógica. Quando a pandemia estava forte na Itália, todos nos assustamos com a cifra de mil mortes. Agora, com mais de 70 mil óbitos no país, muitos não estão nem aí.

De fato, o cérebro tem limitações ao lidar com números. E isso se evidencia, por exemplo, ao tentar perceber fenômenos que se comportam como funções exponenciais — caso aplicável no início da pandemia, quando num período curto de dias o total de novos infectados e mortos dobrava.

Especialistas em ciências cognitivas também sabem, por exemplo, que a notícia de uma mesma quantidade de mil mortes pode ter um impacto mais negativo quando se parte de zero mortes em comparação, por exemplo, quando o valor inicial é de 100 mil mortes. O fenômeno é batizado de “declínio da desutilidade marginal”, ou seja, em alguma medida as mesmas mil vidas têm valor aparente menor no segundo caso.

Uma das questões que pode ter levado a isso, diz Barbosa, seria o fato de muitos governos terem imposto medidas como fechamento do comércio e de serviços cedo, com poucos casos e mortes no país, o que teria erodido a boa vontade da população.

Outras explicações para a baixa adesão às medidas de distanciamento podem residir na própria biologia do cérebro.

De maneira simplificada, existem duas maneiras de avaliar riscos. A primeira e mais rápida é também a mais primitiva, por meio da estrutura cerebral conhecida como amígdala (aquelas que ficam na garganta são as tonsilas palatinas, no jargão médico). Diante de algo potencialmente aversivo, a atividade da amígdala provoca aquela sensação de alerta, gerada pela descarga de adrenalina, hormônio associado a comportamentos de luta ou fuga.

Outro caminho para medir riscos é com o raciocínio lógico-analítico, que apareceu mais recentemente na evolução humana, e que costuma ser mais associado ao córtex cerebral, a camada mais externa, também ligada, por exemplo, à personalidade.

Essa classificação da operação do comportamento humano foi explorada por Daniel Kahneman, que ganhou o Nobel de economia em 2002.

O que torna esse emaranhado cerebral um pouco mais complexo é que esses dois caminhos funcionam em paralelo — e pode ser difícil para o córtex lutar contra a amígdala, como no caso de uma pessoa que tem medos irracionais, como de injeções ou de insetos.

Mesmo com um aparato cognitivo sofisticado, em boa parte das vezes nossos comportamentos são baseados em atalhos, macetes, estereótipos ou preconceitos que construímos ao longo do tempo, como o de atravessar a rua ao ver uma pessoa encapuzada vindo em sua direção.

Uma armadilha comum que o cérebro prega é achar que os outros são mais suscetíveis a risco do que o próprio indivíduo. Isso vem de uma falsa sensação de estar no controle da situação e de um viés excessivamente otimista na avaliação do cenário (“eu nunca pegaria essa doença”). Essa percepção perde força, porém, quando uma pessoa próxima, como um parente, é vitimada.

Como os sintomas da Covid-19 só aparecem mais de uma semana depois da infecção, a associação no cérebro entre risco tomado e punição, se ocorre, é tardia. A pessoa não tem como aprender já no primeiro deslize, e, por tabela, expõe os demais à infecção. Esse atraso temporal é do mesmo tipo daquele presente entre o comportamento tabagista e o desenvolvimento de doenças como câncer e enfisema pulmonar.

A médica Raissa Robles (à dir.) e a terapeuta ocupacional Tatiana Couto se preparam para entrar em um quarto de UTI do Hospital do Servidor Público Rubens Cavallari/Folhapress

O fenômeno psicológico conhecido como habituação também pode ajudar a explicar por que as pessoas se expõem a riscos: “Eu sei que o leão é perigoso e todo dia passo na frente dele. Como nunca acontece nada, cada dia eu passo mais perto, de forma progressivamente mais descuidada”, exemplifica Luiz Eugênio Mello, neurocientista e professor da Unifesp e atual diretor científico da Fapesp.

“Para algumas pessoas isso não existe: elas tomam um cuidado eterno. Talvez sejam elas as que vão sobreviver.”

Mas por mais que uma pessoa tenha propensão a tomar riscos, os comportamentos podem ser alterados na presença de informações de boa qualidade, avalia Mello.

Um estudo de um pesquisador italiano mostrou, contudo, que mesmo uma pista ambiental também pode ajudar as pessoas a terem comportamentos mais seguros.

Massimo Marchiori, da Universidade de Pádua, saiu pelas ruas da cidade com sensores de distância acoplados na roupa em situações distintas: sem máscara, com máscara, e com máscara e óculos de proteção. O artigo está na plataforma de pré-publicação arXiv.

Ele observou que usando a máscara, a distância média para as pessoas dobrava de 29 cm para 58 cm. O valor aumentava ainda mais com o uso do de óculos. A interpretação é que elas veem a máscara e lembram que o contato com um indivíduo, talvez em especial como o mascarado, pode infectá-lo.

Marchiori argumenta que comportamento de distanciamento social sozinho não tem potencial para frear a pandemia, e que uma máscara, mesmo sem capacidade filtrante, pode ajudar as pessoas a minimizar o risco. Para ele, mensagens como “fique em casa” não têm o efeito esperado. Elas deveriam ser acompanhadas de explicações sobre risco comportamentais, já que não seria possível simplesmente conter a natureza social do ser humano.

Se pudesse haver um paralelo, a Covid-19 estaria para infecção pelo HIV assim como ficar em casa estaria para abstinência sexual. Campanhas de conscientização sobre HIV/Aids que focam apenas em limar o comportamento sexual têm resultados piores do que outras que apresentam outras soluções, como o uso de camisinhas, de profilaxias pré- (PrEP) ou pós-exposição (PEP), e medicamentos antirretrovirais.

“O que nós, cientistas, estamos tentando fazer é estabelecer o novo normal. No HIV a gente quantificou e manejou, individualizou o risco. Agora a estratégia para a Covid-19, vai ser a de usar máscara quando sair de casa, tentar manter distanciamento com pessoas diferentes do vínculo familiar, lavar as mãos mais frequentemente e evitar, se possível, sair de casa, para não transmitir para outras pessoas”, afirma Barbosa.

O caminho trilhado por meio da redução de danos tende a brigar menos com a natureza humana. “Quando assumimos um risco, ele tende a ser proporcional ao benefício (ou custo) associado. Se uma pessoa não sai de casa para trabalhar, corre o risco de morrer de fome, já que não tem geração de renda. Esse risco pode se tornar uma certeza a depender da condição financeira dela”, explica Mello.

COMO O CÉREBRO HUMANO AVALIA RISCOS?

Novidade

Quando nos deparamos com uma situação, a primeira avaliação feita automaticamente pelo cérebro é se aquilo é ou não uma novidade. Se for algo conhecido, é possível tomar atitudes baseadas em conhecimentos prévios, como fugir de um potencial assaltante em um país violento

Risco

Se for uma situação desconhecida ou inusitada, existe uma avaliação potencial de risco e da providência a ser tomada. Por exemplo, a ação de buscar um abrigo ao ouvir um trovão nas imediações é esperada, mas pode haver também a inibição de um comportamento, como o sair de casa, para tentar não ser contaminado um vírus pouco conhecido

Atraso

A associação entre percepção de risco e comportamento, porém, nem sempre é tão direta. Por mais que saibamos que o tabagismo está ligado a vários tipos de câncer, fumar um cigarro não vai causar um prejuízo imediato. Esse atraso na resposta pode favorecer, por exemplo, que uma pessoa continue adotando um comportamento de risco

Cálculos

O cérebro humano não é tão bom em lidar com probabilidades. Decisões, especialmente as mais urgentes, são tomadas por atalhos mentais, estereótipos e preconceitos a fim de agilizar o processo. O raciocínio mais cuidadoso e lógico, que corre em paralelo e muitas vezes é obliterado, demanda mais tempo e esforço do indivíduo

Habituação

Outro fenômeno psicológico que pode aumentar a exposição das pessoas a risco é a habituação, ou seja, o indivíduo sucessivamente se expõe ou é exposto a uma situação incômoda (como estar em algum lugar onde tiros podem ser ouvidos) e, como nada nunca acontece, o sujeito tende a continuar frequentando o local, cada vez com menos cuidados. O mesmo pode ser dar com a Covid-19, quando você sai e não é infectado

Lembretes

Uma forma de lembrar as pessoas do risco que correm ao sair de casa em uma pandemia como a de Covid-19 é o uso de dicas visuais como as máscaras, diz uma pesquisa italiana. Ao avistar indivíduos usando máscaras e equipamentos como óculos, os transeuntes identificavam essa pista ambiental e tendiam a se afastar, reduzindo o potencial de contágio

Fontes: Luiz Eugênio Mello (neurocientista e professor da Unifesp); arXiv; Science

Da Folha de São Paulo, 18.jul.2020

Por Gabriel Alves