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Agora São Paulo

Abertura em meio a aumento de casos confunde o cérebro

Publicado em 19 julho 2020

Por Gabriel Alves

Por mais extraordinário que o cérebro humano seja, ele tem limitações quando analisamos riscos. Ainda tropeçamos em obstáculos impostos pela nossa própria natureza ao decidir, por exemplo, durante o curso da pandemia, se podemos sair de casa e, caso isso aconteça, como vamos nos comportar.

Ao mesmo tempo em que há alta de casos e mortes, a economia começa a ser reaberta, pessoas se aglutinam em bares, e festas começam a ser organizadas. Assim, traçar o melhor caminho a seguir pode se tornar um fardo.

“Criou-se um discurso dicotômico entre o que é necessário ser feito e o que nos propomos a fazer. O brasileiro se sente perdido”, afirma o infectologista Alexandre Barbosa, da Sociedade Brasileira de Infectologia.

Segundo ele, dois discursos confundem a população. “Tem um fácil, político, que diz que a pandemia não é nada. Mas há outro, talvez precavido demais, que não dá uma solução para quem não pode trabalhar. E nós invertemos a lógica. Quando a pandemia estava forte na Itália, todos nos assustamos com a cifra de mil mortes. Agora, com mais de 70 mil óbitos no país, muitos não estão nem aí.”

Segundo especialistas em ciências, a notícia de uma mesma quantidade de mil mortes pode ter um impacto mais negativo quando se parte de zero mortes em comparação, por exemplo, quando o valor inicial é de 100 mil mortes. Em alguma medida as mesmas mil vidas têm valor aparente menor no segundo caso.

Uma das questões que pode ter levado a isso, diz Barbosa, seria o fato de muitos governos terem imposto medidas como fechamento do comércio e de serviços cedo, com poucos casos e mortes no país, o que teria erodido a boa vontade da população.

Uma armadilha comum que o cérebro prega é achar que os outros são mais suscetíveis a risco do que o próprio indivíduo. Isso vem de uma falsa sensação de que “nunca pegaria essa doença”. Essa percepção perde força, porém, quando uma pessoa próxima é vitimada.

O fenômeno psicológico conhecido como habituação ajuda a explicar por que as pessoas se expõem a riscos: “Sei que o leão é perigoso e todo dia passo na frente dele. Como nunca acontece nada, cada dia eu passo mais perto, de forma progressivamente mais descuidada”, exemplifica Luiz Eugênio Mello, neurocientista e professor da Unifesp e atual diretor científico da Fapesp. “Para algumas pessoas isso não existe: elas tomam um cuidado eterno. Talvez sejam elas as que vão sobreviver.”

(Folha)