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Marie Claire

Abelhas, rainhas

Publicado em 07 junho 2021

Por Patrícia Moll

Nos últimos anos, milhões de abelhas são encontradas sem vida no mundo todo. Por aqui, segundo levantamento da Agência Pública e do Repórter Brasil, no primeiro trimestre de 2019 esse número chegou a meio bilhão. Contribuem para esse cenário, extremamente perigoso ao ambiente, o desmatamento, o agravamento das mudanças climáticas e o aumento do número de monoculturas no país – que dependem dos pesticidas para se manterem de pé, já que ecologicamente não se sustentam. A Europa já tomou providências, restringindo o uso de agrotóxicos, altamente nocivos aos polinizadores, nas áreas de cultivo. O Brasil, por sua vez, incentiva cada vez mais sua liberação.

O declínio das populações de abelhas tem como principais impactos o desequilíbrio dos ecossistemas e a perda da biodiversidade. Enxames inteiros têm desaparecido, colocando em risco a segurança alimentar do planeta. Explica-se: a polinização é um processo fundamental para a reprodução das plantas e resulta na formação de frutos e sementes, o que garante a variabilidade genética. Assim, sem as abelhas, restam as poucas culturas autopolinizáveis, e a dieta fica restrita a arroz, feijão, milho, batata, soja e outros grãos. E aqui não estamos falando apenas da Apis mellifera, a espécie listradinha de amarelo e preto adotada pela Disney, que pica e produz grande parte do mel encontrado no mercado, mas também daquelas sem ferrão, as chamadas abelhas nativas.

Segundo publicado na revista Pesquisa Fapesp em 2016, as cerca de 20 mil espécies de abelhas nativas polinizam mais de 90% das 107 principais culturas do mundo. Não por acaso, o processo é responsável por cerca de 75% dos alimentos que chegam à mesa, especialmente frutas e verduras. “É perigoso atribuir a polinização de uma grande diversidade a uma abelha só, num mundo com tantas espécies diferentes”, explica a bióloga e doutora em polinização Juliana Feres, sócia da marca de meles Heborá.

Chamadas popularmente de abelhas-da-terra ou indígenas, existem cerca de 300 espécies desse tipo no Brasil. Com cores variadas, seus meles são menos doces, mais líquidos e ácidos do que os demais – graças à diversidade das flores do ecossistema de cada uma delas. Recentemente descobertos pela gastronomia brasileira, que tem incrementado receitas usando até mais de um tipo de mel no mesmo prato, a perspectiva é de que grande parte deles desapareça antes mesmo de seus sabores se tornarem conhecidos.

Para entender a emergência, basta olhar para as abelhas canudo, manejadas pela etnia indígena Sateré-Mawé. Responsáveis pela polinização de cerca de 80% da flora na Amazônia, sua ausência não é sentida só na falta do mel, mas em parte do saber fazer indígena. É o mesmo caso do guaraná, cuja sobrevivência depende exclusivamente da polinização dessa espécie.

Para os Guaranis, que usam esses produtos em rituais e remédios naturais, seu manejo é considerado sagrado. “Quando a biodiversidade brasileira começa a sofrer pela não preservação das abelhas nativas, o planeta inteiro é atingido. A vegetação começa a sumir, as águas, as nascentes, os rios e solos ficam ameaçados”, explica Verá Mirim Marcio Boggarim, um dos líderes da Terra Indígena Jaraguá, em São Paulo, responsável pelos cuidados de um meliponário (coleção de colmeias de abelhas sem ferrão) da Mata Atlântica.

E os problemas não param por aí. Além da falta de conhecimento e de incentivo à pesquisa, a legislação é outro obstáculo importante à meliponicultura. Hoje, o mel nativo vem sendo regulamentado em âmbito estadual, mas enfrenta barreiras nas legislações ambientais federais. Amazonas, Bahia e Paraná são alguns dos (poucos) estados autorizados a comercializar produtos derivados desse tipo de cultura. Culpa da lei vigente que determina que o mel só pode passar de um estado para o outro se tiver SIF (selo do Serviço de Inspeção Federal). Como, além de caro, seu processo de expedição é extremamente burocrático, a maioria das marcas ainda esbarra em questões legais e não consegue ser comercializada amplamente.

A parte boa é que a meliponicultura, historicamente conduzida por homens, virou uma atividade para famílias – como os insetos não têm ferrão, até crianças podem se envolver na brincadeira. Em parceria com o poder público e organizações não governamentais locais, Juliana e Mariana Feres, da Heborá, atuam ativamente na extensão desse tipo de cultivo. O trabalho da dupla consiste em recrutar mulheres do campo de São Carlos, em São Paulo, e ensiná-las a introduzir colmeias nos quintais. Assim, acabam gerando renda extra para a família e, de quebra, ajudam na manutenção do planeta. “A educação é a primeira solução para a preservação”, afirma Juliana.

Márcia Basile, da Mbee, faz coro. Desde 2019, ela e seu marido, Eugênio, doam colmeias de abelha jataí para chefs de cozinha. “A ideia é despertar a curiosidade para o produto e fazer as pessoas, que acabam criando vínculo com as abelhas, perderem o medo”, orgulha-se. Entre os quase cem restaurantes que receberam as casinhas, estão o Lasai, no Rio de Janeiro, e o Komah, em São Paulo. Outra que aposta na educação como agente de mudança é a bióloga e doutora em polinização Patrícia Nunes-Silva, de São Leopoldo, Rio Grande do Sul. No início da pandemia, ela criou o projeto de divulgação científica Louca das Abelhas. Com o intuito de furar a bolha acadêmica, fala do tema com linguagem acessível à grande massa. “As pessoas só se importam com aquilo que conhecem”, acredita. O resultado esperado é fazer com que elas comecem a ter consciência do problema e exijam mudanças.

Pode não parecer, mas comprar do pequeno agricultor, não estimular a monocultura e escolher representantes no governo comprometidos com o meio ambiente são passos fundamentais para a grande mudança. Consumindo esses meles, encorajam-se ainda os produtores a seguirem seu manejo e, consequentemente, fomenta-se a preservação. Responsabilidade que pode (e deve) ser assumida pela sociedade civil. É fácil, necessário e bem gostoso.

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