Notícia

Jornal da Tarde

A vitória da ciência

Publicado em 23 fevereiro 2000

Depois que os cientistas brasileiros desenvolveram uma inovadora técnica de seqüenciamento genético, decifrando, pela primeira vez, todo o código genético de um ser vivo, a bactéria Xylella fastidiosa, responsável pelo amarelinho, a doença que afeta os pomares cítricos nacionais, a comunidade científica internacional quer estreitar seus laços com nossas universidades, para expandir o Projeto Genoma Humano. Financiado pelo governo norte-americano, esse projeto é um empreendimento científico que envolve centenas de universidades no mundo inteiro, com a finalidade de mapear todos os genes da espécie humana. No Brasil, o Projeto Genoma é coordenado e financiado pela Fundação de Amparo à Pesquisa de São Paulo (Fapesp) e seus resultados, nos últimos dois anos, propiciaram o ingresso do País na vanguarda mundial das pesquisas genéticas de pragas agrícolas. Só a descoberta da seqüência genética da Xylella fastidiosa, beneficiando um setor da economia que responde por milhares de empregos e fatura mais de R$ 4 bilhões por ano em São Paulo, já abriu caminho para 21 novos projetos de pesquisa. "O segredo do seqüenciamento genético será banal em cinco anos. O essencial, então, será a capacidade de analisar o colossal volume de informações que ele produzirá", afirma Fernando Perez, diretor-científico da Fapesp. O sucesso do Genoma, no Brasil, é resultado do apoio estatal à ciência. Criada no governo Carvalho Pinto, a Fapesp foi decisiva para a industrialização de São Paulo e sou apoio levou a USP e a Unicamp a responderem por 50% das: pesquisas em nível de doutorado no País. O sucesso do Genoma também se deve às bolsas de pós-graduação financiadas por órgãos federais, como o CNPq, que até hoje garantem o que há de melhor no ensino superior público. Como o papel do setor privado na expansão da tecnologia é ainda pequeno, o governo deveria aproveitar o sucesso do Projeto Genoma para aperfeiçoar sua política de fomento ao desenvolvimento científico. Se só com a atuação das universidades públicas e com o apoio de um Estado em permanente crise fiscal o Brasil fez importantes descobertas em pesquisas genéticas, com a incorporação das universidades e empresas privadas nas pesquisas de ponta, o Brasil poderia, mais cedo do que se imagina, converter-se num grande pólo de, expansão tecnológica em todas as áreas do conhecimento.