Notícia

Outras Prosas

A vida das línguas

Publicado em 05 dezembro 2018

UMA reportagem da revista Pesquisa Fapesp informa que acadêmicos e linguistas estão utilizando técnicas digitais para estudar, difundir e, principalmente, preservar as 170 ou 180 línguas indígenas que ainda existem milagrosamente no país – quando os colonizadores aqui chegaram, estima-se que havia em Pindorama nada mais, nada menos que 1.270 línguas.

Os linguistas dizem que as línguas são “vivas”, portanto, salvar línguas é como salvar vidas. E, de fato, a língua guarda um curioso paralelo com a vida: nasce, se desenvolve, prolifera e morre – às vezes deixa até herança e descendentes, como aconteceu com o latim. Ninguém fala mais a língua do Lácio, mas ela deixou sua descendência: português, francês, espanhol, italiano, alemão…

E tal como os humanos (plantas e animais também), as línguas se misturam, se cruzam, miscigenam. Veja o nosso caso: nossa língua nasceu do latim, virou português, cruzou com o tupi-guarani, surgiu a “língua geral” da colônia, e hoje há quem sustente que existe uma “língua brasileira”, ou o “português do Brasil”.

A vida das línguas se parece tanto com a vida da gente que elas podem até ser belas, feias, cultas, incultas, longevas ou breves. E como comprova a situação atual das nossas línguas indígenas, elas podem até ser “assassinadas” – desde o descobrimento até agora, não só matam-se os índios como se matam também suas línguas; seria um “linguicídio”?

E ainda chamam essa matança de índios e línguas de “civilização” – mais uma prova de que a língua é mesmo viva, pois a denotação semântica do verbo “civilizar” precisa ser urgentemente atualizada.

O Brasil nunca foi um país monolíngue. Além das 1.270 que já existiam por estas bandas, vieram a língua portuguesa, as diversas línguas (ou dialetos) africanas, outras línguas europeias (italiano, alemão, holandês, francês etc.), a língua crioula, depois chegou a japonesa – sem contar os dialetos formados por aqui.

Duvido que você saiba o sentido ou “tradução” desta frase, do dialeto gaúcho: “Frio de renguear cusco”. Eu também não sabia. Fui procurar na internet e vi que significa: “Frio que faz até cachorro tremer”. Sabia que pros gaúchos “subida” é “lomba” e “tangerina” é “bergamota”?

Agora há pouco, antes do almoço, tava conversando com o jardineiro aqui de casa sobre os buracos que meus cachorros (Paco e Maia) fazem no quintal. Ele disse que é assim mesmo; bicho gosta de fazer buraco – “Não vê aquele passarinho, o “trepador”, que sobe no tronco das árvores fazendo buraco?”.

Eu disse que não conhecia esse passarinho – “trepador”. O ajudante do jardineiro, que é lá do Piauí, esclareceu que era o “pinica-pau”. Ao que o jardineiro retrucou: “Lá na região de Guaxupé, Minas Gerais, eles chamam de “trepador” – e eu logo vi que estávamos falando do nosso barulhento “pica-pau”, que em algum lugar ainda hão de chamar de “repinica-pau” – tantos são os buracos que faz e refaz nos troncos que vai escalando.

Ao contrário do que parece, o Brasil é um país multilíngue. Fico imaginando o encontro e o diálogo simultâneo entre um índio, um gaúcho, um nordestino, um homem da Amazônia, um carioca cheio de gíria, um paulista caipira, um mineiro falante e algum membro dessas colônias japonesas, italianas ou alemãs que ainda há por aí.

Mas eu me sentei aqui foi pra falar (ou escrever) sobre as tecnologias digitais – corpus digital e website -, que a Unicamp está utilizando, segundo a revista Pesquisa Fapesp, com o objetivo de “salvar” as línguas indígenas sobreviventes no país. Porém, acabei não falando nada disso. Deixo então a dica: “Pela sobrevivência das línguas indígenas” – a matéria pode ser encontrada na internet (www.revistapesquisa.fapesp.br).

Por ora, quero apenas dizer que acho importante salvar uma língua porque é como salvar uma vida. Só isso já justificaria qualquer esforço. Quando uma vida se perde, diz o filósofo Jacques Derrida, é todo um universo irrepetível que se vai embora.

Mas tem outras razões. Li agora há pouco, no livro Mitos de linguagem (Gabriel de Ávila Othero, ed. Parábola), a seguinte frase, dizendo mais ou menos assim: “Quando uma língua deixa de existir, perdemos mais do que um sistema gramatical… perdemos uma maneira de ver e compreender o mundo” – uma maneira irrepetível.