Notícia

Jornal do Brasil

A Universidade viva

Publicado em 16 abril 1998

Por VERA LÚCIA R. CASTRO HALFOUN E LUIZ PINGUELLI ROSA
A crise da Universidade Federal do Rio de Janeiro reflete uma política de governo, a qual sinaliza uma redução substancial dos grupos de pesquisa no país e questiona o próprio papel da União na formação profissional de alto nível. Esta política apresenta profundas contradições. Enquanto de um lado implantou-se um programa de núcleos de excelência, houve redução de recursos das demais agências financiadoras da pesquisa, contrariando o prometido pelo próprio presidente da República aos membros da comunidade acadêmica. O governo reduziu em até 80% as bolsas novas de doutorado em vários dos melhores cursos da UFRJ e anunciou a extinção de bolsas de mestrado. Na graduação, o ministro apresentou um plano de incentivo à docência oferecendo por dois anos bobas a uma parcela dos professores no momento em que se esperava um reajuste de salários congelados há quatro anos, numa situação de inflação acumulada beirando os 50%. O que acontecerá se as bolsas após os dois anos forem cortadas por este ou outro governo? Enquanto isto, as instalações da universidade estão indo aos pedaços abandonadas pelo Ministério da Educação, como mostraram imagens da TV na cobertura da greve de docentes e funcionários técnico-administrativos. O próprio presidente Fernando Henrique foi obrigado a vir se explicar à opinião publica. É absolutamente consensual na comunidade universitária o sentimento de indignação e desalento que perigosamente ameaça a instituição com suas previsíveis conseqüências sobre a qualidade do trabalho acadêmico a longo prazo. A gestão atual da UFRJ, a despeito de sua aceitação das políticas do ministro da Educação, não conseguiu os recursos mínimos para impedir corte de telefones e bolsas de graduação e a retenção de equipamentos importados para laboratórios na Alfândega por dívidas não honradas. As taxas de bancada alocadas pela Capes para tese dos estudantes foram utilizadas para pagamento de contas em atraso. Parece razoável, portanto, que os recursos do plano de incentivo à docência através de bolsas sejam aplicados na infra-estrutura dos cursos em 1998, conforme muitos dos colegiados da UFRJ estão sugerindo. A partir daí haverá tempo para se construir uma contraproposta ao governo que contribua para um repensar da graduação que realmente cause impacto à universidade brasileira. Outro fato surpreendente detectado em recente entrevista do ministro da Educação é que a universidade poderá resolver seus problemas financeiros através das parcerias com o setor privado. Ora, é óbvio que esses recursos são complementares e jamais substituirão a obrigação do governo de manter o valioso e duramente conquistado patrimônio público que as universidades representam hoje no país. Afinal, o governo gasta vultosas somas na propaganda de que a privatização se destine ao financiamento da Saúde e Educação, mas ambas as áreas estão na penúria enquanto bilhões de dólares se escoam pelo ralo financeiro de bancos inadimplentes. Apesar de tudo isto, no entanto, a vitalidade da UFRJ se expressa pelo notável crescimento de sua produtividade, medida pelo número de alunos de graduação matriculados em seus cursos, pela multiplicação de bons cursos de pós-graduação e conseqüente crescimento da produção científico-tecnológica e artístico-cultural, bem como pelas grandes melhorias na eficiência de sua rede hospitalar, traduzida pela ampliação da assistência e pela introdução de novas tecnologias de ponta. A sociedade precisa de uma universidade viva. Decana do Centro de Ciências da Saúde da UFRJ e vice-diretor da Coordenação de Programas de Pós-Graduação em Engenharia da UFRJ, respectivamente