Notícia

Jornal da USP

A universidade, mais próxima do povo

Publicado em 17 setembro 1995

Por ROBERTO C. G. CASTRO
A universidade precisa se empenhar ao máximo para transmitir os seus conhecimentos à sociedade, afirmou o professor Pierre Fayard, da Université de Poitiers, na França, durante palestra realizada no dia 30 de agosto no Auditório do Instituto de Geociências da USP. Citando instituições de pesquisa européias, Fayard destacou que há "inúmeras" formas de fornecer informações científicas ao público leigo - um objetivo que considera fundamental para a formação de uma "universidade cidadã", interessada em promover o progresso da comunidade em que está inserida. Uma dessas formas é a integração entre cientistas e jornalistas da grande imprensa. Na Inglaterra, diz, existem instituições que dão bolsas para que doutores trabalhem durante semanas em um jornal, rádio ou televisão. "Quando voltam para seus laboratórios, esses doutores têm uma idéia de como funcionam os meios de comunicação, o que vai ajudá-los a divulgar o seu trabalho", destaca Fayard. Já na Alemanha ocorre o contrário: jornalistas são pagos para conhecer o dia-a-dia dos laboratórios de pesquisa. EXPOSIÇÕES CIENTÍFICAS Como exemplo de divulgação científica eficiente, Fayard citou o Instituto Nacional de Pesquisas em Saúde e Medicina, de Paris, uma instituição que até o início dos anos 80 era praticamente desconhecida pelo povo e o governo francês. Em 1983, sob o pretexto de comemorar seu aniversário, a direção do Instituto criou uma equipe para realizar exposições itinerantes em várias regiões da França. Depois de escolher um tema que despertasse a curiosidade popular - a neurociência -, a equipe fez contatos com meios de comunicação e empresas, para que apoiassem a iniciativa. Ela também contou com o apoio de comitês organizadores instalados nas regiões que sediariam as exposições. As mostras, por sua vez, foram realizadas não em campi universitários, mas sim em locais públicos. "Era como se fizéssemos uma exposição científica na Praça da República, em São Paulo", exemplifica Fayard. "A estratégia foi esta: levar a ciência aonde o público está." O resultado de todo esse trabalho, diz Fayard, foi o acesso de milhares de pessoas a informações antes acumuladas nas universidades, conhecidas apenas pelos iniciados. "Essa experiência é um bom exemplo de como os cientistas podem, com criatividade, transmitir seus conhecimentos à população", acrescenta o professor de Poitiers. A ENCICLOPÉDIA DE DIDEROT Fayard lembrou ainda o empenho de universidades da Holanda, que mantêm funcionários com a função de atender a população e responder a suas perguntas sobre qualquer área da ciência. Na Espanha, um suplemento científico é encartado há três anos num jornal diário de circulação nacional, divulgando pesquisas acadêmicas. Esse projeto foi possível graças a um convênio entre a universidade, o jornal e dois patrocinadores ligados à iniciativa privada. "Não se pode esquecer de que a parceria com empresas é uma forma de se viabilizar a divulgação da ciência." A preocupação com a produção científica e sua transmissão ao público leigo é antiga, conforme historiou Fayard em sua palestra. Ela teve início no século 18, com a publicação da Encyclopédie - o ambicioso projeto dos filósofos Diderot e D'Alembert, que desejavam usar a imprensa para divulgar tudo o que o conhecimento humano produzira até aquele momento. A Encyclopédie teve a colaboração dos pensadores mais ilustres da época, como Voltaire e Rousseau. "Essa foi a primeira grande operação de divulgação científica da História", lembra Fayard. Depois dos iluministas, a qualidade da pesquisa teve um salto com a criação do Centro Nacional de Pesquisa Científica, em Paris, durante a Segunda Guerra Mundial. Os objetivos da nova instituição, porém, não incluíam a divulgação da ciência: seus pesquisadores eram pagos para ocuparem todo o seu tempo com pesquisas, sem a necessidade de dar aulas e cursos. Em 1986, o Centro da Indústrias, também em Paris, era inaugurado com a preocupação de transferir o conhecimento científico às indústrias. "A divulgação científica sempre foi um problema difícil de ser solucionado", lamenta Fayard. "Mas é fundamental que a universidade use todos os meios possíveis para transmitir seus conhecimentos ao povo." CIENTISTAS E JORNALISTAS, UNIDOS A integração entre pesquisadores e jornalistas é fundamental para que a divulgação científica seja eficiente, disse o professor Pierre Fayard nesta entrevista ao Jornal da USP, logo após sua palestra no Instituto de Geociências. "Um tem de conhecer o trabalho do outro", afirma Fayard, que já publicou quatro livros sobre comunicação e ciência. Jornal da USP - Quais as vantagens que a comunicação científica pode trazer para a universidade? Pierre Fayard - São vantagens internas e externas. Se uma universidade é mais conhecida fora de seus muros, isso poderá ajudar quando ela necessitar de recursos públicos. Essas são as vantagens externas: Uma segunda coisa é muito importante: para o pesquisador, é muito estimulante sentir que a sociedade o conhece e sabe o que realiza. Isso faz com que ele produza mais. São as vantagens internas. JU - Como a integração entre universidade e sociedade pode ajudar o pesquisador? Fayard - A comunicação científica não é uma via de uma direção apenas, em que só o público recebe informações da instituição de pesquisa. É importante considerar também que as perguntas da sociedade civil podem ser muito excitantes para os cientistas. Esse contato com pessoas de fora de sua especialização conduz o pesquisador a ser crítico em relação ao próprio saber e a considerar que o seu saber também é relativo, e não absoluto. JU - Qual deve ser o perfil do jornalista que divulga informações científicas? Fayard - A formação desses profissionais precisa ter dois componentes: uma formação em comunicação e uma formação em ciência. É muito importante para esses profissionais saber o que é a ciência. É preciso um pouco de epistemologia: o que é essa atividade de pesquisa e por que ela é necessária. Isso é importante porque os meios de comunicação transmitem para a opinião pública a imagem de uma ciência certa, perfeita e acabada. Na verdade, os cientistas passam a maior parte do tempo fazendo pesquisas sem ter resultados concretos. JU - Quais os resultados de suas pesquisas sobre a divulgação científica feita pelos jornais europeus? Fayard - Fiz essas pesquisas para um programa sobre imprensa diária nacional européia. Primeiro, elas demonstraram que os suplementos científicos aumentam as vendas dos jornais. Outra coisa interessante é que pelo menos a metade dos responsáveis pelos suplementos científicos possui título de doutoramento em ciência. Portanto, é um nível bem elevado. Os cientistas não podem dizer: "Esses jornalistas não entendem nada de ciência". Isso é impossível. Os jornalistas que cobrem ciência na Europa são especializados: eles dedicam 100% do seu trabalho à atividade científica e são especialistas em áreas determinadas, como química, física, geologia, biologia etc. JU - O que o senhor diria para os pesquisadores que evitam os jornalistas com receio de terem suas idéias deturpadas? Fayard - Esse receio é provocado pela ignorância sobre a forma como o outro trabalha. Sempre se tem medo do que não se conhece. Por isso é importante a integração entre pesquisadores e jornalistas. Um tem de conhecer o trabalho do outro.