Notícia

Revista Rumos

A universidade educa; a empresa emprega

Publicado em 01 novembro 2002

O reitor da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp), o físico Carlos Henrique de Brito Cruz, não acha que esteja desvalorizando o seu peixe ao afirmar que o lugar onde se faz inovação tecnológica é na empresa. Pelo contrário, com essa atitude ele entende estar valorizando o papel central da universidade: o de educar, de formar especialistas. Nesta entrevista ao editor-assistente de Rumos, Luiz Cláudio Dias Reis, o professor Brito Cruz esclarece que a mais perfeita interação universidade-empresa está na responsabilidade da primeira em educar e da segunda em empregar. Se isso não se completa, não só as duas falham; o país também. Rumas - Desenvolvimento tecnológico é uma questão de Estado ou de mercado? Brito Cruz - É uma questão que cabe aos dois, pois se trata de atividade fundamental para que as empresas de um país possam ter competitividade suficiente para concorrer no mercado. Por outro lado, todos os países que querem e conseguem se desenvolver fazem políticas de Estado relevantes para viabilizarem o desenvolvimento tecnológico no âmbito das empresas. Rumos - O Brasil avançou em políticas públicas de apoio à C&T? Brito Cruz - Tem avançado, sim, embora esse processo esteja ocorrendo por etapas. Primeiro, ocorreu uma sucessão de políticas públicas intensas, mas focadas na questão acadêmica. Isso foi importante porque tornou possível criar, na universidade, uma mentalidade e centros de pesquisa, além de profissionais habilitados. Embora praticadas com altos e baixos, essas políticas foram aplicadas, desde os anos 50, de foram relativamente contínua. Alguns dos seus marcos foram a criação do Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq) e da Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Carlos Henrique de Brito Cruz é, desde abril de 2002, reitor da Unicamp, onde é professor titular do Instituto de Física, que já dirigiu por duas vezes. Graduado em Engenharia de Eletrônica pelo Instituto Tecnológico da Aeronáutica (Ita), tem mestrado e doutorado em Física (Unicamp). Sua especialidade é a Física Experimental, na área de fenômenos ultra-rápidos (lasers e pulsos ultracurtos). É membro da Academia Brasileira de Ciências, da sua congênere paulista e detentor da Ordem do Mérito Científico. Nível Superior (Capes), em 1950; da Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (Fapesp), em 1962; da Financiadora de Estudos e Projetos (Finep), nos anos 70; assim como a reestruturação do sistema de pós-graduação brasileiro, que aconteceu na segunda metade dos anos 80. Vale enfatizar que essas políticas - executadas com expressivo apoio financeiro do Estado, tanto para eleito da manutenção de boas universidades de pesquisa, como no suporte a projetos de pesquisa e pós-graduação-, foi possível viabilizar uma base de importante para o progresso científico e técnico, formar excelentes cientistas, engenheiros - enfim, especialistas nas mais diversas áreas do conhecimento científico. Para se ter uma idéia, o Brasil forma, hoje, por ano, seis mil doutores, número expressivo, comparável a Inglaterra e França. Ocorre que o desenvolvimento dessa importante infra-estrutura acadêmica não teve o desdobramento prático que seria natural. Ou seja, não se criou, em contrapartida, capacidade tecnológica no âmbito empresarial, aspecto vital pura que o país alcance o padrão de competitividade que precisa para alavancar o seu desenvolvimento. E essa tarefa exige a máxima urgência possível. Ou seja, constitui a base da inovação tecnológica. É essencial que as empresas criem e agreguem conhecimento a seus produtos e serviços e, com isso, ganhem crescente competitividade.