Notícia

Jornal do Brasil

A universidade e os ensinos médio e fundamental

Publicado em 24 julho 1996

Por MÁRIO BARRETO CORRÊA LIMA E PAULO CÉSAR DOS SANTOS LEAL *
A universidade não é um sólido que se sustenta no ar. Existem outros dois segmentos que estão abaixo dela constituindo um todo estrutural: o ensino médio e o ensino fundamental que, juntos, devem modelar uma política educacional. O que se tem verificado, historicamente, é o mais completo desligamento entre a universidade e as escolas de 1º e 2º graus, o que vem a obstar qualquer plano. É claro que a universidade tem um papel muito específico na consolidação de quadros de pesquisadores de alto quilate, bem como no desenvolvimento da investigação científica para a sua aplicação na tecnologia, como já foi dito no artigo Dependência ou Progresso (JB-29/05/96). Tem-se a certeza de que a criatividade universitária transcende as experiências nos setores das ciências e da tecnologia e, neste sentido, o papel da universidade, no interior do país, poderá constituir-se não só em verdadeiro elemento propulsor, apoiando as escolas técnicas agrícolas, bem como, em matrizes formadoras de professores de todos os níveis, de acordo com as expectativas de crescimento dos núcleos populacionais. Não defendemos como saída a redução da licenciatura de plena para a licenciatura curta, mas, tratando-se de uma situação critica como a que se vivência, esta seria uma medida que não poderia ser simplesmente descartada. Oportuno, neste momento, é debelar o analfabetismo na zona rural e proporcionar condições para oferecer ensino de qualidade, tanto a nível elementar quanto médio. Incentivar esta colaboração da universidade é compromisso não só dos governos, mas também das próprias direções das instituições de ensino superior. Um dos males que levaram o ensino médio e, por contigüidade, o ensino fundamental a esta situação de extrema fragilidade foi sem dúvida a inversão das prioridades. Os recursos públicos destinados à Educação, além de raros, foram prestigiosamente carreados para as universidades, deixando os outros segmentos bastante deficitários. No que tange especificamente, ao ensino médio, o problema é de caráter estrutural. Como se sabe, não se valoriza a formação global aliada a uma perspectiva mercadológica, e sem uma formação extremamente teórica baseada na pseudo-ilusão de ingresso na universidade, quando sabemos que a grande maioria dos recém-formados, especialmente se egressos de universidades particulares, dificilmente irá encontrar colocação em um sistema saturado. Seguindo esta ótica, a universidade proporcionaria condições de se criar cursos técnicos a partir de suas estruturas já existentes sem, no entanto, comprometer as suas linhas de ensino e de pesquisa, já que os professores do ensino médio também participariam do projeto. Cursos técnicos em Laboratório, Radioterapia, Medicina Nuclear, Radiologia, Enfermagem, Prótese, Reabilitação, apenas para citar alguns exemplos na área biomédica, seriam perfeitamente factíveis. Cursos técnicos era outras áreas, como na das Ciências Exatas e Humanas e na das Artes etc, poderiam ser estabelecidos com sucesso. Claro está que a universidade seria um instrumento de capacitação e aperfeiçoamento dos professores de 1º e 2º graus, através de cursos livres de rápida duração, objetivando a reciclagem e a atualização destes mestres. A editoração universitária, entre outras formas de comunicação, poderia igualmente servir aos propósitos dos ensinos fundamental e médio, possibilitando a publicação de trabalhos direcionados aos seus respectivos setores, ampliando, e viabilizando as várias teses sobre a educação e a sua execução. Tomando-se o exemplo da Escola de Medicina e Cirurgia da Universidade do Rio de Janeiro - UNI-Rio, por se tratar de uma instituição localizada em uma zona residencial pontilhada de escolas públicas, muito poder-se-ia fazer dentro do que foi até aqui exposto, não apenas na formação de técnicos qualificados, mas também apoiando o campo do conhecimento. Imaginem a articulação entre os alunos do 2°, grau, que nutrem o gosto pela pesquisa, e o ambiente universitário. Por intermédio de uma metodologia acessível e básica, com textos mais simplificados, os alunos sob orientação e assistência adequadas aprenderiam a dar os seus primeiros passos na busca do saber e familiarizar-se-iam, além disso, com o trabalho em equipe. É desta forma que se formam futuros pesquisadores. As outras unidades que compõem o conjunto da universidade articular-se-iam com as escolas adjacentes, segundo as suas especificidades e virtualidades. Fatores adversos, no entanto, impedem a emulação de todos estes mestres, a começar pelos salários defasados; contudo, se cada qual fizer um pouco e tiver um míni: mo de compromisso com estes jovens, muito irá se conquistar. * Professor titular de Clinica Médica da UNI-Rio e mestre em Literatura Portuguesa pela UFRJ, respectivamente.