Notícia

Gazeta Mercantil

A Unicamp é uma usina de cérebros

Publicado em 20 janeiro 2003

Por Dirceu Pio - de Campinas
Vai governo, vem governo e a Unicamp continua firme na frente dos holofotes. Já emplacou dois nomes na equipe de transição do governo de Luiz Inácio Lula da Silva e está certa de que fará de três a quatro ministros, sem contar o profuso número de técnicos, cientistas e pesquisadores que deve ocupar cargos no segundo escalão. O reitor dessa que é uma das maiores e mais influentes universidades do País, a Universidade Estadual de Campinas, Carlos Henrique de Brito Cruz, acha que uma das maneiras de aferir o resultado do trabalho das academias é justamente verificar o número de quadros que elas são capazes de oferecer a um novo governo: "O desígnio da Unicamp é formar lideranças intelectuais para servir ao Brasil. Temos apenas algumas poucas universidades capazes de fazer isso." A outra maneira de apurar os resultados da academia é, segundo ele, identificar o número de empresas que ela faz nascer ao longo do tempo. Nesse aspecto, a Unicamp também é destaque: passa de 45 o número de empresas que ela produziu nos últimos dez anos. "São empresas - observa o reitor - que não existiriam se a Unicamp não existisse". São todas de tecnologia de ponta, algumas das quais começaram a passar da condição de médias para grandes empresas. ORÇAMENTO BILIONÁRIO A Unicamp é quase uma cidade dentro de Campinas, município com 1,1 milhão de habitantes a 90 quilômetros de São Paulo, a capital. Tem 8 mil funcionários, 1.800 professores, 12 mil alunos nos cursos de graduação e 13 mil nos cursos de pós-graduação (mestrado e doutorado). Além de gerenciar essa megaestrutura, o reitor administra um orçamento de quase R$ 1 bilhão - R$ 600 milhões provenientes do Tesouro Estadual e mais R$ 270 milhões captados junto ao Sistema Único de Saúde (SUS), Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (Fapesp), Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior (Capes), Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq), empresas e vários outros órgãos públicos. Ele evita falar em falta de recursos. Prefere dizer que se houvesse mais dinheiro a universidade poderia fazer muitas outras coisas, pois com os recursos disponíveis ela faz muita coisa bem feita. Carlos Henrique de Brito Cruz assumiu na Unicamp em abril, depois de ter passado seis anos na presidência da Fapesp. Tem 46 anos, nasceu no Rio de Janeiro, é engenheiro eletrônico formado pelo Instituto Tecnológico de Aeronáutica (ITA), doutor em física pela Unicamp. Foi diretor do Instituto de Física da Unicamp por duas vezes. Em entrevista concedida à Gazeta Mercantil no final de novembro, ele falou sobre a contribuição da universidade para o desenvolvimento do País e sobre suas expectativas em relação à nova ordem estabelecida para o relacionamento das academias com o setor empresarial. Gazeta Mercantil - O que está por trás dessa espécie de vocação da Unicamp para a pesquisa? Carlos Henrique de Brito Cruz - Temos aqui uma característica muito singular que está no fato de termos um pouco mais de estudantes de pós-graduação, algo que demonstra uma qualidade especial para o campo da pesquisa. A Unicamp foi planejada assim desde o seu projeto original. Ela valoriza muito a excelência acadêmica, o avanço do conhecimento, mas desde o início valoriza também muito as interações com a sociedade. Veja, por exemplo, o nosso hospital de clínicas, o maior pólo de atendimento à saúde desta região do estado até chegar a Ribeirão Preto. Atendemos, gratuitamente, 500 mil pessoas por ano. Quais as áreas mais fortes no campo da pesquisa? A universidade cobre com seus cursos quase todo o espectro do conhecimento. A área de engenharia é muito forte. Temos também uma área relacionada com biologia molecular, saúde e biodiversidade. Temos atividades importantes na área de economia. Por falar em economia, o senhor já tem uma idéia de qual vai ser a influência da Unicamp no novo governo? No segundo turno das eleições, alguém me perguntou qual era o candidato da minha preferência em termos de influência da universidade no novo governo e eu respondi que poderia ser qualquer dos dois, pois de um jeito a gente daria o presidente (referência ao candidato tucano José Serra, professor licenciado do Instituto de Economia da Unicamp) e de outro a gente faria vários ministros (risos). A Unicamp fará quantos ministros? Não sei, acho que quem pode falar a respeito é o presidente. De concreto até agora (final de novembro), temos dois nomes na equipe de transição (o professor André Viana e a pesquisadora Ana Fonseca). A Ana Fonseca dirige o programa de renda mínima no município de São Paulo, que é uma operação, impressionante. É o maior programa de renda mínima do mundo. Falam no Mercadante (Aluízio Mercadante, eleito senador por São Paulo), que é professor aqui; falam no Beluzzo (Luiz Gonzaga Beluzzo); falam no Márcio Pochman, secretário de Trabalho do município de São Paulo. Falam também no Marco Aurélio Garcia, secretário de Cultura do município de São Paulo. Que importância o senhor atribui a esse tipo de influência? Uma das maneiras de aferirmos o resultado do trabalho educacional que é realizado aqui é exatamente essa: verificar os quadros saídos da universidade que ajudam a compor os governos. Diria que a missão de uma universidade como a Unicamp é formar lideranças intelectuais. Temos apenas algumas outras poucas universidades no Brasil capazes de fazer isso. Todo país precisa ter escolas capazes de fazer isso. Que outro tipo de indicador pode ser usado para medir a qualidade do trabalho realizado por uma universidade? Observar, por exemplo, as empresas que nascem de uma universidade. A Unicamp já produziu 45 delas. É algo mais difícil de perceber porque tudo acontece ao longo do tempo. As coisas não acontecem assim de repente, a partir do momento em que o aluno se forma. No Brasil não costumamos valorizar as coisas cumulativas. A tendência é darmos valor às coisas que acontecem rapidamente. É preciso fazer o investimento por algum tempo para ele dar resultados. Você cria a Unicamp em 1967 e não pode esperar que em 1969 surjam resultados. Tem que esperar algumas décadas. Um dos lugares do Brasil onde é muito fácil ver esse efeito cumulativo é em São José dos Campos (SP). O ITA foi criado em 1948. Hoje, ou sejam, 54 anos depois, São José dos Campos é, não por acidente, o principal pólo da indústria aeronáutica do País e um dos principais do mundo. A quarta fábrica de aviões do mundo (Embraer) fica em São José dos Campos. Ela hoje está lá porque em 1948 criaram o ITA e foram formando engenheiros. Os números desse processo são notáveis: o faturamento da Embraer num ano deve dar algo perto de US$ 3 bilhões. O ITA custa por ano US$ 5 milhões. Um ano de faturamento da Embraer paga 600 anos de ITA. Como tem funcionando esse processo de geração de empresas pela Unicamp? São sempre empresas que dependem muito de conhecimento, dependem de algo que costumamos chamar de tecnologia. Uma delas é a Asga Microeletrônica, que fabrica equipamentos para comunicações ópticas. O diretor dela, José Ripper, é um físico, doutor em física, foi diretor do Instituto de Física da Unicamp. No ano de 2001, a empresa faturou perto de R$ 90 milhões. Há seis anos o faturamento dessa empresa era de R$ 4 milhões. Como foi possível esse salto em tão pouco tempo? Outro professor da Unicamp, Regis Scaragucci, aposentou-se aqui para liderar na Asga um projeto de grande inovação tecnológica, o desenvolvimento de um modem óptico. O projeto foi financiado pela Fapesp. Foi o que a empresa precisou para atingir o faturamento de dezenas de milhões. O que é esse aparelho? É um produto bastante competitivo. É um aparelhinho que você liga fibra óptica de um lado e sai do outro um sinal elétrico com dados. Empresas de telefonia é que compram este aparelho. Entre as 45, quais as que o senhor destacaria? Temos a Pósitron, que fabrica alarmes para carros. Foi criada por estudantes da nossa faculdade de engenharia elétrica. Pelas últimas informações que tenho, é uma empresa que já está acima de R$ 100 milhões de faturamento. Ela funciona quase dentro da Unicamp. No ano passado, abriram instalações em Manaus. Temos um outro caso interessante, de um aluno também de engenharia elétrica, o John Lima, que montou sua fábrica nos Estados Unidos, a Cyclades, uma indústria de equipamentos para internet. Temos ainda a Pad Tee, também uma fábrica de equipamentos para internet, instalada em Campinas. Fui informado que vão fechar o ano com faturamento de US$ 15 milhões. Esta resultou da fusão de engenheiros da área de elétrica com engenheiros da área de computação. Os melhores exemplos surgiram na área da tecnologia de comunicações? Não, temos muitas empresas na área de engenharia de alimentação. Temos um caso recente do lançamento da Allelyx, da área de genoma. É a primeira empresa do Brasil nessa área. Foi financiada pela Votorantim Ventures. É muito promissora, uma empresa da nova economia. Acredito que o que eles vão fazer é conhecimento na área genômica de plantas. É dirigida pelo Paulo Arruda, professor titular do nosso Instituto de Biologia, e pelo João Setúbal, professor do Instituto de Computação. São empresas, enfim, que não usam conhecimento ou pesquisa realizada na Unicamp. Elas usam cérebros feitos na universidade, são baseadas no cérebro de seus donos. Seria então a Unicamp uma fábrica de cérebros? Acho essa a melhor definição. Uma fábrica de cérebros bem preparados. São cérebros que se forem bem formados, como foram aqui, podem criar conhecimento a vida inteira. Como anda, por outro lado, a relação da Unicamp com as empresas de modo geral? Tem havido um desenvolvimento notável nessa relação. Há algumas restrições a serem vencidas. A principal delas está no fato de que, no Brasil, há um número muito reduzido de cientistas dentro das empresas. Temos poucas empresas que têm seus centros de pesquisa com seus próprios cientistas. Para que haja o sistema de cooperação entre empresas e universidades é essencial que haja cientistas dos dois lados. Caso contrário, não há vocabulário para conversar. O senhor enxerga mudanças nesse processo? Temos notado uma preocupação maior das empresas com o conhecimento e com a internalização da pesquisa e do desenvolvimento. Foi um avanço notável porque eu diria que até 1998 havia uma concepção muito equivocada no Brasil de que a empresa não faria atividades de pesquisa, pois a universidade faria a pesquisa para a empresa. Depois, tudo se resolveria com a chamada transferência de tecnologia. Na segunda metade da década de 90, nossas universidades, as autoridades estaduais, federais, as agências de financiamento, as empresas, as federações de classe, descobriram que para a relação empresa/universidade fluir seria necessário haver pesquisadores dentro das empresas. Foi aí que apareceu a expressão "inovação tecnológica'", com o reconhecimento de que o lugar dessa inovação é a empresa, não a universidade. Isto foi algo extremamente importante porque redirecionou inteiramente a pesquisa da ciência e tecnologia no Brasil. Ao que se informa, o Ministério da Ciência e Tecnologia teve papel importante nessa mudança? Exatamente. Antes, tínhamos uma política que olhava quase que exclusivamente para a academia sem olhar para a empresa. A contar de 1998, especialmente pelo esforço do ministro Sardenberg (Ronaldo Mota Sardenberg) e de seu secretário executivo Pacheco (Carlos Américo Pacheco), foi reconhecida a necessidade de mudarmos a estratégia. Acrescentaram à ciência e tecnologia a palavra inovação. E passaram a prestar atenção na empresa tanto quanto se prestava atenção na universidade. E os resultados vieram a seguir. Apareceu uma legislação específica, a Lei da Inovação, que está no Congresso, e na recente Medida Provisória n° 66, estão previstos benefícios fiscais importantíssimos para empresas que investirem em pesquisa e desenvolvimento. São benefícios comparáveis ao que se pratica nos Estados Unidos, na Espanha, na Coréia. A Unicamp já sente algum reflexo da mudança? Já observamos um aumento nas parcerias da universidade com empresas nacionais e multinacionais. Nossos maiores parceiros para pesquisa e desenvolvimento são a Ericsson, multinacional, e a Petrobras, nacional. Cada uma dessas empresas tem mais de uma dezena de projetos que são tocados com a Unicamp. A Ericsson tem projetos na área de telefonia sem fio, na área de comunicações ópticas, e a Petrobras tem projetos na área de armazenamento de petróleo, na prospecção de óleo no terreno. Acho que há muitas oportunidades se abrindo por aí. Temos ainda uma parceria com a Embraer para treinamento no campo da engenharia de software. Como um reitor ou a administração central de uma universidade do porte da Unicamp pode ajudar nessa interação? Creio que nossa maior missão é sinalizar objetivos e valores da instituição. Nossa missão, repito, é educação e avanço do conhecimento. A administração central deve sinalizar para a sociedade que a nossa principal contribuição com o País é realizarmos aquilo que é a missão da universidade e não deixar que a universidade caia na tentação de realizar várias outras coisas, que podem ser meritórias, mas que não cabem a uma universidade realizar. Se fizermos isso, arruinaremos nosso valor estratégico. A maior interação com as empresas pode aumentar substancialmente o orçamento da universidade? Destaco sempre que o objetivo principal da Unicamp ao contratar pesquisa com uma empresa não é trazer recursos que possam substituir o orçamento. O objetivo principal é criarmos condições para que nossos estudantes saiam melhor educados. Do ponto de vista institucional, é um erro trabalhar com a idéia de que a universidade deva buscar nesses contratos recursos para substituir o orçamento. É perigosíssimo se a estratégia for essa. Buscamos parcerias com as empresas para fazermos melhor as nossas atividades nucleares - educação e avanço do conhecimento. Isto quer dizer que cabe ao Estado manter-se na condição de grande financiador do ensino universitário no Brasil? Exatamente. Deve ser assim no Brasil, como é assim no mundo inteiro. Nos Estados Unidos, por exemplo, onde muitas boas universidades são privadas, costumamos achar que o Estado fica ausente do processo. De fato as universidades norte-americanas são privadas, mas são instituições sem fins lucrativos e que só conseguem funcionar no grau de excelência que funcionam com o apoio gigantesco do Estado. Temos aí, portanto, um papel insubstituível do Estado brasileiro em apoiar o ensino superior de qualidade porque é isto que fará o Brasil ficar melhor mais adiante. As empresas norte-americanas não investem fortemente em pesquisa? Investem, mas o grosso do dinheiro que elas investem é, na realidade, investido nelas mesmas. A IBM, por exemplo, tem um enorme centro de pesquisa, a HP também, de modo que é absolutamente normal que o volume de recursos obtidos com contratos entre universidades e empresas esteja numa faixa que oscila entre 5% e 10%. Isto serve para o Brasil e também para os Estados Unidos, que têm a indústria mais poderosa do mundo, o sistema universitário mais poderoso do mundo, mas onde o dinheiro das empresas que financia as pesquisas acadêmicas nunca na história passou de 7% do orçamento das universidades.