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Jornal da Unesp online

A UNESP e os desafios da inovação tecnológica

Publicado em 01 setembro 2007

Por José Arana Varela

O termo inovação tecnológica tem sido mundialmente utilizado para representar as modificações em processos e produtos que as empresas fazem para se tornar mais competitivas em um mercado cada vez mais global. Ela é feita principalmente nas indústrias que conhecem o mercado e têm condições de mensurar o risco de aceitação de um novo produto. Por outro lado, no Brasil, a maior parte do conhecimento científico e/ou tecnológico é, em geral, desenvolvida nas universidades ou institutos de pesquisa, sem comprometimento direto com as necessidades de mercado.

É preciso refletir sobre a forma como as universidades encaram o desafio de inserir no mercado o conhecimento que geram. O fato é que apenas uma pequena parcela de pesquisadores-docentes já interage com as empresas, ainda que de maneira ainda não articulada. Essa interação vai desde uma simples consultoria para solução de problemas técnicos até o desenvolvimento de projetos tecnológicos de grande impacto para as empresas.

O Núcleo de Inovação Tecnológica (NIT) da UNESP, criado neste ano, tem como objetivo gerir a política de inovação na Universidade, depositar os pedidos de proteção intelectual dos resultados de pesquisa em suas unidades, gerenciar a transferência de tecnologia para as empresas, bem como facilitar a interlocução entre os pesquisadores e o setor empresarial.

Representantes do NIT estarão presentes em todas as unidades, com o objetivo de dialogar com os pesquisadores e evidenciar os serviços que o Núcleo poderá oferecer a toda comunidade de pesquisa da UNESP. Para o lançamento do NIT, a Pró-Reitoria de Pesquisa está organizando o Primeiro Simpósio em Inovação Tecnológica, a ser realizado dias 24 e 25 de setembro (informações e inscrições em http://www.aptor.com.br/inovacao/programacao.php). O evento terá a participação de importantes personalidades, representando os setores envolvidos na inovação, desde órgãos de fomento, institutos de pesquisa, empresários e pesquisadores.

A aposta no conhecimento para a inovação tecnológica foi feita, desde o início do século XX, pelos EUA e alguns países europeus. Ao final da Segunda Guerra Mundial, esses governos passaram a financiar tanto o desenvolvimento científico como o tecnológico, via organização de agências de fomento.

No Brasil, ocorreu fenômeno similar, por recomendação da classe científica ao poder público, com a criação da Fapesp e do CNPq, cujo objetivo primordial era o de investir no domínio do conhecimento do ciclo da energia atômica.

Entretanto, a política de desenvolvimento levada a cabo pelos integrantes do chamado Primeiro Mundo e pelo Brasil guardou considerável distância. Enquanto aqueles países investiram numa política centrada na inovação tecnológica no processo produtivo, aqui se investiu na instalação da indústria pesada, que, entretanto, se ancorava na compra de tecnologia, muitas vezes ultrapassada.

Países asiáticos como a Coréia seguiram, a partir da década de 1980, o caminho do Japão, que apostou na cópia da tecnologia (engenharia reversa) para dominar os processos mais avançados e, então, atingir o patamar de produtor de inovações. Na época, Coréia e Brasil apresentavam os mesmos indicadores de desenvolvimento científico e tecnológico.

No entanto, enquanto a Coréia investiu na reformulação dos ensinos básico e superior, na industrialização com foco na inovação e no mercado externo, o Brasil centrou as ações nas potencialidades do mercado interno, nos produtos agrícolas e primários e na proteção do que aqui era desenvolvido. Infelizmente, frente à economia global, a opção brasileira não tem sido capaz de nos garantir o desenvolvimento contínuo e auto-sustentável.

Cabe agora trilhar caminhos para que o País esteja no âmbito das sociedades do conhecimento. Para tanto, será preciso resolver uma série de problemas estruturais, inclusive a reforma de todos os níveis de ensino. Por outro lado, há no Brasil de hoje em torno de 60 mil doutores formados, muitos deles subempregados e à espera de oportunidades para aplicar seu potencial.

O País é responsável por uma produção científica invejável (em torno de 2% da mundial), que o coloca entre os 15 primeiros produtores em nível mundial. A Lei de Inovação Tecnológica (2006) trouxe alguns mecanismos legais para facilitar a interação entre os pesquisadores e as empresas.

Ainda que a lei não possa resolver por completo o grande desafio de produzir inovação tecnológica nas empresas, facilita a solução de um dos grandes desafios: a transferência do conhecimento acadêmico (científico e tecnológico), desenvolvido nas instituições de pesquisa, para o ambiente das empresas. Nesse contexto, Núcleos de Inovação Tecnológica, como o recém-criado pela UNESP, são instrumentos que devem definir a política de proteção intelectual e facilitar o diálogo entre as instituições e as empresas.

José Arana Varela, pró-reitor de pesquisa da UNESP, possui graduação e mestrado em Física e doutorado em Materiais Cerâmicos pela Universidade de Washington (1981). Professor-titular do Instituto de Química, câmpus de Araraquara, é membro do conselho superior da Fapesp e da Academia Internacional de Cerâmica.