Notícia

Gazeta Mercantil

A tuberculose está no fim

Publicado em 22 abril 2002

Por José Roberto de Alencar - de Ribeirão Preto (SP)
Como todo camponês francês, Louis Pasteur detestava prussianos. Como todo prussiano, Robert Koch odiava camponeses franceses. Koch, que acusava Pasteur pela morte de bichinhos em testes de vacinas, descobriu em 1882 que tuberculose era obra de bacilo (Mycobacterium tuberculosis) e inventou uma vacina, cujos testes mataram pessoas. Nem o alemão, nem o francês, nem os grandes laboratórios multinacionais obtiveram, no decorrer do século, a vacina ou o remédio definitivos contra a tuberculose. Façanha só descrita em julho de 1999, na revista científica Nature, por outro camponês.Mais precisamente, o ex- lavrador e hoje professor Célio Lopes da Silva, da Faculdade de Medicina de Ribeirão Preto, da USP. A vacina genética desenvolvida por sua equipe agiu como remédio em cobaias — e só morreram as que não a tomaram. Há hoje, no mundo, 170 vacinas em teste. Cinco já autorizadas para teste em gente. Uma é a de Lopes. Se a reação dos humanos for parecida com a das cobaias, tuberculose vira doença em via e extinção, Logo. Célio coordena a rede de 170 pesquisadores de 47 instituições, que apoiada pelos mistérios da saúde e da Ciência e Tecnologia e pelo CNPq, prepara os testes. A torcida é grande. No Brasil, 13- maior pasto do bacilo no mundo, a cada ano a doença mata 6 mil pessoas e acrescenta 129 mil aos 47 milhões infectados. O País é um dos sacos de pancada prediletos da doença, mas não leva a sova sozinho. Nó fim do século XIX, epidemia mundial matava 2,5 milhões de pessoas por ano. O aparecimento de sanatórios no começo e das drogas bravas no meio do século XX frearam a matança em 1,3 milhão. Aí as pessoas trocaram o campo pela cidade (apinhada e propícia ao contágio); a miséria cresceu (e com ela a fome que debilita a vítima para o bacilo): veio a Aids (que faz o serviço da fome); o sanatório virou ambulatório (de onde o paciente some antes de sarar, criando bactérias resistentes aos remédios) — e a epidemia, declarada global em 1993 pela Organização Mundial da Saúde, mau 3 milhões de pessoa/ano. A TUBERCULOSE ESTÁ NO FIM O avanço implacável da tuberculose se deve à falta de vacina ou remédio que ainda prestem. A vacina mais usada desde 1921, a BCG (Bacilo Calmette Guérín ou Mycobacterium bovis, da tuberculose bovina, cultivado por 9,5 anos para amainar a virulência) nunca foi lá essas coisas. Ela estimula a produção de proteínas antígenas pelos macrófagos, células de alto poder bactericida dentro das quais o bacilo, espertinho, se esconde e dorme, quieto, até a hora em que a vítima dá moleza. ' Se um dia ela fica fraca por causa da fome, da bebida, de cansaço ou doença, o bicho acorda e ataca. Parte-se em dois a cada 24 horas (dobra a colônia) e dribla bem os antígenos liberados pelo macrófago. O mal da BCG é justamente esse: ativa a produção indiscriminada de todas as proteínas antígenas — metralhadora giratória, de péssima pontaria. Remédios como a isoniazida (hidrazida de ácido isonicotínico), a pirazinamida, a rífampicina e a estreptômicina (a panacéia milagrosa de 1946) foram muito eficazes até a década de 1970. Na de 80, fraquejaram: tratamentos malfeitos já produziam bacilos resistentes a dois, três e até a combinações de todos os remédios. Portadores desses bacilos (pacientes multidrogas resistentes) têm pouca chance de sobrevivência. Pois justamente quando a tuberculose ganhava de goleada, o professor Célio Lopes obteve a vacina genética. Ela azeda aquela convivência do bacilo com o macrófago que o engole e, em vez de matá-lo, o mantém em estado latente. Nas cabines de nível 3 de segurança biológica (de onde os monstrinhos não conseguem fugir) do Laboratório de Vacinas Gênicas feito pela Fapesp na USP de Ribeirão, Lopes pesquisou, com pachorra de roceiro, o comportamento de doze das proteínas liberadas pelos macrófagos. O passo seguinte foi inserir um pedaço do DNA do bacilo em plasmídeos capazes de se multiplicarem em bactérias Escherichia coli. Injetadas no músculo do paciente, essas células com mensagem orientam sua reprodução pelo organismo. E as novas células fabricadas pelo paciente terão agora no DNA a hsp6S, a proteína antigênica que destrói os macrófagos contaminados. Embora esteja liberada para teste em gente, a hsp65 vai ser testada em terapia. Testar vacina é complicado, caro e demorado. A primeira fase é a da toxidez, em cinqüenta pessoas. A segunda consiste na observação dos efeitos imunológicos em trezentas pessoas. Na última, se acompanha por quinze, vinte anos, sua eficiência numa região que abrigue de 1S0 mil a 200 mil pessoas. Testar medicamentos é mais rápido e barato. Como na teoria (e em cobaias) a hsp65 faz efeito de remédio, a Rede TB (um dos 17 Institutos do Milênio do Ministério da Ciência e Tecnologia) prepara, em hospitais e postos de Saúde do Rio, Recife e Vitória, a infra-estrutura hospitalar, pessoal e de segurança biológica para iniciar os testes. Acompanhados peta OMS e pelos comitês setoriais de universidades e institutos como Pasteur, Harvard, N1H e Atlanta, os testes serão coordenados pelos professores Diógenes Santiago Santos, Afranio Kritski, Antonio Rufino, J. Roberto Lapa e Silva, Maria Graça Henriques e Reynaldo Dietze. O Farmanguinhos (um dos principais fornecedores de remédios para o governo) participa do projeto e pesquisa formulações e métodos de produção dos fármacos em larga escala. A Life Seieices Biotechnology (empresa brasileira apesar do nome) cuida em escala industrial das vacinas para os testes. E tudo é coordenado por Célio Lopes, o professor que pensa ter perdido o "ar de garoto inocente da roça" ao passar entre os primeiros no vestibular para o curso de Farmácia na USP, em 1973. No máximo trocou o ar de garoto inocente da roça pelo de cientista inocente do laboratório. Oitavo filho de dona Maria Aparecida e Antonio Lopes da Silva, modesto sitiante de Sapesal, bairro de Leme, no interior paulista, Célio penou para sair da casa de pau a pique e chegar onde chegou — os auditórios dos congressos e as páginas das revistas mais respeitadas pela comunidade científica internacional. Aos sete anos, levantava-se às 5h para não perder a aula na escola distante quatro quilômetros — distância que manteve analfabetos alguns de seus oito irmãos e só permitiu a três (Neuza, Antonio e Edis) chegarem ao diploma que os habilitou a dar aulas no primário em Leme. À tarde, ajudava o pai na apanha do algodão, no corte da cana ou no trato dos porcos e das galinhas. Aos 9, Célio mudou de endereço e de profissão: virou vendedor das verduras e frutas do sitio pelas ruas de Leme, ginasiano na escola de Comércio e coroinha na igreja matriz. Durou pouco. O pai pediu arrego e ele passou a fazer traje to inverso: caminhar na madrugada para o sítio, trabalhar na lavoura até o sol se pôr e correr de volta para o banho e as aulas. Só depois das 23h achava tempo para comer alguma coisa. Em eventuais horas vagas, ia descansar — na biblioteca, "onde podia estudar física, química e biologia". Em outras horas vagas faturava trocados como ajudante de pedreiro, de mecânico ou vendedor de tecidos. Aos 17, formou-se professor primário no Colégio Nilton Prado e aos 18 brilhou no vestibular da USP. Farmacêutico diplomado, e 1976 decidiu fazer pós-graduação e doutorado em Bioquímica. Em 1983, foi lecionar na USP de Ribeirão, onde se casou com a colega bioquímica Lúcia Helena Faccioli (futura mãe de seus três filhos), antes de se mudar para fazer o pós-doutorado em bioquímica no National Institute for Medicai Research, em Londres. Ali começou a pesquisar a tuberculose, em 1990. De volta ao Brasil, titular da Imunologia da USP, pôde continuar as pesquisas graças a R$ 600 mil cedidos pela Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo, a Fapesp. Animou-se em 1992, quando surgiu a primeira vacina gênica (contra a influenza). Era o caminho. Precisava descobrir qual gene deveria inserir nos plasmídeos para combater a tuberculose. E em 1994 ele e equipe puderam anunciar, no congresso da OMS em Genebra, a descoberta da primeira vacina gênica contra a tuberculose. Ao contrário das vacinas vivas, que podem contaminar em vez de proteger, a gênica é segura. E os resultados obtidos nos testes com cobaias foram fantásticos. Nos camundongos não vacinados, contou 1,2 milhão de bacilos por grama de tecido. Nos vacinados, de zero a mil. "Melhor foi descobrir que a aplicação posterior curava a doença" — sorri o professor de 50 anos. O sorriso ingênuo de menino da roça.