Notícia

Revista da Indústria (Fiesp)

A terra da inovação

Publicado em 01 dezembro 2009

Por Dulce Moraes

Entre os três países mais inovadores do mundo, a Finlândia mostra seu exemplo de inovação ao Brasil, país com quem quer ampliar negócios e parcerias

Para muitos, ela ainda é a terra do Papai Noel ou o berço dos pilotos de Fórmula 1 Mika Hakkinen e Kimi Raikkonen. Mas o que fez a Finlândia despontar no cenário mundial nos últimos anos foi o meteórico sucesso da empresa Nokia, que colocou o país entre os maiores produtores de alta tecnologia.

Hoje, a Finlândia (ao lado da Suécia e Suíça) está no topo da inovação tecnológica do mundo, segundo o último levantamento da Organização para a Cooperação e o Desenvolvimento Econômico (OCDE), divulgado em outubro. Os Estados Unidos ficaram em 6o lugar e o Brasil em 42°.

A Finlândia foi reconhecida pelo Banco Mundial como modelo pela rapidez com que conseguiu alterar sua estrutura econômica após a profunda recessão provocada pelo colapso da União Soviética, no final dos anos 1980. Em curto período, passou de uma economia conduzida pelo investimento para uma economia movida pela inovação e conhecimento tecnológico.

Kari Talvitie, conselheiro do Departamento de Inovação do Ministério do Trabalho e da Economia da Finlândia, explica que, nessa época, o governo finlandês optou por investir suas reservas no desenvolvimento de alta tecnologia, criando para isso a Agência de Financiamento Finlandês para Tecnologia e Inovação (Tekes). "O objetivo era incentivar empresas inovadoras e estimular a cooperação para criar uma cadeia de alta tecnologia", comenta.

As diretrizes e verbas da inovação na Finlândia são definidas pelo Ministério do Trabalho e Economia e Ministério da Educação seguindo uma dinâmica horizontal com outras áreas do governo. A lógica disso é que a política do país é inovação tecnológica, e o objetivo final é gerar emprego. Outras áreas de enfoque do governo são energia e meio ambiente e se articulam de forma integrada.

Esse espírito colaborativo entre governo e instituições é apontado por Severi Keinälä, consultor sênior de internacionalização de empresas da Confederação das Indústrias Finlandesas, como um diferencial. "Não há nenhum projeto na administração pública em que a confederação não esteja envolvida ou sobre o qual não seja consultada. Sempre que o Parlamento e os ministérios tomam decisões também somos ouvidos", diz ele.

Fonte de fomento. As empresas finlandesas (e filiais de estrangeiras instaladas no país) que queiram inovar produtos, processos e serviços podem contar com aporte financeiro da agência governamental Tekes. "E não precisam ser necessariamente empresas de tecnologia de ponta", afirma Kari Komulainen, diretor de operações globais da agência. O orçamento de 2009 foi de 600 milhões de euros, dos quais 67% se destinaram a financiar projetos de inovação das empresas. O restante foi para os centros de pesquisas das universidades.

As áreas contempladas são: inovação para o setor de serviços; inovação para o setor de bem-estar e saúde; tecnologia da informação e comunicação; nanotecnologia; energia renovável; poupança de materiais; e novas oportunidades tecnológicas. "O objetivo é comprometer as várias especialidades, estimulando a cooperação", esclarece Komulainen.

A inovação no setor de serviços merece destaque nos investimentos por ser uma necessidade mercadológica atual. Ninguém compra equipamento sem um serviço acoplado, como assistência técnica ou, no caso dos celulares, o próprio serviço de telefonia, de envio de e-mails. De acordo com Komulainen, é um setor que tem gerado grande lucro e substituído as vagas de emprego perdidas na indústria.

Os especialistas da Tekes fazem um acompanhamento das empresas antes mesmo de o projeto ser desenvolvido, estabelecendo uma relação de confidencialidade para proteger seus inventos e patentes. A cada três projetos financiados pela agência, um não vinga. Esse índice é considerado bom para os analistas da agência. Afinal, o objetivo é fazer com que as empresas aprendam mais, tornem-se mais competitivas. "Incentivamos o risco, mesmo porque temos pouco crédito disponível no mercado para as empresas", afirma Komulainen.

Versão verde-amarela. No Brasil, os órgãos que cumprem um papel análogo à Tekes são a Financiadora de Estudos e Projetos do Ministério da Ciência e Tecnologia (Finep) e o Banco Nacional de Desenvolvimento (BNDES). Juntos, eles mobilizam um orçamento maior que o da agência finlandesa, segundo Carlos Henrique Brito Cruz, diretor do Conselho Superior de Tecnologia da Fiesp e diretor científico da Fundação de Amparo à Pesquisa no Estado de São Paulo (Fapesp). "A Finep oferece cerca de R$ 450 milhões para subvenção (não reembolsável) por ano à Pesquisa & Desenvolvimento (P&D), além de mais de R$ 100 milhões em empréstimo subsidiado", conta.

Em termos de resultado, a maior diferença entre os dois países é a participação financeira das empresas no fomento a P&D. "Em 2007, a Finlândia investiu 3,5% do seu Produto Interno Bruto em P&D, dos quais 72% vieram de empresas (2,5% do PIB). Já os investimentos brasileiros totalizaram 1,1% do PIB e o aporte das empresas representou 0,4% do PIB", diz Brito Cruz.

Na opinião do diretor da Fapesp, não há como culpar somente o empresário pelo baixo investimento em pesquisas, pois, ao longo da história da economia brasileira, houve sérios empecilhos. "Até os anos 1980, convivíamos com dois elementos que envenenam todo investimento de longo prazo: instabilidade econômica e uma economia fechada." Nos anos 1990, com a estabilização da economia, abertura de mercado e globalização, ampliou-se a competição no mundo dos negócios, o que tem estimulado a busca pela inovação. "Mas essas mudanças levam tempo", afirma.

Para se equiparar ao nível de desenvolvimento da Finlândia, o Brasil também deverá mudar outro índice: a baixa presença de pesquisadores e cientistas contratados nas empresas brasileiras. Na Finlândia, os 40 mil cientistas contratados por empresas encaminham para registro 1.800 patentes por ano. No Brasil, os menos de 29 mil cientistas empregados nas indústrias submetem cerca de 100 patentes internacionais.

Centros de tecnologia. Um dos itens que o Brasil, na avaliação do professor Brito Cruz, não deixa a desejar são os seus parques tecnológicos, instalados, atualmente, em Campinas, São Carlos, São José dos Campos, São José do Rio Preto, Piracicaba e Sorocaba. Até 2010, só no estado de São Paulo, serão dez parques tecnológicos, um dos quais na capital paulista, contando com a parceria da USP, Instituto de Pesquisas Tecnológicas (IPT), Instituto de Pesquisas Energéticas e Nucleares (Ipen) e Instituto Butantan.

Com conceito semelhante, na Finlândia há os chamados parques de ciência (Science Park). Na antiga capital finlandesa, Turku, encontra-se um deles, que é o maior ambiente de inovação do país. Em uma área de 5 quilômetros quadrados, estão reunidas as principais universidades e escolas politécnicas, centenas de empresas de alta tecnologia e dois centros de inovação. O BioTurku (especializado em biotecnologia) reúne cerca de 90 companhias e institutos de pesquisas da região com foco em pesquisa de medicamentos, diagnósticos, biomateriais e alimentos funcionais. Já o ICTTurku compreende uma rede de 1.400 companhias de Tecnologia da Informação e Comunicação.

Eles estão de olho no Brasil

E não é de hoje. No País, existem atualmente 40 empresas finlandesas, que, em 2008, movimentaram 2,7 bilhões de euros em negócios - volume quatro vezes maior que a exportação da Finlândia. Para Paavo Väyrynen, ministro do Comércio Exterior e Desenvolvimento da Finlândia (leia entrevista na íntegra no site: www.fiesp.com.br), a relação entre os dois países caminha para a complementaridade econômica, pois a Finlândia oferece tecnologia em áreas onde o Brasil tem muita matéria-prima e outros recursos.

O ministro afirma que acompanha com entusiasmo, além da eficiência tecnológica da indústria aeronáutica Embraer, o avanço do País no desenvolvimento do etanol e energias renováveis, setor em que a Finlândia tem investido muito em inovação (veja o quadro Diesel 100% Renovável).

Outra área de excelência finlandesa é a tecnologia do setor marítimo e de offshore (equipamentos para exploração e produção de petróleo em alto-mar). Em outubro, uma comitiva de empresários do setor estiveram na sede da Fiesp para conhecer e apresentar as oportunidades de negócios. O know how finlandês nessa área vai desde projetos de embarcações até produções completas de navios quebra-gelo, plataformas e tanques petrolíferos, submarinos (inclusive para fins turísticos) e equipamentos meteorológicos.

Diesel 100% renovável

A maior refinaria de petróleo finlandesa, Neste 0/7, é a primeira do mundo a produzir em larga escala um biodiesel 100% renovável. Trata-se do NExBTL, composto de 80% de óleo de palma (oriunda de plantações certificadas na Malásia) e 20% de gordura animal e cânula. Atualmente as duas fábricas da companhia, na cidade de Porvo, produzem juntas 170 mil toneladas de biodiesel e empregam só 30 pessoas na área operacional, devido ao alto nível de automação. Em breve irão inaugurar mais duas fábricas, uma em Cingapura e outra em Roterdã, um investimento de 1,2 bilhão de euros. Elas serão as maiores produtoras de diesel renovável do mundo, com capacidade para produzir 800 mil toneladas do produto, que deverá atender principalmente o mercado europeu.

De acordo com Markku Patajoki, chefe da equipe de pesquisa na área de biotecnologia, a companhia investe, por ano, 30 milhões de euros em pesquisa, dos quais 60% são destinados à busca e à aplicação de novas matérias-primas renováveis, como as produzidas com resíduos industriais, gordura de algas e de micróbios. E há um experimento conjunto com uma fábrica piloto para tentar uma síntese de resíduos de madeira.