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Revista Avicultura Industrial

A tecnologia irá transformar por completo a avicultura nos próximos 30 anos

Publicado em 01 setembro 2019

Os aviários terão seus ambientes internos totalmente controlados por sensores e câmeras, atendendo em tempo real as necessidades de uma ave que tende a estar pronta para o abate em apenas 26 dias (nova genética) e que poderá expressar sensações e ser compreendida por sistemas inteligentes

Por Humberto Luis Marques aviário do futuro será um ambiente totalmente controlado, equalizado dentro dos níveis de conforto das aves. Câmeras e sensores serão responsáveis por acionar respostas imediatas frente a qualquer alteração de comportamento ou térmica, garantindo o bem-estar de todo o plantel alojado. Essas mesmas aves devem atingir 2, 7 kg de peso vivo aos 26 dias, reduzindo em muito o tempo de abate. Com esses avanços do melhoramento genético, muitos conceitos precisarão ser revistos. E, mais do que isso, serão compreendidas em suas falas, traduzidas por sistemas inteligentes que identificarão sons de fome, medo, calor ou fno. “ A avicultura de 20 anos atrás não é mais a mesma de hoje, que também não será igual a dos próximos 20 anos. Com uma diferença significativa. Os avanços daqui para frente serão em uma velocidade extraordiná na, muito maior do que já foram até então ”, indica Iran José Oliveira da Silva, coordenado do Núcleo de Pesquisa em Ambiência (Nupea), da Esalq-USP Esse ambiente de produção exigirá novos avanços em áreas como nutrição, sanidade e manejo, que terão de lidar com essa ave totalmente diferente da criada hoje. O mesmo se pode dizer de técnicos, funcionários e produtores. Todos terão que conviver com planilhas de dados, interpretar informações e trabalhar com tecnologias. Profissões como médico vetennáno e zootecnista serão cada vez mais multidisciplinares. “ Os veterinários e zootecnistas do futuro precisam estar interligados com administradores, planilhas eletrônicas, análise de dados, informática e modelagem de uma maneira geral. Não há mais como acompanhar tão somente as questões biológicas do processo produtivo. É preciso trabalhar com as informações obtidas com dados em mãos ”, explica Oliveira da Silva. “ Hoje, a maior dificuldade das universidades está em exatamente preparar esses profissionais para o futuro, que terão pela frente o desafio da análise de dados ”, complementa. Avicultura Industrial nº| 2019 Em entrevista exclusiva à Avicultura Industrial, o coordenador do Nupea/Esalq-USP lança um olhar para o futuro da avicultura com base nas inovações disruptivas que tem surgido no mercado, tendo a ave como um biossensor de suas necessidades. Confira! Avicultura Industrial- Como as inovações tecnológicas estão transformando a produção animal no Brasil e no mundo? Iran José Oliveira da Silva- Em relação a isso, podemos pensar em duas vertentes. À primeira se relaciona com o que acontece no mundo frente a essa evolução tecnológica. O que temos vivido é uma evolução de grandes equipamentos para pequenos, alguns em níveis nanotecnológicos. O avanço da microeletrônica gerou uma grande revolução em toda a indústria. Estávamos acostumados a equipamentos mais robustos, com sistemas mecanizados, e agora temos de lidar com opções menores e automáticas. Um exemplo típico são os celulares. E toda essa revolução se dá principalmente no exterior porque há não só uma demanda maior, mas também grandes investimentos em pesquisas científica e tecnológica relacionadas à inteligência artificial, robótica e automação. A segunda vertente se relaciona a como estas tecnologias chegam e impactam o setor produtivo de proteína animal. Esse contexto tecnológico atinge diretamente toda a cadeia produtiva, focada principalmente em novos equipamentos voltados à alimentação (nutrição), ao controle do ambiente de produção (ambiência), dentre outros. Porém, com uma nova visão, ou seja, dentro de um conceito em que se vê o animal como um biossensor, responsável por fornecer respostas diretas e em tempo real ao próprio sistema. É um processo crescente e dinâmico que já acontece no exterior, como resultado de pelo menos uns dez anos de pesquisas, mas que agora tem se concretizado com produtos chegando ao mercado. Iran José Oliveira da Silva é professor livre docente da Universidade de São Paulo (USP). Formado em Engenharia Agrícola pela Ufla, com mestrado e doutorado pela Feagri/Unicamp, pós-doutor pela Universidade de Guelph (Canadá), é coordenador do Núcleo de Pesquisa em Ambiência (Nupea/Esalq-USP) desde 1992.  

AI- De que forma estas inovações tecnológicas chegam até o mercado brasileiro?

Oliveira da Silva- Normalmente estas tecnologias chegam ao país como uma proposta e oportunidade de negócios, logo após o lançamento em eventos internacionais. Na verdade, surgem como oportunidade de negócios capitaneados pelos representantes destas empresas internacionais no mercado brasileiro. Só que há um aspecto importante. Nem tudo que funciona dentro da realidade produtiva no ex tenor Irá funcionar da mesma forma no Brasil. Exatamente porque as condições de controle e de produção são muito diferentes. Essas considerações devem-se principalmente aos aspectos fisicos da produção. Quando analisamos o aspecto tecnológico pela ótica do produtor propriedade ou funcionário encontra-se outra barreira. A falta de domínio dessas tecnologias, a carência de técnicos com uma formação específica para trabalhar com as inovações e novos equipamentos. Claro, esse é um caminho sem volta e com o tempo há uma adaptação natural. À questão é que a velocidade destas transformações tecnológicas é cada vez mais rápida. À cada dia surge uma nova tecnologia ou a possibilidade de uma aplicação no setor produtivo, garantindo sempre redução de perdas com maior assertividade.

Al- Estas novas tecnologias não são mais intuitivas e autônomas, tirando um pouco da necessidade de a pessoa agir por conta própria, o que, por consequência, tiraria dela a necessidade de compreender o processo para fazer sua gestao?

Oliveira da Silva- Não, necessariamente. O processo que vivemos é muito dinâmico e envolve a adaptação- e até renovação- da equipe técnica dentro de uma granja ou sistema produtivo. Essas pessoas precisam possuir conhecimento. Na A avicultura do futuro terá as aves falando. Elas vão falar, não tenha dúvida disso. Quando me refiro a falar, é com relação a compreender os significados do seu piado. Da mesma forma o suíno, buscando entender todas as suas emissões vocais. De certa forma, isso já é uma realidade hoje ” mentos específicos que os façam compreender a nova tecnologia e interpretar as respostas fornecidas por ela. Hoje, existem equipamentos que coletam os mais variados tipos de dados. Há uma quantidade enorme de dados e planilhas de resultados, mas tudo Isso só passa a ser realmente eficiente se tiver alguém que saiba interpretar, analisar e tirar as conclusões necessárias para aplicar no que realmente interessa, ou seja, que resolva o problema. Por mais que o sistema seja inteligente, ele não consegue colher os dados, processá-los, analisá-los e ainda direcionar a tomada de decisões de forma automática. Por isso, são necessá nos modelos matemáticos para a predição, validação, fazendo todas estas interligações. Essa realidade é o próximo passo em diferentes áreas, que exigirão um pouco mais de tempo para percorrer todo esse caminho, e atingir os objetivos. Portanto, além da aquisição de dados, do “ big data ”, são necessários os modelos matemáticos para a tomada de decisões. Não há mais espaço para a intuição somente, precisamos ser mais profissionais e utilizar todas as ferramentas existentes para reduzir o erro ou o achismo.

Al- Esse é um contexto brasileiro ou vivenciado em todo o mundo, de uma maneira geral?

Oliveira da Silva- No Brasil, pnn cip almente. O grande gargalo está na diferença de nível tecnológico existente entre o produtor brasileiro e o estrangeiro. Por aqui, conseguimos desenvolver nossa atividade de uma forma altamente eficiente e com quahdade admirável, dentro das condições que temos. Porém, se tivéssemos a disponibilidade tecnológica de outros países, bem como os mesmos investimentos em educação, Ciência e tecnologia, o País esta na em um patamar ainda mais elevado. Fazemos muito com o pouco que temos. Parece uma frase conformista, mas temos que orgulhar das nossas produções, nas condições econômicas que vivemos. O nosso potencial é muito maior, não há dúvidas, desde que, haja investimentos e apoio, seja tanto do setor público como do setor privado. É preciso par cena para o desenvolvimento tecnológico.

AI- Poderíamos dizer, então, que existe uma clara necessidade de capacitação da mão de obra em termos tecnológicos dentro dos sistemas produtivos?

Oliveira da Silva- Não tenho dúvidas disso. Os veternános e zootecnistas do futuro precisam estar interligados com administradores, planilhas eletrônicas e análise de dados. Um novo profissional surgirá, com todo o conhecimento biológico dos animais, mas com uma visão qualitativa dos multiprocesso de toda a cadeia produtiva. Não há mais como acompanhar tão somente as questões biológicas do processo produtivo. É preciso trabalhar com dados em mãos, análise interpretativa e equipes multidisciplinares. Hoje, a maior dificuldade das universidades está em exatamente preparar esses profissionais para o futuro, que terão pela frente o desafio da análise de dados. Quando digo isso não me refiro a planilhas no Ex cell. Falo de modelos inteligentes de tomada de decisão relacionados à modelagem matemática e mecanismos de avalição, os quais nem sempre são apenas estatísticos. Há ferramentas inteligentes como redes neurais artificiais (RNA), lógica fuzzy e árvores de tomada de decisão, as quais contribuem para se decidir de forma eficaz. Ou seja, esses profissionais passam a ter uma necessidade cada vez maior de uma formação multidisciplinar.

AI- O senhor falou a pouco do animal como biossensor. Isso quer dizer que as tecnologias incorporadas às granjas irão interpretar o que esse animal está sentindo na tomada de decisão e, por consequência, atender aspectos de bem estar e produtividade

Oliveira da Silva- Ao dispor de uma tecnologia responsável por refinar as tomadas de decisão em função das necessidades reais do seu “ cliente ” que, neste caso, é o animal, se tem maior precisão nos resultados produtivos. As decisões passam a ser tomadas com base em dados técnicos e não simplesmente na percepção do funcionário ou do produtor. Em prop neda des maiores ainda é comum situações nas quais, ao sentir calor, o funcionário aciona todos os ventiladores da granja, sendo que os animais não necessita nam dessa medida. Vejam que esse exemplo é antigo, mas ainda existente mesmo com todos os sistemas de “ set point'' automáticos disponíveis. No outro extremo temos a evolução tecnológica, onde a decisão de acionar os sistemas passa a estar baseada no pró pni o animal, a partir da captação de suas necessidades pelos sensores e câmeras instalados na granja. Nesse caso, o sistema será acionado, sem a Entrevista interferência do colaborador, mas pelas necessidades térmicas dos animais. O resultado disso é melho na em ganho de peso, conversão alimentar, bem-estar, sanidade e demais aspectos.

AI- Ao falar de inovações tecnológicas, nos vêm à mente o uso de sensores, câmeras e outros equipamentos ligados à microeletrônica. Porém, não há também outra vertente tecnológica, que não se vale de eletrônica digital, mas sim de avanços em biotecnologia e nanotecnologia aplicados à produção animal?

Oliveira da Silva- Sem dúvida! Temos essas vertentes tecnológicas em plena atividade e aplicação na produção animal. Mas, todas essas mov ações podem ser classificadas como disrupt vas. Os avanços registrados em áreas de nano e biotecnologias atreladas a microeletrônica e aos processos biológicos formam um amplo conjunto de mudanças em todo o setor de produção. Inovações na nutrição, no melhoramento genético, na qualidade de insumos, em novos produtos e equipamentos. Integram essa revolução tecnológica, muitas vezes, perceptíveis e outras vezes nem são observadas. Todo esse aparato ferramental favorece uma resposta rápida e mais precisa em todas as fases dos processos produtivos. Lógico, tenho um conhecimento e foco mais direcionado à ambiência e bem-estar, mas isso está ocorrendo em todos os segmentos da cadeia produtiva animal. Por exemplo, durante um dos painéis da AveSui EuroTier, foi indicado que nos próximos anos será possível produzir um frango com 2,1 kg em apenas 26 dias. Hoje, são necessários 42 dias. Este salto de produtividade, graças ao melhoramento genético, causará um grande impacto, hoje visto como absurdo, porém, uma tecnologia disruptiva, que terá de ser acompanhada por outras áreas: manejo, nutrição, ambiência, etc. Ou seja, um avanço impulsiona outro. E cada vez mais estaremos correndo atrás de inovações, mudanças e melho nas.

Al- Poderíamos dizer que vivemos um momento de transição, no qual tecnologias de ponta começam a integrar as propriedades rurais, mas ao mesmo tempo convivemos com sistemas produtivos analógicos, vamos sim dizer, com pouca tecnologia incorporada?

Oliveira da Silva- O correto é falarmos em evolução, não em transição. O processo vivido atualmente é tão dinâmico, que não tem retorno. O termo transição- saindo de um modelo analógico para outro digital- passa uma Ideia errada de algo fimto. Só que Isso não val acontecer, ou parar por aí, o processo é contínuo. Depois do digital, surgirão outros saltos e mov ações tecnológicas. Então, é um processo evolutivo permanente e dinâmico. O que nos assusta em tudo isso é a sua rapidez, dificultando inclusive a assimilação de todas as tecnologias que chegam ao mercado. Esta disrupt ibi lida de de conceitos é o que causa maior estranhamento nas pessoas. Nem bem se começou a utilizar uma m ovação, e ela já sendo substituída por outra. Mas, é um processo natural. Há este estranhamento no início, mas na sequência a m ovação se torna uma grande oportunidade de negócio.

Al- Esse movimento faz parte da própria dinâmica do mercado, do mundo tecnológico?

Oliveira da Silva- Sim, é uma dinâmica pró pna do mundo tecnológico. Todo esse processo de inovações disruptivas é uma revolução mundial. Não adianta ima ganar- porque somos um país em desenvolvimento, mas ao mesmo tempo um dos maiores produtores mundiais de proteína animal-, que estas transformações não irão at ingar as nossas capacidades produtivas. Elas irão atin agir, sim. Porque todo esse processo tecnológico tem como pano de fundo a lucratividade das empresas, a redução de perdas ao longo das etapas produtivas, fabris e de comercialização. Os produtores brasileiros não podem pensar que estas transformações tecnológicas só existem no ex tenor, e nunca irão chegar até nós. Elas irão chegar, possivelmente adaptadas a nossa realidade. É uma questão de tempo. O que precisamos é aprender com esse processo evolutivo. A avicultura de 20 anos atrás não é mais a mesma de hoje, que também não será igual a dos próximos 20 anos. Com uma diferença si gm fica tiva. Os avanços daqui para frente serão em uma velocidade extraordinária, muito maior do que já foram até então. Não podemos ter medo do novo, mesmo conscientes que estamos velhos. O que não podemos é sermos obsoletos pelo medo das mudanças. Não adiante resistirmos, esses mudanças virão mais cedo do que esperamos.

Al- Qual o papel da pesquisa, principalmente das universidades, para o desenvolvimento e a aplicação destas novas tecnologias a campo?

Oliveira da Silva- O pesquisador sempre tem de estar a frente dos acontecimentos presentes. Não posso falar para você sobre o que ocorre hoje, a minha visão tem de ser futura. Isso porque qualquer pesquisa é morosa. Não é possível desenvolver uma pesquisa para se ter uma resposta amanhã. É necessário investir muitas vezes mais que cinco anos para se obter uma resposta conclusiva. Neste aspecto, temos duas situações. Uma, é validar as novas tecnologias para a nossa realidade. São feitos testes, os quais são momentâneos e avaliam o funcionamento delas dentro dos sistemas produtivos do Brasil. Isso é um pouco mais rápido. Outra, é estudar o que está por vir, o futuro. Vamos fazer um exercício para entender melhor essa situação. À avicultura de 2060, como será ”? Possivelmente, teremos um frango pronto para o abate em 26 dias de vida. Como será todo o nosso processo produtivo frente a essa realidade” É uma situação que muda tudo. Houve um salto genético, o qual precisará ser acompanhado de adaptações em nutrição, ambiência, sanidade e uma séne de outros aspectos. Passaremos a trabalhar com outro indivíduo. Então, se já existe uma tendência nessa direção, precisamos questionar o que será necessá no para dar suporte a esta nova realidade. E isto tem de começar a ser feito hoje. Não podemos esperar, ou perdemos o timing evolutivo do setor. Da mesma forma, o pesquisador ou cria tendências visando um futuro, ou segue as tendências criados por outros, esses são os dois caminhos da pesquisa. Não existe o certo ou o errado, apenas caminhos diferentes, mesmo considerando as pesquisas básicas e aplicadas.

Al- O senhor citou como exemplo a avicultura em 2060, mas, independente de um ano específico, já é possível projetar como será a produção avícola no futuro?

Oliveira da Silva- Uma certeza eu tenho, na avicultura do futuro as aves estarão falando. Elas vão falar, não tenha dúvida disso. Quando me refiro a falar, é com relação a compreender os significados do seu piado. Da mesma forma o suíno, entender todas as suas emissões vocais. De certa forma, isso já é uma realidade hoje. Há 15 anos, o pesquisador Damiel Berckmans, da Universidade de KU Leaven, na Bélgica, já realizava testes de vocalização com animais. Hoje, estes estudos se tornaram base para produtos comerciais, já disponíveis no mercado. Você pode me perguntar, qual a necessidade de traduzirmos a linguagem das aves e dos suínos? Que benefícios 1sso trará para o setor produtivo? Para responder isso é preciso Imaginar como será o aviário do futuro. O aviário será um ambiente totalmente controlado. Desde a distribuição de ração e água de bebida até a captação dos mais variados dados. O processo produtivo estará totalmente automatizado e controlado, com sistemas robustos de captura de dados e informações. Neste contexto, compreender as necessidades das aves a partir de sua vocalização será algo fundamental. À captura das formações passadas por estes sons será uma relevante base para a tomada de decisão, que passará a ser em tempo real. Com a ave falando, teremos condições de melhorar muito o processo produtivo, trazendo mais eficiência, ajudando a proporcionar o bem-estar das mesmas, pela maior compreensão e consequentemente produtividade às granjas.

AI- O Nupea tem desenvolvido pesquisas com vocalização, inclusive uma das mais recentes avaliava o impacto do som da galinha sobre o desenvolvimento embrionário em ovos dentro dos incubatórios. À questão da vocalização tem ganhado espaço nas pesquisas, principalmente no que tange ao bem-estar animal?

Oliveira da Silva- Sim, muito. Nessa pesquisa específica, que você citou, tivemos resultados surpreendentes. À ideia de trabalhar com esse foco nasceu de uma discussão que participe l com um grupo de pesquisadores num evento no Canadá. Resolvemos desenvolver esse trabalho aqui e, na verdade, nunca imaginávamos que pudesse ter algum tipo de resposta significativa, mas foi surpreendente. Na natureza, a galinha emite sons ao chocar seus ovos. Reproduzimos esses mesmos sons no incubatóno. Observamos alterações significativas no tempo de eclosão (janela de nascimento), com melhora na qualidade física dos pintainhos durante a primeira semana de vida, naqueles submetidos com as emissões sonoras da galinha mãe, entre outros aspectos positivos. Então, este estudo de bioacústica gerou resultados importantes que poderão ser utilizados no desenvolvimento de tecnologias e como ponto de partida para novas pesquisas. Outra coisa importante envolvendo produção animal, é que as mov ações não virão apenas da nanotecnologia, automação e/ou microeletrônica, mas também de áreas como neurociência, neurobiologia. No ex tenor já se tem estudos consistentes ligados à neurociência em produção animal. É uma área nova e muito recente no Brasil, mas já é um input importante.

AI- O estudo do Nupea em bioacústica resultou no desenvolvimento de uma tecnologia para uso nos incubatórios, que é um decibelímetro. Esse aparelho tem potencial para chegar ao mercado via parceria comercial com alguma empresa, por exemplo?

Oliveira da Silva- Neste momento ele ainda não deve ser dispo mbi liza do de forma comercial no mercado porque ainda temos algumas questões a serem resolvidos. O fato é que o andamento das pesquisas resultou em um decibelímetro minia tu nza do para captar o som no in tenor dos ovos incubados. O artigo com os resultados da pesquisa já foram publicados na Computers and Eletro mcs in Agn culture, uma revista internacional de computação aplicada à agricultura e produção animal. Também, demos entrada em um processo de patente via universidade. Só que esses processos são extremamente morosos. Além disso, é necessáâna uma quantidade maior de testes do protótipo em incubatórios, demonstrando claramente que ele pode gerar maior lucratividade ao longo do processo produtivo. Hoje, temos alguns parceiros colaborando na avaliação do real efeito do “Os próximos 30 anos serão totalmente diferentes dos últimos 30 anos. É preciso sempre pensar em como será a nossa produção animal três décadas a frente. Estamos falando de um “mercado ”que ainda irá acontecer por isso o melhor é estar preparado ou ir se preparando ” som sobre o desenvolvimento embnonáno do ponto de vista comercial, tentando mensurar os ganhos econômicos com essa tecnologia.

Al- As universidades brasileiras têm estabelecido parcerias com o setor privado para que suas tecnologias cheguem ao mercado? Isso tem se ampliado no pais?

Oliveira da Silva- As universidades mantêm atualmente um foco muito grande em rea astro de patentes. Especificamente no Estado de São Paulo, há um grande incentivo da Fapesp [Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo] nesse sentido. Um bom exemplo é o Pipe-Fapesp [Pesquisa Inovativa em Pequenas Empresas], voltado ao estabelecimento de par cenas entre universidades e micro, pequenas e médias empresas, com a Fapesp disponibilizando recursos para o desenvolvimento inicial do processo. Isso é muito importante, porque as universidades sozinhas não conseguem fazer esse trabalho. Essa aproximação entre universidade empresa está crescendo cada vez mais, associando as tecnologias com o bem-estar dos animais, que nessa visão todos saem ganhando, além de consideramos um processo conjunto eficiente.

AI- Quais as inovações tecnológicas estão disponíveis atualmente para uso dentro dos sistemas de produção animal?

Oliveira da Silva- Nos últimos anos vánas tecnologias passaram a ser aplicadas diretamente no campo. As estações de alimentação automática para suínos, os sistemas de automação de bebedouros e comedouros, as estações meteorológicas — O 22, portáteis, são bons exemplos. Outro, são sensores que acionam todo o sistema dentro de um galpão, agregando uma séne de tomada de decisões em um único aplicativo. À mesma coisa são softwares de captura de imagem do plantel, com análises pontuais do que ocorre em tempo real dentro de uma determinada área do galpão. Isso é feito por meio da análise de imagem em tempo real.

Al- Muitas vezes as tecnologias são simples, mas facilitam a coleta de dados em sistemas produtivos.

Oliveira da Silva- Uma tecnologia interessante que surgiu nos últimos anos, mas não tem uma repercussão tão grande, são as balanças de controle automático. Elas ficam espalhadas pelo aviário para que as aves subam nelas. Com o registro dos pesos, se tem com facilidade a média do lote, além de outros índices. “ Antigamente ” (anda uma realidade) isso tinha de ser feito manualmente por pesagem individual ou amostragem. É uma tecnologia relativamente simples, mas que auxiliou a vida do produtor.

AI- A incorporação das inovações tecnológicas no campo será um processo natural ou haverá a necessidade de conscientização do produtor e até da sociedade? No passado tivemos exemplos de resistências a processos e tecnologias inovadoras.

Oliveira da Silva- Nós estamos em um período de mudança de geração. A tecnologia também vem atrelada a essa mudança. Hoje, quando falamos em produção animal, não estamos mais focando em 2020-2025. A discussão está na produção animal de 2030-2040. E quem serão os produtores e pro pnet ános de empresas daqui a 10-20 anos? É outra geração, que já nasceu na era da internet, conhecedora de todo esse sistema digital. A inserção destas novas tecnologias começa vagarosa num primeiro momento, mas com a troca de geração, o processo irá ganhar uma velocidade enorme. Acreditamos que o campo passará por uma revolução de gerações que assumirão o negócio e tecnológica atrelada a evolução dos tempos.

AI- Em relação à resistência a tecnologias enfrentadas no passado, a que ainda devemos passar deve ser dentro de um período bem mais curto?

Oliveira da Silva- Os próximos 30 anos serão totalmente diferentes dos últimos 30 anos. As adaptações às mudanças serão bem mais rápidas. É preciso sempre pensar em como será a nossa produção animal três décadas à frente. Esse exercício é fundamental e envolve uma séne de aspectos. O aquecimento global, por envolver diretamente a ambiência; o bem-estar animal, que é uma demanda dos consumidores e mercados importantes; o próprio consumidor, que tem modificado seus hábitos alimentares. As transformações são muitas, e em muitas áreas. Estamos falando de um “ mercado ” que ainda irá acontecer por isso o melhor é estar preparado. Os seus netos não irão consumir o mesmo que você comeu ou consumiu. Essa é a grande certeza. Se não olharmos para esse futuro estaremos fadados a perder o trem da histó na. Temos que plantar hoje para colher amanhã. As empresas que sobreviverão a toda essa transformação nessa era digital, serão aquelas que estarão de olho no perfil do consumidor do futuro.