Notícia

Jornal da Unesp

A segunda gênese

Publicado em 01 junho 2000

De Mendel à Dolly, encarte traz histórico sobre a Genética e os últimos vanços da área, obtidos com o Projeto Genoma, do qual participam 35 cientistas da UNESP. A segunda gênese A aventura da Genética, das ervilhas de Mendel à ovelha Dolly A ciência criada por um monge O monge austríaco Grégor Johann Mendel correria o risco de render-se ao pecado da vaidade se pudesse ver a que ponto chegou a genética - a ciência cujos princípios ele lançou, fazendo experiências com ervilhas no jardim de um mosteiro nos confins da atual República Tcheca. O estudo do DNA - a molécula de ácido desoxirribonucléico que permitia a Mendel obter variedades de ervilhas diferentes das originais e, como se soube mais tarde, fundamenta a existência biológica de todo ser vivo na Terra - é o campo da investigação científica que mobiliza mais pesquisadores no mundo inteiro. Apenas com a mosca-de-fruta, Drosophila melanogaster, utilizada como modelo animal em laboratório, trabalham cerca de 5.000 especialistas, no mundo inteiro. O Brasil, ao contrário de outras ocasiões em que apenas testemunhou avanços alheios, desta vez não ficou para trás. Entre as universidades do País, a UNESP é uma das poucas que têm acompanhado de perto a trajetória da genética, pontuada quase todo dia pela descoberta de genes. Não se perdeu o interesse pela Drosophila, que serviu de base para a construção da genética nacional, nos anos 60, mas ultimamente o que tem animado o metódico dia-a-dia dos laboratórios diz respeito à identificação de genes ligados a temas essencialmente brasileiros, como a cana-de-açúcar e as bactérias que causam pragas agrícolas. Outro foco importante das pesquisas diz respeito a formas mais freqüentes de câncer no País. Esse trabalho faz parte do programa Genoma, iniciado há dois anos com financiamento da Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (Fapesp). A articulação que se firmou entre os laboratórios e as outras duas universidades estaduais paulistas - USP e Unicamp - estabeleceu uma competência nacional nesse campo a ponto de o Brasil ter se tornado o primeiro País do mundo a seqüênciar o genoma de um fitopatógeno, a bactéria Xylella fastidiosa, responsável pelo amarelinho, praga que reduziu em um terço a produção de laranjas no Estado de São Paulo. O feito foi festejado no início deste ano - coincidentemente, quando geneticistas do mundo inteiro lembravam do centenário da redescoberta dos trabalhos de Mendel (veja cronologia ao lado). Código da vida - A história do DNA é rica em emoções. Ela começa no último dia de fevereiro de 1953, quando o bioquímico britânico Francis Crick, deixando a fleuma britânica de lado, anunciou, no pub Eagle, em Cambridge: "Descobrimos o código da vida!". Ele se referia à descoberta da estrutura detalhada da molécula de DNA, realizada com o norte-americano James Watson, que seria noticiada alguns dias depois na revista Nature, Crick pode não ter primado pela modéstia, mas a história lhe daria razão. A compreensão da estrutura tridimensional do DNA abriria caminhos até então impensáveis: começava a nascer a engenharia genética e a biotecnologia que, a partir dos anos 70, permitiu o estudo e a produção de medicamentos e proteínas, como a insulina. Nesse percurso temos também a indignação da química inglesa Rosalind Elsie Franklin, cujas conclusões preliminares a respeito da estrutura do DNA lhe escaparam das mãos, antes de serem publicadas, e chegaram aos dois jovens e ambiciosos cientistas - Watson tinha 23 anos e Crick, 35, que assim terminaram de desvendar a charada da estrutura do DNA. Já se conhecia razoavelmente bem sua composição. Faltava desvendar sua forma, fundamental para entender seu funcionamento. Dizem os historiadores da Ciência que, se não tivesse morrido de câncer aos 37 anos, em 1958, Rosalind Franklin teria dividido o prêmio Nobel de 1962 com Watson e Crick, tão importantes foram as descobertas que fez. Frieza e descrédito - Os anos 50 registram também a amargura de Barbara McClintock. Ao comunicar que havia descoberto os transposons, genes que saltam de um cromossomo a outro, esperava reconhecimento e aceitação - jamais a frieza e o descrédito com que foi recebida. Há pelo menos 15 anos ela propunha uma abordagem holística, segundo a qual a posição relativa dos genes é que determinaria sua função, contestando a teoria do gene então em vigor, que via o DNA como uma molécula estável e bem-comportada. Barbara McClintock veria o reconhecimento somente aos 81 anos, em 1981, quando recebeu o Nobel de Medicina por suas descobertas. Ao mesmo tempo, acumulavam-se as evidências de que os genes saltadores são de fato importantes para a compreensão da hereditariedade. Digno de registro é também o deslumbramento que se seguiu à descoberta, no final da década de 50, de como a molécula de DNA se copia, quando as células se dividem. As duas fitas que formam a molécula se separam e cada uma delas serve de molde para uma estrutura complementar, do modo mais estético, simples e eficiente possível, a que deram o nome de "duplicação semiconservativa". Os anos 60, época de ouro da novíssima Biologia Molecular, que procura, compreender os seres vivos a partir do DNA, consagra a hospitalidade a não-biólogos, que ainda é uma das marcas dessa área. Antes, um matemático inglês, John Gríffíth, já havia ajudado Watson e Crick a entender como seria a estrutura do DNA. Agora, é um físico russo naturalizado norte-americano, George Gamow - o mesmo que propôs a teoria do Big Bang para explicar o surgimento do universo -, quem tem um papel fundamental no deciframento do código genético, o mecanismo pelo qual os pares de nucleotídeos que compõem o DNA ditam a seqüência de aminoácidos ao longo do processo de produção de proteínas. Carlos Fioravanti TIME DOS SONHOS Em dois anos, tempo menor que o previsto, 35 pesquisadores de quatro laboratórios da UNESP concluem seqüenciamento genético da Xylella fastidiosa, bactéria causadora do amarelinho. O Brasil é o primeiro país do mundo a seqüênciar um organismo causador de doenças em plantas. Entre coordenadores, docentes, alunos de pós-doutoramento, pós-graduação e graduandos, 35 pesquisadores de quatro laboratórios da UNESP - dois da Faculdade de Ciências Agrárias e Veterinárias (FCAV), do câmpus de Jaboticabal, e dois do câmpus de Botucatu, um da Faculdade de Ciências Agronômicas (FCA) e outro do Instituto de Biociências (IB) -, participaram dessa conquista. Por isso, foram homenageados pela Reitoria recebendo, em sessão do Conselho Universitário (CO) em abril último, um diploma de honra ao mérito e o reconhecimento da comunidade acadêmica. "Foi gratificante. Não é sempre que a ciência é publicamente reconhecida", disse a solenidade, um dos premiados, o bioquíus Aparecido Ferro, coordenador de um dos laboratórios da FCAV que integraram o programa. Essa conquista científica, obtida no projeto Xylella fastidiosa, financiado pela Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (Fapesp), deve-se ao esforço de 192 pesquisadores de 35 laboratórios de todo o Estado. Consumiu US$ 15 milhões e vem recebendo homenagens desde fevereiro último, quando os cientistas e institutos de pesquisa envolvidos receberam medalhas e o diploma Mérito Científico e Tecnológico das mãos do governador Mário Covas, na Sala São Paulo do Complexo Cultural Júlio Prestes, na Capital. "Foi uma homenagem inesquecível para os pesquisadores, a maioria deles bastante jovem", apontou a fitopatologista sanitária Eiko Eurya Kuramae Izioka, coordenadora do laboratório de seqüenciamento da FCA. Trabalho conjunto - Ainda em fevereiro, os pesquisadores foram recebidos pelo presidente da República, Fernando Henrique Cardoso, no Palácio do Planalto, em Brasília. "Esses seguidos reconhecimentos públicos por um trabalho científico são inéditos, em termos de Brasil, e mostram a importância do esforço realizado", salientou, na cerimônia de entrega dos diplomas pela UNESP, o vice-reitor da Universidade, Luis Roberto de Toledo Ramalho. Diretor presidente do Conselho Técnico Administrativo da Fapesp, Francisco Romeu Landi, presente à sessão do CO, ressaltou que o projeto reuniu pesquisadores de diversas instituições paulistas. "Nestes dois anos de pesquisa, o Brasil mostrou a todo o mundo a competência de agregar capacidades. Soubemos, portanto, combater a tendência isolacionista que corrói as universidades, provando que é possível trabalhar em conjunto, com eficiência", afirmou. O médico Paulo Eduardo de Abreu Machado, vice-presidente do Conselho Superior da Fapesp e diretor da Faculdade de Medicina da UNESP, câmpus de Botucatu, lembrou ainda que o programa Xylella fastidiosa mostrou que um grupo académico de grande porte, distribuído por todo o Estado de São Paulo, pode obter resultados extremamente rápidos. "Não é preciso ser lento para ser reflexivo", concluiu. GANHOU-SE UMA BATALHA, NÃO A GUERRA Concluído o seqüenciamento da Xylella, falta agora debelar o mal. Ao anunciar oficialmente o fechamento do seqüenciamento do Genoma da Xylella fastidiosa, em janeiro ultimo, em San Diego. Califórnia, o Brasil passou a ser o primeiro País do mundo a concluir o genoma de um filopatógeno. "Isso não significa, no entanto, que já temos a cura para a praga do amarelinho, doença causada pela bactéria", explica o diretor científico da Fundação de Amparo à Pesquisa do listado de São Paulo (Fapesp). José Tornando Perez. "Terminar o genoma é um passo importante para encontrar uma alternativa de combate, mas nunca houve o compromisso da Fapesp de resolver o problema. Os conhecimentos da biogenética. no entanto, devem abreviar o entendimento da doença." Justamente para encontrar dados e idéias novas para resolver o problema do amarelinho, foi proposto o projeto Genoma funcional, lançado em outubro de 1998. ele desafia os pesquisadores a trabalhar com novas hipóteses sobre a praga. "Isso ocorre a partir do seqüeciamento dos genes da identificados pelos laboratórios da rede Onsa Perez. Controle efetivo - Hoje. 21 projetos de pesquisa estão sendo desenvolvidos no âmbito do Genoma funcional da Xylella. Espera-se que eles possam oferecer um caminho efetivo de controle do amarelinho dentro de alguns anos. A única pesquisadora da UNESP que participa deste (Gnoma é a bioquímica Eliana lemos, do Departamento de Tecnologia da Faculdade de Ciências Agrárias e Veterinárias (FCAV) da UNESP, câmpus de Jaboticabal. "Meu trabalho tem como objetivo elaborar uma forma de cultura que permita o crescimento da Xylella fastidiosa. Isso permitirá um melhor conhecimento de suas características", afirma. Outro desenvolvimento possível para o projeto Xylella fastidiosa é o interesse do Departamento de Agricultura dos EUA pelo seqüenciamento do mapa genético de uma linhagem da Xylella que está atacando uvas na Califórnia. "Eles estão preocupados com o crescimento da praga e buscaram a nossa ajuda, o que prova que estamos no caminho certo rumo a uma especialização em fitopatógenos", conclui Perez. FRUTOS PEQUENOS E DUROS A bactéria Xylella fastidiosa causa a clorose variegada dos citros (CVC), que se manifesta pela obstrução do xilema, conjunto de vasos responsáveis pela distribuição de água e nutrientes pela planta, que passa a apresentar deficiência nutricional, observável pelas pequenas manchas amarelas nas folhas daí o nome de "amarelinho" que a doença comumente recebe. "Os frutos, em conseqüência, ficam pequenos e duros, pois são privados do alimento pelos vasos entupidos", comenta Eliana Lemos, da FCAV. A PRAGA DA VEZ A bactéria, causadora do cancro cítrico, está na mira dos cientistas Ornais recente programa da Fapesp, lançado em junho de 1999. tem como ponto de partida as pesquisas com a Xylella. Trata-se do Genoma Xanthonomas, que objetiva o seqüenciamento da bactéria causadora do cancro cítrico, praga que, assim como o amarelinho causado pela Xylella, ataca os laranjais paulistas e causa anualmente prejuízos da ordem de R$ 500 milhões no Estado. Só em 1999, foram 299.856 plantas contaminadas em 4.180 focos (1.640 novos e 540 recontaminações) em 132 municípios. "Conhecer a seqüência completa dessa bactéria será de grande importância para a economia interna brasileira e para os estudos da imeração entre plantas e patógenos", afirma o bioquímico Jesus Aparecido ferro coordenador de um dos três laboratórios do projeto, responsáveis pela coordenação, geração de dados e mapeamento de genes, o de Bioquímica e Biologia Molecular da Faculdade de Ciências Agrárias e Veterinárias (FCAV) do câmpus de Jaboticabal. ( A UNESP conta ainda com três laboratórios de seqüenciamento, dois em Araraquara - na Faculdade de Ciências Farmacêuticas (FCF) e no Instituto de Química (IQ) - e um em Jabotirabal, na FCAV. "A escolha de grupos da UNESP para participar de um programa de tão alto nível evidencia a confiança da Fapesp nossos professores e laboratórios", avalia Ferro. Armas químicas - Com US$ 5 milhões da Fapesp e mais de US$ 500 mil do Fundo Paulista de Defesa da Citricultura (Fundecitrus), o projeto pode ajudar a desenvolver armas químicas de precisão contra o cancro cítrico. O Xanthonomas axonopodis citri tem 5 milhões de pares de bases, ou seja. o dobro da Xylella fastidiosa. Eles precisam ser lidos e postos na ordem certa num prazo de dois anos. "Em todos esses programas. a UNESP se beneficia pela captação de recursos, com a conseqüente melhoria dos laboratórios envolvidos", diz a bióloga Regina Cicarelli, que coordena o laboratório da FCF que participa do projeto. "O desafio é completara seqüência de um genoma maior em um tempo menor", completa a bioquímica Eliana Lemos, coordenadora do laboratório de seqüenciamento da FCAV. Além dos três laboratórios centrais, há 11 outros, de seqüenciamento. "Acredito que. até o final de ano. ou mesmo antes, completaremos o seqüenciamento do Xanthonomas. Toda a experiência acumulada no trabalho com a Xylella está sendo utilizada pelos coordenadores na condução do projeto Xanthonomas", diz a química Maria Célia Bertolini, coordenadora de um grupo de Seqüenciamento no Instituto de Química da UNESP, câmpus de Araraquara. INIMIGO DURO NA QUEDA Contagiosa e resistente, ataca folhas, frutos e ramos O cancro cítrico é uma doença causada pela bactéria Xanthonomas axonopodis citri, que provoca lesões nas folhas, frutos e ramos das laranjeiras e, conseqüentemente, a queda da produção. A bactéria é de fácil disseminação. Altamente contagiosa e resistente, consegue sobreviver quando encontra condições favoráveis, como chuva, calor e brotações novas. Uma lesão pode ter até um milhão de bactérias, e cada uma delas pode dar origem a mais um milhão de organismos - e assim por diante. Os sintomas aparecem nas folhas, na forma de lesões salientes nos dois lados. Em ramos e frutos, surgem crostas pardas. "O seqüenciamento do genoma abrirá caminhos importantes para o conhecimento da maquinaria protéica da bactéria e controle de seu desenvolvimento", diz Regina Maria Barreto Cicarelli, da FCF, câmpus de Araraquara. "Com o avanço tecnológico obtido nessa e noutras pesquisas, a ciência brasileira fica em condições de igualdade em relação as nações mais desenvolvidas." HISTÓRIAS ANIMADORAS Universidade chama a atenção do mundo Um dos preceitos da filosofia da Ciência, segundo o qual no mundo científico o habitual é o fracasso, está sendo quebrado de modo notável no Projeto Genoma Gina-de-Açucar, em vez de desolação, acumulam-se descobertas e historias animadoras nos laboratórios da UNESP dos câmpus de Botucatu, Jaboticabal e Rio Claro, que participam do projeto de seqüenciamento do genoma da cana-de-açúcar, uma das principais culturas agrícolas do Estado. que responde por 60".. da produção nacional, que já é a maior do mundo. A agroindústria canavieira em São Paulo movimenta US$ 8 bilhões por ano e mantém 600 mil empregos diretos. "A UNESP tem se destacado na análise e nas descobertas de genes de patogenicidade na defesa da cana", comentou Eiko Eurya Kuramae, da faculdade de Ciências Agronômicas da UNKSP, no campus de Botucatu. no inicio de maio. pouco antes de embarcar para um congresso internacional Austrália, onde iria relatar suas descobertas. Sua equipe, dedicada ao chamado data minig, encontrou quase 200 genes responsáveis pela resistência a doenças ou pela detesa da planta contra patogenos. Essas descobertas são "importantíssimas", segundo Eiko. "Somente nós. brasileiros, temos esses genes de cana seqüenciados e há um interesse enorme da comunidade internacional em adquirir esses dados", diz. Não se trata de impressão fortuita. A pesquisadora havia acabado de chegar de um seminário Brasil-Cuba, onde os cubanos evidenciaram o interesse pelos achados da UNESP. Porte inédito - Os resultados se anteciparam, 10 próprio cronograma do projeto lançado em abril de 199 com financiamento da Fapesp e da Cooperativa dos Produtores de Açúcar e Álcool do Estado de São Paulo (Coopersucar). Inédito pelo porte reúne equipes de oito universidades e institutos de pesquisa paulistas. O objetivo: seqüênciar os genes da cana com maior interesse científico ou econômico - que, hoje se sabe, são cerca de 50 mil -. de modo que se possa ampliar o teor de açúcar, a resistência a doenças, enfim, a produtividade da planta. Mas as equipes se integraram de tal modo que será possível antecipar em pelo menos seis meses o prazo previsto e chegar a essa meta provavelmente até o final deste ano. Em conseqüência desse trabalho, a equipe de Eiko criou, na faculdade de Ciências Agronômicas, duas áreas: a de Biologia Molecular e outra, mundialmente recente, a de Fisiologia do Parasitismo. "Avançamos dez anos em apenas dois", diz ela. No Instituto de Biociências, também no câmpus de Botucatu. Celso Luís Marino, coordenador de um dos laboratórios de seqüenciamento, reconhece: "A grande descoberta foi a auto-estima do grupo, construída com a superação de nossas limitações". Um processo que, de resto, engrandeceu não apenas os estagiários, mas também os próprios coordenadores. Maurício Bacci Jr. responsável pelo laboratório de seqüenciamento do Instituto de Biocências em Rio Claro, também sente seu grupo mais confiante. Pode, igualmente, comemorar o fato de ter vencido "um desafio técnico e científico", como classifica o Genoma da Cana, com uma visão válida também para os outros projetos em andamento, Bacci Jr. teve de montar e treinar uma equipe para lidar com aparelhos e dominar técnicas de biologia molecular em poucos meses. "Constituímos hoje", diz ele, "um grupo preparado e motivado para executar uma serie de tarefas que não ousaríamos assumir há um ano." BOAS NOVAS VÊM AÍ Genoma Humano do Câncer tem feito avanços notáveis Reina a prudência nos laboratórios da UNESP que integram o Genoma Humano do Câncer nos câmpus de São José do Rio Preto, Botucatu, e Araraquara. Os pesquisadores trabalham intensamente na análise dos dados obtidos no primeiro ano de trabalho conjunto e ainda não se sentem a vontade para declarações clamorosas, mas sabem que têm novidades importantes nas mãos. "De modo geral, mais de 20" dos genes seqüenciados nunca foram relatados antes por outros grupos do mundo todo", comenta Maria Inês Moura Campos Pardini, da Faculdade de Medicina da UNESP, câmpus de Botucatu. Ferro, da Faculdade de Ciências Agrárias e Veterinárias do câmpus de Jaboticabal, conta que os projetos Genoma - ele participa também da Xylella e ao Xanthonomas - são os mais estressantes de seus 24 anos como pesquisador. Uma compensação: "São também os mais apaixonantes". confessa. "Nunca fizemos pesquisa assim antes, com troca de informações e ajuda mútua de forma tão aberta", relata Ferro. "Se quisermos sobressair, temos de trabalhar num ritmo forte, pois nossos concorrentes são grupos de peso no Exterior." Outra equipe com ares sobre-humanos, que aparentemente não precisa mais de descanso e avança pelas noites e finais de semana no laboratório, é a da professora "Podemos também ter um gene conhecido, cuja expressão é que seja a novidade, em um tecido ou em um momento fisiológico do tumor", diz. Por enquanto, o máximo que se pode saber com certeza é que ainda há muito trabalho pela frente. "Vimos que determinadas seqüências se expressam apenas em um tipo de tumor, mas somente a análise de outros tumores e de tecidos normais poderá auxiliar no entendimento desse fenômeno", diz Eloiza Tajara, do Instituto de Biociências. Letras e Ciências Exatas do câmpus de São José do Rio Preto. Desde já, porém, Eloiza tem algo a festejar: como o ritmo de trabalho foi excelente e a equipe atuou muito afinada, o laboratório de seqüenciamento que ela coordena deve terminar este mês a meta proposta para dois anos - uma folga de um ano, portanto. Trabalho extra - O ganho de tempo vem a calhar, porque haverá mesmo trabalho extra, em reconhecimento á competência adquirida. Articulado e financiado pela Fapesp, em conjunto com o Instituto Ludwing de Pesquisas sobre o Câncer, o projeto Genoma Humano do Câncer deverá ser ampliado e dobrar a meta inicial - de 500 mil para 1 milhão de seqüências de regiões importantes dos genes, a serem identificadas, de acordo com os novos planos, até o final deste ano. Jesus Aparecido Silvia Regina Rogatto, do Instituto de Biociências do câmpus de Botucatu. A empolgação se justifica, de certo modo, pelos achados científicos. Silvia, com seu grupo, descobriu que o cromossomo 22 contém regiões Genômica críticas em tumores de boca e de laringe (no Brasil, é alta a incidência dos tumores de cabeça e pescoço em geral). "Especificamente em tumores de laringe, sabemos que há relação com estágios mais avançados da doença", diz ela. Esse caminho pode levar a estratégias mais precisas de diagnóstico e tratamento. Ao resumir a emoção (e, eventualmente, o cansaço) dos pesquisadores envolvidos no Genoma do Câncer, a professora Maria Inês, de Botucatu. comenta: "Nunca imaginei que poderíamos produzir tanta coisa em tão pouco tempo". A motivação brota também da cresteme procura por estágios e treinamentos - às vezes maior do que a capacidade dos laboratórios - e do sucesso de critica e de público. "A população nunca esteve tão envolvida com a produção de conhecimento científico nessa área", observa Sandro Roberto Valentini, da Faculdade de Ciências Farmacêuticas da UNESP, câmpus de Jaboticabal. "As pessoas têm reconhecido e valorizado o desenvolvimento científico e tecnológico." ONSA DÁ O BOTE Instituto virtual coordena quatro projetos, ao custo de US$ 35 milhões Introduzido no Brasil, em outubro de 1997, para o seqüenciamento genético da Xylella fastidiosa, bactéria que causa a praga da dosore variegada dos citros (CVC), doença conhecida como amarelinho, que ataca 35°c dos laranjais paulistas, o Projeto Xylella custou cerca de US$ 15 milhões e inaugurou uma metodologia que revolucionou a pesquisa no país. "Não concentramos toda a verba em um local, mas identificamos laboratórios em várias partes do Estado, concedemos recursos e montamos uma rede virtual de pesquisa", diz Carlos Henrique de Brito, presidente do Conselho Superior da Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo, a Fapesp. O sucesso da pesquisa com a Xylella estimulou a Fapesp a novos projetos. Surgiu assim a Onsa (sigla em inglês para Organização para o Seqüenciamento e Análise de Nudeotídeos), que coordena hoje quatro Projetos Genoma, que representam investimentos globais de aproximadamente US$ 35 milhões, incluindo os aportes de R$ 35 milhões do Instituto Ludwing para o Genoma Humano do Câncer, cerca de US$ 1 milhão do Fundo Paulista de Defesa da Citricultura (Fundecitrus) para os dois Projetos Cenoma ligados à citricultura. Xylella e Xathonomas, e US$ 500 mil da Cooperativa dos Produtores de Açúcar e Álcool do Estado de São Paulo (Copersucar), em apoio ao Projeto Genoma da Cana-de-açúcar. Chega-se ao custo total de US$ 35 milhões com os investimentos no Projeto Genoma Funcional da Xylella "Fora do circuito EUA-Europa-Japão, somos os únicos que temos projetos semelhantes em andamento", diz Francisco Romeu Landi, diretor presidente do Conselho Técnico Administrativo da Fapesp. "O Onsa consolida-se assim como um instituto virtual, sem paredes, descentralizado e com uma infra-estrutura de pesquisa leve e flexível", define o diretor científico da entidade. José Fernando Perez. (Leia entrevista abaixo.) NA FRONTEIRA DO CONHECIMENTO Diretor científico da Fapesp, é Fernando Perez, 55 anos, é dos maiores entusiastas do Projeto Genoma. No cargo desde 1993, é bacharel e mestre em Física, doutor em Ciências Naturais pela Escola Politécnica de Zurique e livre-docente pelo Instituto de Física da USP, onde é professor titular do Departamento de Física Matemática. Jornal da UNESP - Os diversos Projetos Genoma são ^Pe uma marca registrada da Fapesp. Qual é a grande proposta do Programa Genoma como um todo? José Fernando Perez - O grande objetivo é formar cientistas qualificados em grande escala. 0 fato de um grande número de jovens pesquisadores estar participando dos diversos Cenomas é um dos indicadores de sucesso. 0 principal produto de nosso esforço é justamente ter gente treinada na área estratégica da moderna biotecnologia, em suas várias vertentes, como agricultura, pecuária, veterinária, saúde, meio ambiente e apropriação da biodiversidade nacional. JU - Como nasceu a idéia do primeiro Genoma? Perez - Ele tem uma data bem marcada para o seu inicio: dia 1º de maio de 1997. Antes dessa data, eu já estava cobrando de alguns pesquisadores da área, em particular Fernando Reinach, do Instituto de Química da USP, uma resposta á seguinte pergunta: o que podíamos fazer para dar um salto na moderna área da genética molecular. Estávamos, eu em Ubatuba, ele em Piracaia, descansando no feriado do Dia do Trabalho. Marcamos um encontro, no qual ele me falou pela primeira vez da possibilidade de fazer um Projeto Genoma no Brasil. A novidade era que o treinamento ocorreria durante o processo de execução, gerando competência em grande escala. JU - Nesse momento já se pensava no seqenciamento da Xylella fastidiosa? Perez - Ainda não. O objetivo maior era fazer ciência na fronteira do conhecimento e ao mesmo tempo, enfocar algum problema específico do país. Foi numa reunião com pesquisadores de biologia molecular que Marcos Machado, do Centro de Citricultura Sylvio Moreira, em Cordeirópolis. São Paulo, um especialista de doenças em cítricos, trouxe pela primeira vez a ideia da Xylella, que tinha um apelo muito grande pela sua importância socioeconômica. JU - Houve em algum momento receio de que o projeto não obtivesse sucesso? Perez - Estávamos seguros de que tínhamos uma grande oportunidade nas mãos. Era, porém, um projeto ousado e, como tal, envolvia risco. 0 que me dava segurança era a excelência dos pesquisadores nacionais envolvidos e a assessoria internacional, que acreditou desde o princípio na idéia. JU - Havia receio quanto à capacidade dos laboratórios de bioinformàtica no processamento de informações? Perez - A assessoria internacional, formada pelo belga André Coffeau, do Instituto Pasteur, e pelos ingleses Steve Olivier. da Universidade de Manchester, e john Sgouros, do Imperial Câncer Research Fund. em Londres, havia alertado que a área de bioinformática era um gargalo. Pensou-se até numa cooperação internacional, mas os pesquisadores João Meidanis e joão Setúbal, da Unicamp, realizaram um trabalho extraordinário e abriram espaço para novas lideranças, como a do grupo do professor Jesus Ferro, da Faculdade de Ciências Agrárias e Veterinárias da UNESP, câmpus de Jaboticabal, que emergiu como uma importante referência, tornando-se um centro de excelência nessa área da genômica. JU - Qual é o futuro da rede Onsa? Perez - Fazer o seqüenciamento da Xylella foi importante como passo inicial, mas, daqui a dez anos, é possível que fizer um genoma seja algo trivial. O mais importante não é mais gerar informação, mas transformá-la em conhecimento. Hoje, a rede Onsa gera, por dia, dados que correspondem à obra completa de Shakespeare. São muitos dados, que precisam gerar conhecimento. Há ainda genomas de bactérias, plantas, parasitas, animais e o próprio genoma humano a ser feito. A genômica integra conhecimentos dentro da própria biologia e desta ciência com outras. O mercado do futuro vai justamente precisar de gente com esse tipo de competência multidisciplinar. JU - Como o senhor avalia a participação da UNESP nos Projetos Genoma? Perez - A UNESP entrou forte no programa. Ao ser multicâmpus, reproduz, como um fractal, a estrutura virtual que caracteriza os Projetos Genoma. Os Projetos têm modelo compatível com a UNESP, pois. na era da internet, o modelo é o de funcionamento a distância. Desse modo, a biogenética oferece um espaço interessante para o crescimento de várias instituições, em particular para a UNESP que é jovem como a genômica. NO MAPA DA MELHOR CIÊNCIA Pesquisadores e instituições contabilizam ganhos auferidos com Projetos Genoma Foi uma façanha e tanto. O seqüenciamento do código genético da bactéria Xylella fastidiosa, o primeiro microorganismo fito patogênico no mundo a ter seu genoma decifrado, colocou a UNESP e a ciência brasileira no mapa internacional da pesquisa de ponta em biologia molecular. Esse feito já teve o reconhecimento das comunidades científicas nacional e internacional. Mas não é só o alarido das palmas que ganham os cientistas ao participar de um projeto de seqüenciamento genético, como o da Xylella. Eles podem contabilizar como lucros, sobretudo, a capacitarão técnica e científica que adquiriram, a formação de novos grupos de pesquisadores, a possibilidade de trabalhar em grupo e, no futuro, de prestar serviços à comunidade. Na avaliação da bióloga e biomédica Maria Inês de Moura Campos Pardini, do Hemocentro e do Departamento de Clínica Médica da Faculdade de Medicina, da UNESP, câmpus de Botucatu, o maior ganho ao longo dessa traje-tória foi a experiência adquirida em sua área de atuação. "A experiência que o Genoma do Câncer, projeto do qual participo, me trouxe, em alguns meses, com certeza eu demoraria anos para adquirir fora desse contexto" reconhece. "Outro aspecto positivo foi o de trabalhar numa rede ligada virtualmente, onde se esclarecem dúvidas num piscar de olhos." Para o farmacêutico-bioquimico Maurício Bacci Jr.. do Centro de Estudos de Insetos Sociais do Instituto de Biociências da UNESP. cãmpus de Rio Claro, o que deve ser destacado é a agilidade dos grupos. "Graças à implantação do Genoma em nosso laboratório, os grupos de trabalho tornaram-se capazes de enfrentar dificuldades e chegar rapidamente às soluções", diz Bacci Jr., que participa do projeto Genoma Cana-de-Açúcar. "A solução desses problemas acabou por habilitar nosso laboratório a conduzir outros projetos de pesquisa, utilizando as técnicas que aprimoramos." A participação nesses projetos pode também fazer com que o pesquisador dê passos adiante no que já vinha realizando. É o caso, por exemplo, do farmacêutico-bioquimico Sandro Roberto Valentini, do Departamento de Gências Biológicas da Faculdade de Ciências Farmacêuticas, da UNESP. câmpus de Araraquara. "O projeto Genoma Humano do Câncer, do qual participo, está permitindo uma expansão de minha experiência com essa doença, que comecei a pesquisar durante meu doutoramento", explica Valentini. Tecnologia de ponta - Se ganham os pesquisadores, igualmente é beneficiada a instituição a que pertencem. "Por meio desses projetos, entramos no campo da genômica, o que nos permitiu uma adequação técnica e laboratorial nessa tecnologia de ponta" comemora o biólogo Celso Luis Marino, do Departamento de Genética do Instituto de Biociências do câmpus de Botucatu, que participou do projeto Xylella. "Tudo isso está sendo incorporado em nossas pesquisas e transmitido aos nossos alunos." Além disso, lembra Bacci Jr., no futuro esta tecnologia poderá ser colocada ã disposição da comunidade onde a UNESP tem campus, por meio de prestação de serviços. Só para exemplificar, testes de exclusão de paternidade, na área criminal, ou até mesmo para determinar pedigree de cães ou autenticar raças seletas de cavalos, assim como testes de diagnóstico laboratorial na área de análises clínicas, são todos baseados na mesma técnica utilizada no Projeto Genoma, ou seja, o seqüenciamento. "É bem provável que, num futuro próximo, nossos laboratórios possam começar a prestar serviços nesta área", prevê Bacci Jr. O resultado da soma desses ganhos, individuais e institucionais, aponta para uma ciência brasileira que, pelo menos na área de biologia molecular, pode ombrear com a dos países mais desenvolvidos. "Em termos qualitativos, não ficamos nada a dever aos Estados Unidos. Japão ou França", garante a bióloga e biomédica Maria Inês. O farmacêutico-bioquimico Valentini segue o mesmo diapasão: "O projeto permitiu a criação de uma excelente infra-estrutura laboratorial, especializada no seqüenciamento de DNA", comemora. "Este investimento trará melhoria na qualidade do trabalho realizado na área de Bioquímica e Biologia Molecular em laboratórios brasileiros." Na lista dos aspectos positivos desses projetos pode-se acrescentar, ainda, o fato de pesquisadores brasileiros não precisarem mais sair do país para aprender novas técnicas. "De agora em diante, isso não será mais necessário", garante Bacci Jr. "Os jovens pesquisadores, em começo de carreira, podem adquirir esta formação aqui mesmo, num dos vários laboratórios que o programa Genoma-Fapesp criou." Com isso, mais e mais pessoas - estudantes de graduação, pós-graduação e colegas pesquisadores - estão se associando aos grupos e se beneficiando do trabalho desenvolvido. TODOS GANHAMOS Sociedade também é grande beneficiária Para o reitor Antonio Manoel dos Santos Silva, a participação nos Projetos Genoma, financiados pela Fapesp, colocou a UNESP no mapa internacional da pesquisa de ponta. "Já fazíamos pesquisas de ponta, mas participar desses programas, junto com outras instituições de peso, foi muito bom em termos de prestígio", diz. "No caso do seqüenciamento da Xylella, nossos pesquisadores ganharam ao acumular conhecimento e dominar novas tecnologias." Antonio Manoel também coloca no rol dos que ganharam com os projetos a ciência brasileira e a sociedade como um todo. "A ciência, porque se colocou ao lado do que melhor se faz em biotecnologia, no mundo", explica. "E a sociedade porque, no caso da Xylella, por exemplo, poderá surgir uma nova forma de controle do amarelinho, beneficiando milhares de famílias no Estado de São Paulo que vivem da cultura da laranja." pró-reitor de pós-graduação e Pesquisa. Mendes Pereira, por sua vez, acredita que a capacitação técnica e científica dos pesquisadores que participaram dos Projetos Genoma foi o grande retorno que a UNESP obteve. "Essa capacitação está se estendendo para alunos de iniciação científica, pós-graduação e pós-doutorado. "Além disso, há o treinamento de novos grupos de pesquisadores", acrescenta Pereira. O avanço no sistema de informática da UNESP foi outro ponto positivo da participação nos Programas Genoma citado pelo pró-reitor. "Como o trabalho se baseava na troca de informações pela internet, isso de certa forma nos forçou a melhorar a nossa rede de informação", diz. Mas, para Pereira, o grande ganho ainda está por vir. "Todo o conhecimento básico adquirido poderá trazer soluções para problemas futuros, sobretudo na área da biotecnologia molecular", prevê. Hera inestimável Sem exageros, pode-se dizer que a Genética na UNESP nasceu pronta. Ao ser implantada, em 1976, a partir dos institutos isolados de ensino superior, a UNESP herdou um grupo de pesquisadores e vários laboratórios já em funcionamento, com trabalhos de ponta, que se equiparavam aos produzidos na Europa ou nos Estados Unidos. Uma das razões para a competência que se consolidava é que as lideranças - muitas delas vindas de outras universidades e instituições de pesquisa - não perdiam o contato com outros laboratórios e com o Exterior. Viajavam sempre que possível, mantinham-se atualizadas e esperavam dos auxiliares que, igualmente, se mantivessem a par das pesquisas e das metodologias mais recentes do mundo. Um hábito que, lembre-se, perdura ainda hoje. Para entender melhor a gênese desse processo, é preciso que se volte um pouco no tempo - para o início dos anos 60 - e se desloque outro tanto no espaço - para Botucatu, onde vamos encontrar George O'Neill Addison, que integrava o grupo de geneticistas que veio implantar essa área na então Faculdade de Ciências Médicas e Biológicas de Botucatu (FCMBB). Catarinense, especialista em melhoramento genético animal, Addison havia ensinado no Instituto Agronômico do Norte, em Belém, na Universidade Rural do Rio de Janeiro e na Universidade da Carolina do Norte, nos Estados Unidos, antes de ser convidado para ser o primeiro professor de genética contratado pela FCMBB - depois desmembrada em quatro unidades universitárias da UNESP. Pouco depois de Addison, a Universidade ganha a adesão de Ademar Freire-Maia, que acabara de dirigir, para a Comissão Nacional de Energia Nuclear, amplo projeto de pesquisas genéticas e epidemiológicas sobre mortalidade e morbidade em populações humanas residentes em regiões com altos níveis de radiatividade natural. Freire-Maia foi o primeiro professor de Genética Humana da UNESP e o primeiro chefe do Departamento de Genética da então FCMBB, hoje agregado ao Instituto de Biociências do câmpus de Botucatu. Pioneiros e pioneiras - Na então Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras de São José do Rio Preto, hoje Instituto de Biociências, Letras e Ciências Exatas, não se deve esquecer, entre os pioneiros, de Celso Abade Mourão e, algum tempo depois, de Aluísio José Gallo e de Hermione Ely Melara de Campos Bicudo, que iniciaram a genética da drosófila. O câmpus de Rio Preto registra também a participação de uma das primeiras mulheres desta história, Marileila Varella Garcia, pioneira em genética humana. Esse roteiro ficaria incompleto não fossem incluídos três outros mestres, Antonio Quelce Salgado, Nilda Martello e Sanae Kasahara, que passaram pela atual Faculdade de Filosofia e Ciências do câmpus de Marília. Ainda nos anos 60, nascia um núcleo de genética em Rio Claro, no atual Instituto de Biociências, na época instalado no Horto Florestal. Warwick Estevam-Kerr, consagrado pelo estudo da genética das abelhas, egresso da USP. trabalhou intensamente ali com Antonio Buschinelli, especialista em genética de aves, e com Alcides Serzedello, consolidando o núcleo. Por lá, mais recentemente, ganharam a cena pesquisadores como Antonio Carlos e Neysa Silva Stort, Amilton Ferreira e Carminda da Cruz Landim, também entregues ao desenvolvimento da ciência de ponta e à formação de novas gerações de cientistas. Jaboticabal também tem o que contar - e como. Ali, Alfredo Lam Sanches, Marcos Antonio Gianonni e juan Ayala Osuna, entre outros, formaram o núcleo inicial de geneticistas, no final da década de 60 e meados dos anos 70, na então Faculdade de Medicina Veterinária e Agronomia Professor Antonio Ruete. A preocupação em fazer ciência de primeira qualidade se manteve ao longo do tempo. Não é de espantar, portanto, que na Faculdade de Ciências Agrárias e Veterinárias trabalhe atualmente um grupo expressivo de pesquisadores envolvidos simultaneamente nos quatro Projetos Genoma da Fapesp (Cana-de-açúcar, Xanthonomas, Xylella e Câncer), sob a liderança de Jesus Aparecido Ferro e Eliana de Machado Lemos (leia reportagem às págs. 4e5) Anos de consolidação - Quando os laboratórios dos institutos isolados integraram-se à nascente UNESP, os pesquisadores buscaram uma titulação mais adequada às novas funções. Fizeram pós-graduação, em seguida pós-doutorado e tornaram-se professores titulares. Uma das testemunhas dessa passagem, o geneticista Edmundo José De Lucca, pró-reitor de Extensão Universitária, que este ano completa três décadas de carreira na UNESP, desde que ingressou na graduação, lembra-se que a etapa seguinte, os anos 80, marcou a consolidação dos grupos de pesquisa. Se antes havia apenas laboratórios isolados, assentaram-se enfim os departamentos de genética, antes raros, e os próprios laboratórios ganharam espaços adequados. De Lucca assinala outro marco: em 1983 começaram a funcionar os dois primeiros cursos de pós-graduação em Genética na UNESP, no Instituto de Biociências do câmpus de Botucatu e no Instituto de Biociências, Letras e Ciências Exatas do câmpus de São José do Rio Preto. Esse conhecimento acumulado em genética criou ambiente favorável ao desenvolvimento da genômica. a ciência do seqenciamento de genomas que germinou no Brasil em 1997, a partir do Projeto Genoma Xylella. Bem mais complexa do que a genética, a genômica exige uma visão de conjunto e um forte respaldo da matemática e da informática, antes não tão requisitadas. Os especialistas que viveram essa transição reconhecem: foi um salto considerável. A UNESP conta hoje com grupos de genética amadurecidos, requisitados para apresentação em congressos científicos internacionais, nos câmpus de Botucatu, Jaboticabal, Rio Claro e São José do Rio Preto, que participam dos Projetos Genoma. E mesmo as unidades mais recentes demonstram competência insuspeita: o câmpus de Bauru, por exemplo, tem uma equipe que se destaca em genética humana de malformações, enquanto o de Assis avança na genética molecular de aves. Quem circula pelos laboratórios da UNESP ligados aos Projetos Genoma nota que pesquisadores maduros trocam idéias com estagiários. Vivem os mesmos problemas e aprendem juntos. Impera a informalidade, mas não se perdeu o apego à história. Ainda há lições notáveis, frequentemente relembradas e reavaliadas, como um episódio vivido no final dos anos 60, em Botucatu. Ali, Ademar Freire-Maia e George Addison ensinavam junta a disciplina de Genética. No final do curso havia uma prova oral. Os alunos eram examinados pelos dois professores e a nota¨, dividida por dois. Freire-Maia notou que havia uma grande disparidade entre as notas dadas por ele e pelo outro professor. "Não entendo", disse. "Eu faço perguntas difíceis e os alunos vão bem. Como é que podem ir mal com você?" Freire-Maia lembra-se ainda hoje que a resposta de Addison veio fulminante: "É que eu faço as perguntas mais elementares..." Carlos Fioravanti