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CNPq - Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico

A saliva do carrapato tem a capacidade de matar células tumorais

Publicado em 07 julho 2011

Quem poderia imaginar que um parasita, que transmite febre maculosa, pode ter em sua saliva uma substância, que além da propriedade anticoagulante, possui propriedades antitumorais. Pois acredite, pesquisadores do Instituto Butantan, em São Paulo, vem estudando moléculas existentes na glândula salivar do carrapato-estrela (Amblyomma cajennense ), que mantém o sangue incoagulável mas também tem propriedades tóxicas para células tumorais.

A pesquisa, coordenada pela farmacêutica e bolsista do CNPq, Ana Marisa Chudzinski-Tavassi, teve início em 2003, tendo o objetivo mapear o mecanismo pelo qual este carrapato mantinha o sangue fluido para sua alimentação. "Buscávamos novos agentes terapêuticos para inibir a coagulação sanguínea, daí decidimos estudar a saliva do carrapato, que por ser hematófago, certamente teria componentes eficientes para manter o sangue fluido durante a sua alimentação e consequentemente estas substâncias poderiam ser almejadas como novos agentes anticoagulantes", explica a pesquisadora.

A equipe construiu uma biblioteca de cDNA, a partir das glândulas salivares do carrapato, para estudar os genes mais expressos e assim, pesquisar a presença de sequências de genes que pudessem ter similaridade com anticoagulantes conhecidos. "Comparamos essa sequência aos anticoagulantes descritos na literatura, bem como aos fisiológicos como TFPI, presente no sangue humana, e assim, elegemos um clone para expressar uma proteína recombinante no laboratório. A proteína obtida se mostrou ativa na coagulação e, a partir desse resultado outros projetos se iniciaram, uma vez que, além de anticoagulante, verificou-se que a proteína, denominado, Amblyomin-X., tinha capacidade também de matar células tumorais", diz a coordenadora.

Segundo a pesquisadora, o grupo avaliou a atividade desta molécula em culturas de células de tumores que sabidamente são capazes de promover estados de hipercoagulabilidade nos pacientes, e foi verificado que a proteína exercia atividade citotóxica para estas células, diferentemente do que ocorria com células normais.

"Realizamos experimentos in vivo , inicialmente em modelos de tumor de melanoma (hoje de pâncreas e renal) e verificamos que o Amblyomin-X demonstrou promover regressão da massa tumoral e redução de metástases. Experimentos in vitro mostraram que o Amblyomin-X afeta somente as células tumorais."Nos experimentos em camundongos, observamos que, após 42 dias de tratamento, os tumores dos animais desapareceram. Os animais tratados ficaram em observação por vários meses e permaneceram curados, o que comprova que as células normais foram preservadas", acrescenta.

Devido ao grande potencial terapêutico desta molécula, foi depositada uma patente no Instituto Nacional da Propriedade Industrial (INPI) sendo licenciada para a empresa União Química Farmacêutica Nacional. Este depósito também está protegido pelo PCT (Patent Cooperation Treaty). Apesar dos ótimos resultados, a pesquisadora enfatiza a necessidade de percorrer um longo caminho até que seja comprovada a eficácia da substância para o tratamento de doenças humana.

"Evidentemente que para transformar a molécula em um agente terapêutico fazem-se necessárias várias etapas de desenvolvimento. Assim, investimos em processos de produção que possam ser escalonáveis, através de protocolos rastreáveis e reprodutíveis. Hoje somos capazes de produzir ate 10 litros da proteína, em leveduras ou bactérias", ressalta. Contando com o apoio da empresa sócia da patente (União Química), a pesquisadora afirma, que um lote maior de proteína será produzido brevemente, em concentração suficiente para se iniciar os testes pré-clínicos (de eficácia e segurança farmacológica).

Os vários financiamentos já obtidos (FAPESP/CAT-CEPID, CNPq, FINEP, INCT TOX), para este projeto permitiram a equipe avançar nos estudos descritos bem como na instalação do Laboratório de Inovação e Desenvolvimento, que deverá estar em funcionamento nos próximos meses. "Esta nova plataforma vai nos permitir realizar algumas fases do desenvolvimento dentro dos padrões sugeridos por órgãos regulatórios nacional e internacional", finaliza.

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