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Dinheiro Rural

A revolução vem da natureza

Publicado em 01 setembro 2020

Por Lana Pinheiro

Em um tempo marcado por polaridades e intransigências de diversos grupos e linhas de pensamento, os agricultores brasileiros dão mais um exemplo ao País. Ao quebrar o paradigma da supremacia do uso de agentes químicos para buscar o uso em equilíbrio com os bioinsumos, o campo mostra que novas maneiras de pensar trazem ganhos para todos e em diversos aspectos. Nesse caso, de um lado ganham consumidores, produtores, indústria e meio ambiente. No outro, o bolso do produtor, os negócios e a economia brasileira. Dados da consultoria americana Dunhan Trimmer indicam que o mercado mundial de bioagentes movimentará mais de US$ 5 bilhões neste ano. Desse total, US$ 800 milhões estão na América Latina. O Brasil, não pese o fato de ser líder mundial em controle biológico com mais de 23 milhões de hectares tratados, deve alcançar R$ 675 milhões neste ano segundo o Ministério da Agricultura e Pecuária (MAPA). “O Brasil e o mundo começam a entender o potencial que os biológicos têm de produzir uma agricultura mais sustentável com menos externalidades negativas causadas pelo modo como a agricultura se desenvolveu nos últimos 70 anos”, disse Luiz Demattê, diretor da Korin Agricultura e Meio Ambiente.

Com crescimento de 530% nos últimos dez anos e faturamento de R$ 70 milhões por ano, a Korin Agropecuária, uma das quatro empresas do grupo, iniciou suas atividades produzindo proteína animal sem antibióticos e o bokashi — substrato orgânico voltado para o condicionamento dos solos. Com o decorrer do tempo, as duas linhas de negócio precisaram ser separadas devido à dimensão que cada uma delas ganhou. Assim, a produção do insumo biológico passou ao portfólio da atual Korin Agricultura Meio Ambiente que cresce 100% ao ano desde 2017.

O caso de sucesso da Korin não é isolado. Ao contrário. O mercado brasileiro de biológicos no Brasil evolui 15% ao ano, enquanto a taxa mundial está em 9%. Só no ano passado, o Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento (MAPA), registrou 309 novos biológicos no País. Em 2015, foram 107 e em 2005, quase nenhum. Nos primeiros cinco meses deste ano, os novos registros chegaram a 265. Diante do crescimento da atividade, o Governo Federal anunciou a criação do Programa Nacional de Bioinsumos e a inédita possibilidade do uso de recursos do Plano Safra para financiamento da bioeconomia. “O Programa Nacional de Bioinsumos foi uma necessidade natural de um mercado já desenvolvido e que demandava mais transparência e necessidade de regulamentação mais específica e estruturada”, disse Fernando Camargo, secretário de Inovação do MAPA.

O programa deverá ser implantado em etapas e está estruturado em sete eixos temáticos: produtos fitossanitários para controle de pragas e doenças de plantas; biofertilizantes; nutrição de plantas e tolerância a condições ambientais adversas; produtos veterinários e para alimentação animal; pós-colheita; produção aquícola; e, processamento de origem animal e vegetal. Outro objetivo é criar ambiente favorável para inovação e financiamento de infraestrutura e de custeio. Apesar do estipulado no programa, o orçamento de US$ 100 milhões que o MAPA possui para pesquisas sobre o tema está paralisado para a revisão das taxas de juros cobradas devido às sucessivas reduções da Selic. Já as linhas do Inovagro e Prodecoop podem ser 100% utilizadas para o fim.

PESQUISA

Ainda que algumas dificuldades apareçam no meio do caminho, um dos principais focos de pesquisa da Embrapa hoje são os biológicos. “Temos mais de 150 ativos que estão em estágio final de pesquisas, prontos para serem transformados em produtos”, afirmou o pesquisador da instituição Ivan Cruz. Para conseguir mapear novos macro e microorganismos e atender a demanda das empresas na elaboração de produtos acabados, a Embrapa possui mais de 400 pesquisadores e 28 de suas 42 unidades dedicados ao assunto.

Atualmente, os bioinsumos são classificados em macrobiológicos, como besouros e joaninhas; microbiológicos, como vírus, bactérias e fungos patogênicos; semiquímicos, feromônios que insetos e outros animais usam para demarcar território e atrair parceiros; e bioquímicos, outras substâncias de origem animal ou vegetal. Mesmo sendo elementos naturais, o uso adequado requer estudo. É o caso inclusive da joaninha, um dos biodefensivos mais eficientes contra os pulgões. “Precisamos saber como criar os animais em laboratório, quanto eles comem e qual o ciclo de vida para saber a quantidade certa a ser usada pelo agricultor. Mesmo o bioinsumo não pode ser usado em excesso”, afirmou Cruz.

Dentre as vantagens do uso dos biológicos, estão mais do que o posicionamento do ecologicamente correto. “Esta transição da produção agrícola é motivada pela pressão do consumidor que quer alimentos mais saudáveis, pelas questões ambientais e, principalmente, pelo custo”, afirmou Eduardo Martins, membro do Grupo de Associados da Agricultura Sustentável (GAAS). Com a integração dos bioquímicos, o custo do produtor pode cair de 30% a 40%. “Hoje 60% do meu custo é com insumo. Os biológicos saem até 50% mais baratos, com resultados melhores”, disse Álvaro Amgarter, produtor de cana-de-açúcar e soja tratadas com 50% químicos e 50% biológicos. Há quatro anos, ele usa biológicos, há dois usa a proteína Harpin, importada no Brasil pela Planet Health Care. “Minha produtividade subiu de 75 toneladas por hectare para 97 toneladas por hectare”, disse.

Para Rodrigo de Miranda, diretor da Planet Health Care, não há meios de grandes culturas excluírem os químicos. “O equilíbrio entre as duas frentes possibilitará maior produtividade, com equilíbrio ecológico”, disse ao citar aumento de 20% a 35% na produção de cana-de-açúcar tratada com proteína orgânica, 15% a 20% no café e de 15% a 30% na soja. “Tive um aumento de 30% na produtividade de soja, chegando a 90 sacas por hectare”, disse o produtor Rodrigo Moreli que já havia usado insumos orgânicos no passado sem sucesso e que agora voltou a fazer testes. A cultura de soja brasileira soma mais de 35 milhões de hectares tratados com bioinsumo, mercado que deve alcançar US$ 200 milhões este ano, 30% mais do que na safra passada.

IN FARM

Uma das preocupações que afligem o setor é o fato da atual legislação permitir ao agricultor criarem defensivos biológicos na propriedade se forem para uso próprio. A produção in farm, porém, ainda é feita de bastante irregular e amadora. “A criação do Programa Nacional de Bioinsumos foi um importante passo para regulamentar a produção dos bioinsumos não só pelas fábricas, mas também pelo próprio agricultor”, disse Gustavo Hermann, diretor da Koppert Biological Systems. Recentemente a empresa inaugurou o primeiro centro de pesquisas em controle biológico do País, o SPARCBio (São Paulo Advanced Research Center for Biological Control), em parceria com a Esalq/USP e Fapesp, com investimento conjunto de R$ 40 milhões.

Há ainda muito espaço para novos investimentos, uma vez que o mercado é amplo o suficiente para acomodar vários players. Somente, o mercado de defensivos químicos no Brasil é da ordem de US$ 11 bilhões, os biológicos participam somente com US$ 172 milhões. Em países desenvolvidos, a participação chega a 15%. “O mercado brasileiro pode crescer 10 vezes sem barreiras”, afirma Luciano de Gissi, diretor da Kimberlit que há oito anos iniciou o planejamento da fábrica de bioinsumos lançada no ano passado. Chamada Bionat, a unidade consumiu investimento de R$ 10 milhões para a produção de R$ 20 milhões em bioinsumos. A fase de expansão já está em andamento com recursos na ordem de R$ 26 milhões para aumentar a capacidade a R$ 150 milhões até 2026. “Para produzir bioinsumos usamos um laboratório que parece uma UTI com rigorosa assepsia e padrões de controle, enquanto tem algumas pessoas usando caixa d’água e pá”, afirmou. O desenvolvimento de cada controle biológico consome cerca de cinco anos desde pesquisa até o lançamento ao mercado, além de investimentos entre R$ 2 milhões a R$ 3 milhões.

Na cultura de cana-de-açúcar, a Tereos, com faturamento anual de cerca de R$ 3 bilhões, também viu na bioeconomia uma maneira de aumentar a produtividade e reduzir custo. Com 24 mil m², sua recém-inaugurada biofábrica de mudas pré-brotadas tem como objetivo acelerar a produção de variedades de alta qualidade fitossanitária e genética. A empresa também produz bioinsumos para repor, por exemplo, potássio e fósforo no solo. Para dar tração ao uso da vinhaça como insumo foram investidos entre R$ 30 milhões e R$ 40 milhões nos últimos cinco anos. “Meu maior custo operacional era com insumos, sobretudo fertilizantes. Hoje produzo tudo o que consumo por aqui, gerando economia e equilíbrio do solo”, afirmou José Olavo, gerente executivo de Desenvolvimento de Tecnologias Agrícolas da Tereos. Na década de 1980, os bioinsumos cobriam 25% da lavoura, hoje os 160 mil hectares de cana estão cobertos, com o adicional da redução da quantidade usada. “No começo usávamos o caminhão para cobrir todo o solo com a vinhaça. Com o aprimoramento da técnica passamos usar um quarto da quantidade inicial ao aplicar o insumo somente nas linhas das plantas”, disse Olavo.

PROTAGONISMO

Bioinsumos não são novidades no Brasil. Foi ainda na década de 1970 que as bactérias para a fixação de nitrogênio foram introduzidas no campo gerando economia estimada em US$ 13 bilhões com adubos nitrogenados desde então. Hoje são mais de 40 milhões de hectares tratados com fixadores de nitrogênio biológicos. Desta vez, no entanto, há um movimento mais estruturado puxado pelo consumidor, mercados externos e por grandes financiadores que passaram a enxergar no cuidado ambiental um importante aspecto de gestão de risco. Considerado um país megadiverso, com cerca de 20% de participação na biodiversidade mundial, o Brasil tem as condições naturais para ser uma potência na produção de biológicos. A questão que se coloca agora é se o País enxergará os biomas nacionais como fonte de renda pelo bem do Planeta ou se deixará o fogo e o desmatamento irresponsável prevalecerem.

Bioinsumos na palma da mão

Dentre as ações de fomento ao desenvolvimento do mercado de biológicos, o MAPA em parceria com a Embrapa lançou o aplicativo Bioinsumos. Nele, o produtor tem acesso a um catálogo com 580 produtos biológicos disponíveis no País para ampliar a absorção de nutrientes e combater mais de 100 pragas e plantas invasoras. Do total, 265 são defensivos. Os outros 315 são inoculantes.

Os bioinsumos abrangem sementes, fertilizantes, produtos para nutrição vegetal e animal, defensivos biológicos feitos a partir de microrganismos para controle de pragas, produtos fitoterápicos ou tecnologias que têm ativos biológicos na composição. Já os inoculantes são produtos, processos ou tecnologias que contêm microrganismos aplicados para estimular o desenvolvimento das plantas.

A hora do Biogás

O potencial da bioeconomia na agricultura brasileira, estende-se também para o pós-colheita. Além da possibilidade dos rejeitos voltarem para a terra como bioinsumos, podem ser transformados em eletricidade ou biogás. A depender do modelo usado, o investimento pode ser alto ou nulo, mas em qualquer caso reduzem os passivos ambientais e podem gerar economia ou renda com a produção de combustível.

Atualmente o País tem cerca de R$ 700 milhões aplicados em projetos de biogás de alta eficiência em andamento, segundo dados da Associação Brasileira do Biogás (Abiogás). A estrutura instalada gera 200 megawatts de energia, o que corresponde a 1% do potencial brasileiro. Até 2030, a estimativa da associação é chegar a 30 milhões de m³ de metano por dia, 30 vezes mais do que a produção atual. “Mesmo com o crescimento exponencial, o volume representaria 40% do potencial brasileiro”, afirmou Alessandro Gardemann, presidente da Abiogás.

Uma das principais vantagens do biogás é que ele é descentralizado, o que significa dizer que pode ser produzido perto do local de consumo ou até mesmo dentro da propriedade. “O Brasil tem vocação para o agro e naturalmente para o biogás. Na medida em que o campo cresce, a capacidade de produção de energia elétrica e de biometano também evolui”, disse Daniel Rossi, CEO da ZEG Capitale Energia. Sem tratamento, os dejetos contribuem para que a quantidade de metano despejado na atmosfera – hoje estimado em 50 milhões de toneladas por ano – cresça rapidamente. O risco o é aumento de da temperatura da Terra em 3°C a 4°C até o final do século, segundo a Global Carbon Project.

No modelo em que a Zeg atua, o produtor brasileiro não tem custos. Ao contrário. Ele, na verdade, pode lucrar com os resíduos de duas formas: na venda do material para e a Zeg ou como sócio de usinas com a empresa. No último modelo o payback gira em torno de 10% a 15% ao ano, sendo que o tempo minímo estimado para o início da produção é de 12 a 18 meses após o início da construção da estrutura. Segundo Rossi, o potencial do biogás é tão grande que já foi apelidado pelo mercado de “o pré-sal caipira”.

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