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A revolução do saber

Publicado em 25 agosto 2003

Por Ana Magdalena Horta, Marcelo Aguiar e Estela Caparelli
Há gente transformando o Brasil à sombra dos holofotes. Eles não aram a terra, não operam máquinas nem aprimoram as artes do comércio. Vivem com a cabeça no futuro - embora gerem riqueza a cada dia. Fazem parte de uma turma que aposta na mais preciosa ferramenta de trabalho: a própria inteligência. São homens e mulheres que ousaram confiar numa idéia para virar a vida. Transformaram um bem intangível - o saber - em produtos concretos, empresas de ponta e bom dinheiro. Hoje já podem ser vistos como a porção pós-industrial de um país que, em muitas áreas, ainda se debate em conflitos típicos dos tempos anteriores à industrialização do mundo. Os brasileiros que arrancam lucro do conhecimento brilham nos mais diversos setores. Inventam técnicas da agricultura à medicina, das telecomunicações às finanças, dos transportes à informática. Já estão por trás de atividades rotineiras, sem que o cidadão comum sequer suspeite da presença deles. Pessoalmente, esses craques do saber acreditam ter realizado sonhos. O do físico Jarbas Castro tornou-se real em 1986, quando, de volta dos Estados Unidos, resolveu virar empresário. Com extensa bagagem acadêmica e Ph.D. por um dos melhores centros de pesquisa do mundo, o Massachusetts Institute of Technology (MIT), Castro criou a Opto Eletrônica. Quem vai ao dentista não imagina que as lanterninhas de luz fria usadas para desvendar os mistérios da boca são tecnologia 100% brasileira, com domínio de quase metade do mercado mundial. A partir de São Carlos, no interior de São Paulo, a Opto Eletrônica tornou-se um farol em equipamentos de precisão. A empresa não existiria não fossem a persistência de Castro e a falta que lhe fazia uma lente para seus trabalhos de pesquisa. Importar demorava seis meses. Fabricá-la por aqui não parecia empreitada fácil: a tecnologia era segredo de grandes multinacionais, como a francesa Essilor, dona da marca Varilux. Castro teve de reinventar a roda, mas contou com a ajuda de outros pesquisadores de São Carlos, um celeiro de inventores - há na cidade um cientista para cada 42 habitantes, a maior concentração de inteligência científica no Brasil, graças a duas universidades públicas e dois centros de pesquisa da Embrapa. Logo a Opto estava vendendo lentes para uso em itens tão prosaicos como óculos de leitura e ganhando tamanho internacional. Desenvolveu um novo laser para cirurgias de fundo de olho e criou uma técnica de operação. Inventou também um medidor de distância a laser, usado para frear com absoluta precisão os vagões de carga da Vale do Rio Doce. Quando começou nos negócios, a carreira acadêmica de Castro já tinha batido no teto. Ganhava algo como R$ 4.500 líquidos. "Isso não bastaria para pagar a educação que dou a meus filhos", diz. O salário no fim do mês foi multiplicado várias e várias vezes. A Opto faturou R$ 30 milhões em 2002 e continua crescendo, pelo menos 20% a cada ano. Conhecido no mundo pelas vendas de soja, suco de laranja e café, o Brasil começa a fazer fama com tecnologia graças a exemplos como esse. O crescimento das exportações no setor de programas de computador é uma boa prova. Em 2002, foram US$ 150 milhões, segundo a Softex, instituição ligada ao Ministério da Ciência e Tecnologia. Apesar de pequeno se comparado às importações no mesmo período, de US$ 1 bilhão, o número revela o grande salto do país nos últimos tempos. Em 1990, essas exportações limitavam-se a US$ 1 milhão, resultado da falta de competitividade provocada por anos de uma política de fechamento do mercado. Um dos ases brasileiros na área tem apenas 25 anos. Formado em ciência da computação, Pedro Henrique Macedo é hoje coordenador de engenharia de software do Cesar, uma empresa de desenvolvimento e pesquisas no pólo tecnológico de Pernambuco. Macedo descobriu no ano passado que a Singapore Telecom faria um concurso de jogos para celulares e daria como prêmio a oportunidade de fechar contratos com empresas para a venda do produto. Virou noites com colegas para preparar dois jogos. Ficou em primeiro lugar, à frente de quase 1.000 outros concorrentes, sobretudo asiáticos. Agora suas invenções vão ser distribuídas para 40 operadoras na Ásia e na Europa. A expectativa é receber US$ 200 mil por mês com os jogos Sea Hunter e Gold Hunter. "Foi difícil convencer as pessoas no Brasil sobre a seriedade do produto", afirma ele. O segmento de games para celulares deverá movimentar US$ 17 bilhões até 2006, segundo o instituto Datamonitor. O trio Carlos Gontijo, Marcelo Antonio Malagutti e Mário Malagutti também conseguiu ir além das fronteiras. Os três perceberam em 1993 que as instituições financeiras usavam diferentes programas para fazer a ponte entre as agências e os serviços de atendimento ao cliente. Inventaram, então, um programa único. Largaram o trabalho - Carlos e Marcelo estavam no Banco de Brasília, e Mário no Superior Tribunal de Justiça - para criar a Fóton. Hoje, a empresa está se lançando no Oriente Médio com a ajuda do Brains, um consórcio de incentivo a exportações ligado à Sofitex, empresa que promove o software brasileiro fora do país. Acaba de fazer um acordo que deverá render US$ 770 mil em três anos. "Vender para o Exterior é uma forma de reduzir o risco de dependência em relação ao mercado brasileiro", explica Gontijo. Não é raro que o reconhecimento venha primeiro de fora. A FlashtoGo, dos designers Marcos Figueira, de 41 anos, e Márcia Berardinelli, de 42, oferece produto com versão brasileira há apenas dois meses, mas desde 1998 já é uma febre nos EUA, onde tem mais de 20 mil clientes. A dupla carioca levou três anos desenvolvendo o projeto - um site que permite ao usuário construir a própria página na internet. "Investimos US$ 1,5 milhão. Ganhamos isso de volta em 18 meses", comemoram. Todos querem alcançar a projeção de gigantes brasileiros, como a Microsiga, resultado de uma grande sacada. Há 20 anos, o então engenheiro eletrônico Laércio Cosentino, de 23, trabalhava na Siga, empresa que processava caixas de dados de clientes em enormes máquinas. Começava a acontecer na mesma época a microinformática, sob a forma dos antigos computadores Prologica, um antepassado dos atuais PCs. A idéia de Cosentino foi tão vitoriosa que parece óbvia: levar a microinformática para dentro das empresas clientes. O resultado: a Microsiga fatura hoje R$ 230 milhões anuais. "Investi US$ 6 mil para comprar dois computadores. Valeu, não?", alegra-se Cosentino. Histórias desse tipo são orgulho nacional. Tratam de brasileiros que conseguiram um lugar no especialíssimo mundo do conhecimento e da alta tecnologia, um oásis num país que ainda tem milhões de pessoas lavrando a terra com as mãos. Graças ao saber, eles concretizam o futuro. Servem de locomotiva para o crescimento do país e vêm vitaminando o setor de serviços, já responsável por quase 60% do PIB, e o de agronegócios, que bate recordes de produtividade a cada ano. "A pesquisa para levar a soja a regiões no Brasil mais perto do Equador foi feita contra tudo e contra todos. Hoje, graças a esse pulo, o Brasil tem uma produtividade imbatível", afirma Avílio Antonio Franco, superintendente da Embrapa, instituição que conta com um orçamento de R$ 600 milhões para financiar projetos. É preciso, porém, multiplicar Cosentinos, Macedos e Castros. "O Brasil ainda não tem uma imagem forte de exportador de conhecimento", admite Artur Pereira Nunes, secretário-adjunto da Secretaria de Política Tecnológica Empresarial do Ministério da Ciência e Tecnologia. Os números comprovam o alto valor agregado de produtos nascidos graças à inteligência. Enquanto 1 quilo de grãos vale US$ 0,30, um "quilo" de telefone celular rende US$ 2 mil. O valor sobe até US$ 50 mil, no caso de um "quilo" de satélite. O país ainda paga caro por não produzir todo o conhecimento de que precisa. No ano passado, gastou US$ 3 bilhões com a compra de tecnologia, pagamentos de royalties ao Exterior e licenciamento de software, quase 14 vezes mais que em 1992. O apoio à pesquisa e ao desenvolvimento de produtos tecnológicos tornou a Coréia do Sul um tigre asiático. O país é comparado ao Brasil por também ter tido industrialização tardia. No entanto, nos últimos 20 anos os coreanos multiplicaram seu PIB por quatro, enquanto o brasileiro cresceu apenas 50%. A partir dos anos 70, o governo de Seul aumentou os investimentos em tecnologia e estimulou a inovação nas empresas. A conseqüência: entre 1980 e 2001, os coreanos registraram 21.530 patentes nos EUA, enquanto o Brasil registrou apenas 1.120. Não que a produção científica brasileira tenha ficado parada. Em 1980, publicavam-se 1.500 artigos em revistas internacionais. Em 2000, eram mais de 10 mil. Mas o problema é que o apoio à ousadia é insuficiente, tanto da parte do Estado quanto das empresas. "Por isso, a aposta em uma idéia nova depende cada vez menos do inventor e mais de sua capacidade de persistir e levantar fundos", conta Luiz Carlos Passetti, coordenador do Prêmio Empreendedores do Ano, da Ernst & Young, que premia donos de boas idéias, como Cosentino. A valorização do saber cada vez menos está ligada a golpes de sorte. São raras as histórias de reconhecimento repentino, de idéias geniais que, de uma hora para outra, mudam o rumo de uma vida. Além da trabalhosa formação, a trajetória de quem ganha a vida em função de seu conhecimento tem, em geral, a marca da obstinação. O engenheiro Tarcísio Takashi Muta, de 54 anos, é um caso exemplar. Hoje diretor-presidente da Atech, ele pode orgulhar-se de operar e ter desenvolvido os sistemas de defesa e controle de tráfego aéreo que protegem 80% dos vôos sobre o Brasil. A Atech, formada por engenheiros egressos do famoso Instituto Tecnológico da Aeronáutica (ITA), faturou quase R$ 60 milhões em 2002. Ela foi responsável pela integração do Sistema de Vigilância da Amazônia (Sivam), área considerada uma das mais complicadas desse gigantesco projeto que teve investimento de US$ 1,4 bilhão. A Atech concluiu seu trabalho antes mesmo da Embraer e da Raytheon e assim acabou ganhando acesso ao exclusivíssimo clube de empresas (são apenas dez em todo o mundo) capacitadas nessa área. Para chegar aí, no entanto, Takashi perseverou 13 anos. Levou cano de um empregador falido, sofreu com pressões políticas e esbarrões de multinacionais interessadas em tomar para si o desenvolvimento do Sivam. Filho de agricultores do interior paulista, teve a paciência necessária para criar o grupo, especializado em "vender conhecimento". Ela atua com as chamadas tecnologias críticas, capazes de resolver grandes nós de confusão informática em diferentes setores. "Ter um grande volume de informações pode ser apenas um grande problema - não um ganho de conhecimento", diz Takashi. Hoje a Atech, com 400 funcionários, tem softwares para levantamentos geológicos e prospecção, radares meteorológicos e até sistemas para a área de segurança pública. Nos últimos anos, vem crescendo pouco a pouco o volume de financiamentos para esses inovadores. Uma fonte está na Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (Fapesp). Desde 1997, a instituição injetou R$ 48 milhões no Programa de Inovação Tecnológica em Parceria (Pite), que conta com a participação de empresas, e R$ 33 milhões no Programa de Inovação Tecnológica em Pequenas Empresas (Pipe). Esse dinheiro deu origem, por exemplo, a outra boa invenção genuinamente nacional. Pesquisador do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe), Vladimir Airoldi, de 49 anos, descobriu outras aplicações para uma tecnologia de diamantes artificiais desenvolvida para o espaço. Inventou uma haste de uso odontológico que elimina o barulho das brocas, reduz a dor do tratamento e evita a anestesia em muitos casos. O produto chegou ao mercado há pouco tempo e a previsão de faturamento da Clorovale Diamantes, a empresa de Airoldi, é de R$ 70 mil mensais. Um cheque de R$ 4.150,45 é o primeiro resultado em royalties da aventura. A quantia vai ser dividida entre a Fapesp e os inventores. "O cheque é pequeno, mas muito simbólico", diz o presidente da Fapesp, Carlos Voigt. "O Brasil precisa aprimorar a cultura das patentes e estimular essa vocação pragmática que os EUA têm", continua Voigt. Já houve progresso. Antes, as aplicações industriais eram um ramo menos nobre para quem manejava a teoria pura. Lídio Takayama, físico, já nos anos 70 tinha paixão por aparelhos. Queria ir para a indústria, mas era malvisto no meio acadêmico. Uma "cisma", como ele diz, o fez montar na Cidade Universitária, em São Paulo, seu primeiro espectrômetro - aparelho usado para detectar a presença de elementos em amostras. Em 1986, deu a virada na vida. A Femto tem hoje 12 funcionários e fatura R$ 2 milhões por ano. "Foi um haraquiri. Tive de me matar de um lado para renascer do outro." Takayama, de 58 anos, não tira férias há 15, mas está realizado. Não ficou rico, mas não se queixa. Flávio Moscardi, de 54 anos, também não ganhou com a reviravolta que provocou no campo. Seu inseticida biológico, que mata as lagartas da soja, já é usado em 2 milhões de hectares da lavoura no país. Com custo altamente competitivo, o produto já fez os agricultores brasileiros economizar mais de R$ 150 milhões e ainda evitou danos ao meio ambiente, porque não usa química. Pesquisador da Embrapa Soja, Flávio é do tempo em que inventores não recebiam royalties. Tem salário que não chega a R$ 8 mil. A falta de incentivos desestimulou outros brasileiros tão talentosos quanto Flávio a levar a vida em laboratórios, e o sistema acabou sendo mudado, para garantir a presença brasileira na tropa que dita o progresso do planeta. COLABOROU ELISA MARTINS