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MSN (Brasil)

A revolução de Dubai

Publicado em 29 outubro 2021

Por Marcos Strecker, enviado especial a Dubai

Há 170 anos as exposições universais servem de palco para os países projetarem influência e se posicionarem na arena mundial diante das mudanças econômicas e tecnológicas. Foi assim que a eletricidade e o telefone anteciparam o futuro, e a Torre Eiffel virou um marco do turismo copiado até hoje. A nova edição do evento, batizada de Expo 2020, foi inaugurada em Dubai no dia 1º de outubro e deve atrair 25 milhões de visitantes em seis meses. Traz obras arquitetônicas e inovações tecnológicas dos mais de 190 países representados em seus pavilhões. Ao contrário da Olimpíada de Tóquio, a cidade do Oriente Médio abriu suas fronteiras para todos os turistas estrangeiros, exigindo apenas vacinas, testes PCR, o uso de máscaras e distanciamento social. Ela sedia agora o primeiro grande evento global do pós-pandemia (foi adiado por um ano).

A Expo é um farol para a transformação do mundo, e todas as nações aproveitam a oportunidade para mostrar como estão se preparando para uma nova era. Países prepararam espaços ambiciosos, como a Alemanha, que deseja ser pioneira em inovação ligada à energia verde. A China tentou capitalizar seu potencial tecnológico e o triunfo de seu programa espacial. Em um dos pavilhões mais sofisticados, a Arábia Saudita convida o visitante a uma imersão na geografia do país com um show de tecnologia. A Holanda propõe um mergulho sensorial na natureza, com direito a cachoeira caindo do teto.

Essa exposição materializa a importância da preservação do meio ambiente, assim como um admirável novo mundo composto de uma experiência urbana e sensorial propiciada pela inovação. Visão muito pretensiosa? Talvez, mas o próprio local do evento convida a uma outra percepção. Dubai hoje tem alguns dos maiores marcos arquitetônicos do mundo e foi construída na sua concepção atual em duas décadas. Tem cumprido a promessa de se transformar no maior hub comercial e tecnológico unindo Europa, Ásia e África, na maior conexão de mobilidade do mundo. A Expo é uma oportunidade única para qualquer governante preocupado em se posicionar estrategicamente no exterior.

Mas não é o caso do governo Bolsonaro. O Brasil tem o principal ativo ambiental do mundo, a Amazônia, mas não aproveita isso. Ao contrário. O discurso oficial não dialoga com a concepção esforçada, mas ineficiente, do seu pavilhão. Seu projeto arquitetônico (um cubo branco com um lago no interior), ainda que elegante, expressou um projeto vazio e sem mensagem, movido apenas por palestras oficiais e fotografias enaltecedoras. Não basta ter um espaço onde se molha os pés para apagar a imagem de um País que está destruindo suas florestas com motosserras e onde incêndios criminosos ocorrem com a complacência das autoridades.

O conteúdo para reverter isso veio, por enquanto, de São Paulo. Reproduzindo, até nesse projeto imaginário, as concepções em choque do futuro do País, o governador do estado, João Doria, conseguiu mostrar a Nação por meio de um cenário moderno e pujante com uma criativa ocupação cultural. Por meio da InvestSP, agência de fomento ligada ao governo estadual, foi montado um palco moderno e interativo para uma semana de apresentações de 150 artistas, com performances variadas de street dance, pichações e concertos, com assinatura artística de nomes como Abel Gomes (que participou da abertura das Olimpíadas do Rio). Eles integram a comitiva da São Paulo Expo Dubai, que se estendeu de 24 a 31 de outubro no espaço, com custo de R$ 10 milhões, 60% obtidos por meio de patrocinadores. A parte empresarial ficou por conta de 43 executivos de 33 empresas que participaram da Missão Expo Dubai, também liderada por Doria com seis secretários de Estado.

A participação paulista na exposição coroa uma estratégia ousada e bem-sucedida implantada por Doria, também em franca oposição a Bolsonaro. O paulista já abriu três escritórios comerciais no exterior: em Xangai (em 2019), Dubai (2020) e Munique (este ano). O próximo será aberto em Nova York, no dia 2 de dezembro. O da metrópole chinesa viabilizou a parceria entre a farmacêutica Sinovac e o Instituto Butantã, que garantiu a vacinação aos brasileiros a partir de janeiro deste ano, apesar do boicote do presidente à Coronavac. O escritório de Dubai, aberto no momento em que a pandemia virou uma emergência, acabou mostrando sua utilidade exatamente por causa da doença. Virou centro de referência para os importadores do Oriente Médio, preocupados com a possível interrupção da remessa de alimentos pelos brasileiros. Esses contatos tornaram o escritório paulista na região, responsável por 28 países, um polo de atração de novos negócios. No mundo pós-pandemia, com interrupção de cadeias de suprimentos e crise logística, países árabes e asiáticos priorizam a segurança alimentar, e o trabalho pioneiro já mostra o potencial de conectar o Brasil, um dos maiores produtores mundiais, com uma área em expansão.

Essa concepção de integração moderna passa muito longe da prática do governo federal, e por isso ocorreram choques inevitáveis que já antecipam a disputa eleitoral do próximo ano. Doria criticou as dificuldades que a delegação paulista enfrentou, apesar do sucesso de público do estande brasileiro com as performances de São Paulo na última semana (com 15 mil espectadores, teve em um dia mais visitantes do que todos os três primeiros dias na inauguração do estande). “É vergonhosa a atitude da Apex ao ignorar as ações que o estado está fazendo na Expo Dubai para promover o Brasil. Ao invés de somar e agregar, ela prefere dividir”, condenou, citando a agência federal de promoção de exportações responsável pelo pavilhão brasileiro. Isso acontece após a própria participação brasileira quase ter sido abortada. Em 2020, o governo federal por pouco desistiu de fazer um pavilhão nacional por conta dos gastos. Além disso, colocou no comando uma equipe inexperiente em projetos desse porte. Isso aconteceu porque quase todos que tinham experiência com as exposições universais foram demitidos na gestão Bolsonaro. E houve atrasos e mudanças que prejudicaram a semana paulista.

Já Bolsonaro renovou mais uma vez sua fama de pária internacional. Dezenas de autoridades federais desfilaram desde o início do evento mais para sua autopromoção do que para fortalecer o diálogo ou atrair o interesse dos estrangeiros. O vice-presidente, Hamilton Mourão, inaugurou o pavilhão brasileiro discursando para sua própria comitiva; o secretário da pesca, Jorge Seif Júnior, cabulou reuniões para gravar um vídeo-ostentação numa praia; o ministro do Turismo, Gilson Machado, achou oportuno atacar o mandatário francês Emmanuel Macron; e o filho do presidente, Eduardo Bolsonaro, optou por se fantasiar de árabe e passeou na praia ao lado da mulher e filha para lacrar nas redes ou então mostrar que curtiu o passeio como um bom turista. Não se trata apenas de uma questão de gosto. É falta de compreensão básica do que seja diplomacia ou soft power.

Bolsonaro visitará Dubai no próximo dia 15. A presença de um chefe de Estado inevitavelmente atrai as autoridades do país anfitrião, o que provavelmente vai acontecer com o brasileiro. Mas ele dificilmente poderá reverter mais um fiasco na arena internacional provocado por ele mesmo. Ao lado de Mourão (que voltará à Expo 2020), o presidente terá dificuldades em explicar a injustificável imagem atual do Brasil aos olhos do mundo: a destruição do meio ambiente. Esse é justamente um dos principais temas do evento e, nesse assunto, Bolsonaro já não pode reverter a marca de devastação que construiu para si.

Além dos episódios que já colocaram em risco projetos do governo de Doria (e vitais para a população, como no caso da vacina), é bom lembrar que a Fórmula 1 quase foi retirada de São Paulo por pressão presidencial, que tentou levar a corrida para o Rio em um empreendimento temerário, já que o autódromo seria construído em terreno com uma floresta nativa, e a valores bilionários. A obra seria feita contra a recomendação dos especialistas. Mais uma vez o presidente perdeu a batalha para o rival, e o evento acontecerá em Interlagos em novembro, com contrato renovado, tendo como um dos financiadores exatamente o fundo soberano Mubadala, de Abu Dhabi, que fez parte do roteiro do governo paulista em seu tour.

Doria, por outro lado, aproveitou a oportunidade para anunciar o financiamento de R$ 100 milhões da Fapesp para pesquisas sobre a região amazônica a serem realizadas em conjunto com vários estados — valor que pode ser multiplicado pela participação da iniciativa privada.

De Dubai, o paulista segue para a COP26, na Escócia, quando estará ao lado de outros oito governadores defendendo o meio ambiente no maior painel climático da ONU desde o começo da pandemia. Vencerá mais um round. Bolsonaro nem foi convidado para esse evento.

 

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