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A resposta dos governos à COVID-19 poderá deixar cicatrizes políticas, afirmam pesquisadores

Publicado em 03 julho 2020

Claudia Izique | Agência FAPESP – Além de milhares de vítimas fatais e de um desastre econômico sem precedentes em todo o planeta, a COVID-19 poderá deixar outra cicatriz profunda nas nações cujos líderes não ofereceram resposta adequada à pandemia: a perda de confiança nas instituições.

Esse cenário, formulado por três pesquisadores – Cevat Giray Aksoy, do European Bank for Reconstruction and Development; Orkun Saka, da University of Sussex, ambos do Reino Unido; e Barry Eichengreen, do Department of Economics, da University of California, Berkeley, dos Estados Unidos –, está descrito no artigo The political Scar of epidemics , ainda não revisto por pares, e sintetizado no portal Vox CEPR Policy Portal . O tema também foi debatido em webinar da London School of Economics and Political Science, em 17 de junho.

O pressuposto é que a confiança nos governantes é fundamental para limitar a propagação de uma epidemia, mas que políticas de saúde pública precárias acionam uma espiral circular de desconfiança que mina ainda mais a eficácia das políticas de saúde pública, deixando um legado negativo, sobretudo entre os jovens.

Estudos anteriores sobre o impacto de epidemias em 140 países demonstram que indivíduos com idade entre 18 e 25 anos, expostos a epidemias, são menos propensos a acreditar na honestidade das eleições (-7,2 pontos percentuais em relação a indivíduos não expostos), a confiar no governo nacional (-5,1 pontos percentuais) ou a aprovar o desempenho de lideranças políticas (-6,2 pontos percentuais). Os autores sublinham que comportamentos e atitudes moldados nesse período, que vai do final da adolescência até o início da vida adulta – conhecido como impressionable years (anos impressionáveis) –, persistem por pelo menos duas décadas e “decaem apenas gradualmente”.

A magnitude da perda de confiança varia na razão inversa da força do governo de dar resposta aos desafios de saúde. “Quando indivíduos vivenciam epidemias sob governos fracos, o impacto negativo na confiança é maior e mais persistente. Isso é consistente com a ideia de que esses governos são menos capazes de responder efetivamente a epidemias, levando a uma queda de longo prazo na confiança política”, afirmam.

A quebra de confiança será ainda maior em países democráticos, em que a expectativa de resposta adequada do poder público, eles supõem, deva ser maior do que nas “autocracias”. Além disso, como os regimes democráticos são abertos, “podem permitir uma cacofonia de visões oficiais conflitantes, resultando em um impacto maior na confiança”.

E exemplificam: “Depois que o presidente Jair Bolsonaro descartou pública e enfaticamente os riscos associados ao vírus COVID-19 e desaconselhou o isolamento, o distanciamento social dos residentes em localidades pró-governo caiu em relação a lugares em que o sentimento pró-governo era mais fraco”, afirmam, citando o artigo Leaders’ speech and risky behaviour during a pandemic , assinado por Nicolas Ajzenman e Daniel Da Mata, da Fundação Getúlio Vargas, e Tiago Cavalcanti, da Universidade de Cambridge.

O impacto negativo da exposição a epidemias é maior nos países de renda média e alta. “Os indivíduos com menor escolaridade respondem mais fortemente, adotando atitudes ainda mais negativas em relação às instituições e líderes políticos. Moradores de áreas urbanas respondem mais negativamente do que os que residem em áreas rurais. As mulheres exibem queda maior de confiança.”

A falta de confiança contamina também o sistema público de saúde e a segurança e eficácia da vacinação. “Esse achado sugere que a adequação ou não das intervenções governamentais relacionadas à saúde durante epidemias, tanto farmacêuticas quanto não farmacêuticas, é importante para a confiança no governo em geral.”

O impacto na campanha de vacinação

“O artigo oferece lições e recomendações importantes para o futuro”, diz Elize Massard da Fonseca , professora do Departamento de Gestão Pública da Fundação Getúlio Vargas e coordenadora do estudo Enfrentamento ao COVID-19: Brasil em Perspectiva Comparada , apoiado pela FAPESP e desenvolvido em parceria com a Universidade de Michigan, que avalia estratégias de diferentes países no enfrentamento da pandemia.

Fonseca se mostra particularmente temerosa de que a falta de confiança comprometa também uma futura campanha de vacinação contra a COVID-19. “O governo fez uma campanha forte em favor do uso da cloroquina no tratamento da doença, sem comprovação científica da eficácia do medicamento. Seu uso, aliás, foi desaconselhado pela própria Organização Mundial da Saúde (OMS). Como confiar na autoridade sanitária que apoia um medicamento tão controverso?”, ela indaga. “Isso pode ser um problema no momento em que tivermos uma vacina.”

A mesma preocupação – lastreada em razões semelhantes – já mobiliza autoridades sanitárias nos Estados Unidos, país que também sofre os efeitos da falta de confiança nas autoridades sanitárias. Robert R. Redfield, diretor dos Centros de Controle e Prevenção de Doenças (CDC), afirmou em audiência recente no Congresso que a agência vinha há três meses desenvolvendo um plano para reconstruir a “confiança da vacina”, numa tentativa de conquistar uma grande fatia dos americanos ainda hesitante sobre a inoculação, conforme noticiou o jornal The New York Times no dia 30 de junho.

Na mesma reportagem, o The New York Times menciona pesquisas recentes que dão conta de que sete em cada 10 americanos afirmam que receberiam vacinas contra o vírus se as imunizações fossem gratuitas e disponíveis para todos, um número que as autoridades de saúde temem que não seja suficiente para alcançar a “imunidade do rebanho”: pelo menos 70% precisam estar imunes ao vírus para chegar a esse ponto, segundo pesquisadores da Universidade Johns Hopkins.

Este texto foi originalmente publicado por Agência FAPESP de acordo com a licença Creative Commons CC-BY-NC-ND . Leia o original aqui .

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