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Revista Diálogo Brasil-Alemanha de Ciência, Pesquisa e Inovação

"A representatividade da Alemanha na internacionalização da Fapesp é muito significativa"

Publicado em 01 janeiro 2016

DWIH-SP - A quarta edição do Diálogo Brasil-Alemanha de Ciência, Pesquisa e Inovação foi o primeiro projeto concreto da parceria entre o DWIH-SP e a Fapesp. Que avaliação o senhor faz do trabalho conjunto e dos resultados?

Brito Cruz - Do ponto de vista da Fapesp, a interação e a colaboração com o DWIH-SP têm sido muito positivas para os nossos objetivos, especialmente no que diz respeito à estratégia da Fapesp de oferecer oportunidades para que cientistas de São Paulo interajam com colegas de outros países. Isso coincide com o objetivo principal do DWIH-SP, o de promover a colaboração em pesquisa entre cientistas alemães e brasileiros, neste caso, alotados em São Paulo. Ficamos satisfeitos com a realização do evento aqui na Fapesp e, nos próximos anos, gostaríamos de continuar com essa colaboração, aperfeiçoando-a a cada edição.

DWIH-SP - Especificamente sobre a área da tecnologia da informação, tema central do evento, que contribuições e expertises pesquisadores alemães e brasileiros possuem para trocar e somar?

Brito Cruz - Há uma infinidade de possibilidades. O evento tratou de alguns tópicos e características desse tema, mas as possibilidades de colaboração em pesquisa na área de ciência e tecnologia da informação são enormes. A Alemanha é um país com fortíssima base de pesquisa no assunto e aqui em São Paulo também estamos construindo um sistema com cientistas muito capazes. Vale ainda dizer que hoje a tecnologia da informação é, também, um instrumento presente em quase todas as áreas de pesquisa, além de ser necessária a elas e, de certa forma, de impactá-las. Em São Paulo, estamos trabalhando com projetos de pesquisa que visam conectar a tecnologia da informação com as ciências humanas, a arqueologia, a mudança climática global e com a saúde, especialmente nas iniciativas relacionadas à medicina de precisão. Em suma, o tema da quarta edição do Diálogo Brasil-Alemanha foi muito bem escolhido.

DWIH-SP - Há similaridades entre a pesquisa no campo da tecnologia da informação produzida nos dois países?

Brito Cruz - Tem muitas similaridades, sem dúvida nenhuma. Talvez uma diferença é que na Alemanha existe uma conexão mais próxima entre a pesquisa acadêmica e a industrial, porque há uma intensidade maior de pesquisa industrial nesses temas. Em São Paulo, já temos um pouco também dessa conexão, mas não na intensidade que se tem na Alemanha.

DWIH-SP- Esta área tem sido contemplada nos projetos bilaterais, colaborativos, e em acordos de cooperação entre a Fapesp e as instituições alemãs?

Brito Cruz - Um tema ser contemplado nos acordos de cooperação é uma questão de achar os parceiros adequados para a realização de um trabalho conjunto. Para haver a colaboração em pesquisa é preciso ter capacidade de financiamento dos projetos dos dois lados. Por isso, temos na Fapesp acordos com importantes organizações de financiamento à pesquisa da Alemanha, como a DFG. No entanto, até o momento, nenhum acordo focalizou o assunto da tecnologia da informação. Temos mais atividades centradas, por exemplo, na bioeconomia, um tema de interesse dos dois países.

DWIH-SP - A realização do Diálogo Brasil-Alemanha foi resultado direto do Memorandum of Understanding (MoU), firmado entre a Fapesp e o DWIH-SP, em julho. Com o MoU, o que mais avança na cooperação entre as duas instituições e entre São Paulo e a Alemanha?

Brito Cruz - A nossa expectativa com o Memorando de Entendimento é que com a realização de atividades de ciência e tecnologia em colaboração com o DWIH-SP, consigamos criar mais pontes com a comunidade científica da Alemanha. Isso é o que estamos vendo acontecer até agora, mas como começamos há pouco tempo a trabalhar juntos, precisamos de mais algum tempo para termos mais dessas conexões e oportunidades. A comunidade de pesquisa de São Paulo tem muito interesse nessas oportunidades.

DWIH-SP - Durante a assinatura do MoU, em julho de 2015, o senhor citou que a cooperação entre a Fapesp e a Alemanha data de 1988, iniciada com um acordo de cooperação com o DAAD, com foco no intercâmbio de pesquisadores. Nestes quase 30 anos, é possível lembrar de alguns grandes marcos dessa cooperação? Quais seriam?

Brito Cruz - Talvez o que tenha sido mais marcante é que foi com essa interação com o DAAD, como também ocorreu com a Fundação de Ciências e Tecnologia de Portugal, que a Fapesp começou a organizar e aprender o que precisava saber para trabalhar com uma estratégia mais agressiva de colaboração internacional em pesquisa, o que nos ajudou muito. Com o acordo com o DAAD, conseguimos facilitar a vinda de muitos pós-doutores da Alemanha para São Paulo, o que contribuiu muito para a pesquisa em São Paulo.

DWIH-SP - E como seria essa estratégia mais agressiva?

Brito Cruz - A estratégia que a Fapesp passou a adotar elevou a capacidade de financiamento de pesquisa colaborativa internacional. O acordo com o DAAD previa que quando viessem os seus bolsistas a Fapesp pagava algumas coisas e o DAAD outras. Era um acordo voltado ao intercâmbio, à troca de pessoal. Isso foi amadurecendo e, agora, já avançamos bastante, como no acordo com a DFG e com instituições de outros países, em que temos a possibilidade de financiar um projeto de pesquisa completo, incluindo compra de equipamentos, de material de consumo, pagamentos por serviços e auxílio a bolsistas. E o mesmo acontecerá com o colega pesquisador que estiver no outro país. É um tipo de interação de pesquisa que vai além do intercâmbio, porque agora nós estamos falando não de um intercâmbio um pouco oportunista, quando um interessado encontra um lugar para desenvolver a atividade que deseja, mas de uma situação em que um cientista de São Paulo e um cientista da Alemanha vão construir juntos um projeto de pesquisa de base, com objetivos comuns, dividindo as tarefas.

DWIH-SP - É um outro jeito de pensar a pesquisa colaborativa?

Brita Cruz - Sim, trata-se de uma outra forma, de um modelo de colaboração ainda novo no Brasil, onde ainda é forte a ideia de que a colaboração em pesquisa traduz-se no envio de brasileiros ao exterior, especialmente estudantes, para aprenderem alguma coisa. Numa certa fase de um sistema de tecnologia de um país, isto tem uma utilidade, mas depois que o sistema de ciência e tecnologia da região, como o daqui de São Paulo, ganha um grau maior de competitividade internacional, aí nós não queremos simplesmente enviar as pessoas, nós queremos receber pessoas, receber pós-doutorandos, jovens pesquisadores. Queremos conceber também os temas de pesquisa em conjunto. Então, o pesquisador de São Paulo trabalha com o colega na Alemanha, encontrando um caminho de pesquisa conjuntamente. Isso tem um grau de sofisticação muito maior do que simplesmente mandar estudantes para outros lugares o que, como disse, não deixa de ser importante.

DWIH-SP - Em outubro do ano passado, a Fapesp e o Ministério Federal de Educação e Pesquisa da Alemanha (BMBF) assinaram um acordo de cooperação em financiamento de projetos, de pesquisa colaborativa. A primeira chamada de proposta dessa cooperação foi na área de bioeconomia. Esta é uma área prioritária para a Fapesp?

Brito Cruz - Sim, essa área é prioritária. A Fapesp focaliza essa área já faz alguns anos na forma do programa sobre bioenergia, como também sobre biodiversidade. Agora, bioeconomia é um assunto claramente importante para o Brasil e para o estado de São Paulo, porque o país tem enorme potencial para ser explorado, uma economia baseada na natureza e na sustentabilidade, e a Fapesp quer fazer parte e tornar isso viável.

DWIH-SP - Em relação às mudanças climáticas, outro tema que a Alemanha de alguma forma se posiciona como líder, e, inclusive, faz parte de um acordo assinado entre Dilma Roussef e Angela Merkel, é possível pensar em contemplar esse tema em uma dessas cooperações?

Brito Cruz- Sem dúvida nenhuma, na verdade faz algum tempo que nós estamos querendo ter esse tema contemplado na nossa colaboração com a DFG. Ainda não acertamos todos os detalhes para isso, mas é um tema importante para os dois lados.

DWI H-SP - O que falta para contemplar mudanças climáticas em uma chamada de pesquisa colaborativa?

Brito Cruz - Falta gerar a oportunidade, falta ter a conexão da comunidade científica daqui com a comunidade científica de lá. Quando já existe uma conexão, aí vem naturalmente, nesse caso ainda não tem uma conexão tão intensa que gere sozinha a colaboração.

DWIH-SP - A Fapesp tem histórico de pesquisa nesse tema, mas ainda não com a Alemanha?

Brito Cruz - Isso, ainda não com a Alemanha. Temos principalmente com os Estados Unidos e o Reino Unido uma coleção maior de colaboração em torno de temas de mudanças climáticas, em especial relacionados com a Amazônia. Há um acordo com o Departamento de Energia dos Estados Unidos, que instalou uma grande infraestrutura de pesquisa na Amazônia, e com o NERC (Natural Environmental Research Council) do Reino Unido, com quem temos uma boa coleção de projetos. Com a Alemanha, começamos agora a parceria no Observatório da Torre Alta da Amazônia (Atto), inaugurado a 150 quilômetros de Manaus e que envolve, do lado alemão, o Instituto Max Planck de Química e o Instituto Max Planck de Biogeoquímica. Há também um projeto de mudança climática com a DFG em andamento, sobre a medida dos isótopos nas árvores para identificar os acontecimentos na mudança climática.

DWIH-SP - Com base na política de internacionalização da Fapesp, qual o peso e a representatividade das instituições alemãs de pesquisa?

Brito Cruz - A representatividade da Alemanha na internacionalização da Fapesp é muito significativa, considerando, principalmente, a intensidade da pesquisa na Alemanha, o que a torna muito atraente, embora os pesquisadores aqui em São Paulo tendam a interagir mais com Estados Unidos, Inglaterra e França por enquanto. Pode ser que isso mude no futuro próximo.

DWI H-SP - Seria um reflexo da dificuldade com a língua alemã?

Brito Cruz - Sim, tem a ver com a língua alemã que é sempre uma barreira.

DWIH-SP - Ainda sobre a internacionalização, iniciativas como a Fapesp Week Munich podem ser repetidas? Quais foram os desdobramentos concretos da Fapesp Week Munich?

Brito Cruz -A Fapesp Week Munich trouxe para nós oportunidades de relacionamento com outras organizações na Alemanha, como a Max Planck, com as quais estamos trabalhando. E foi durante essa iniciativa em Munique que assinamos o acordo de cooperação com a Fraunhofer, isso do ponto de vista institucional. Mas, talvez, o mais importante foi ver os pesquisadores que a Fapesp levou para lá iniciarem uma aproximação e relacionamentos com os colegas alemães. No futuro, veremos projetos de pesquisa colaborativos em função das interações iniciadas pelos pesquisadores que foram à Fapesp Week Munich.

DWIH-SP - Para o senhor que esteve na Fapesp Week Munich, qual a impressão que ficou do interesse dos alemães em relação à pesquisa em São Paulo?

Brito Cruz - Minha impressão foi muito positiva. Percebi um grande interesse da parte dos alemães. Os dirigentes das principais organizações estiveram ali conosco, como o professor Peter Strohschneider, presidente da DFG, que participou de um debate, além dos dirigentes da Max Planck e da Fraunhofer. As visitas que fizemos a outras universidades também foram muito efetivas. Temos muitas oportunidades boas para explorar.

DWIH-SP - Nos últimos meses, a Fapesp recebeu delegações de diversas universidades alemães, como se dá a dinâmica dessas visitas?

Brita Cruz - As delegações apresentam seus interesses, no caso das universidades há um interesse mais amplo, incluindo o intercâmbio de alunos. As delegações chegam com objetivos bem definidos e, no geral, com um bom conhecimento sobre o trabalho da Fapesp, o status da pesquisa em São Paulo. Certamente é o resultado do trabalho da embaixada, do consulado e do DWIH-SP.

DWIH-SP - Há algum outro aspecto da contribuição alemã para o desenvolvimento da pesquisa no Brasil que o senhor gostaria de destacar?

Brito Cruz - A colaboração com a Alemanha tem trazido bons resultados para São Paulo, não só por meio da produção da ciência, mas também quando lembramos da vinda de pessoas da Alemanha que mais tarde se estabeleceram aqui como cientistas. Nós temos cientistas excelentes na USP, na Unicamp, na Unesp, na Universidade Federal do ABC (UFABC) e em outras instituições. Um exemplo é o do reitor da UFABC, um alemão que veio de Würzburg para o Brasil como jovem pesquisador, em 1999, financiado pela Fapesp, fez uma carreira científica e acadêmica e agora é o reitor de uma importante universidade brasileira. Essa colaboração traz bons resultados para nós, como também tenho certeza de que para os nossos colegas na Alemanha.