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Gazeta do Povo online

A relevância social da pesquisa acadêmica

Publicado em 31 julho 2010

Laura Garbini Both

Em quatro recentes reportagens o jornal Gazeta do Povo destacou sob perspectivas, ao mesmo tempo, diferenciadas e complementares, a importância da articulação entre universidade e sociedade. Esse é um tema que vem progressivamente ganhando espaço não só nos veículos de mídia como também, e principalmente, no interior da própria universidade e dos seus centros de pesquisa, o que é notável, dada a dificuldade da academia em dialogar com os problemas mais imediatos e urgentes da sociedade.

A primeira reportagem (12/7) noticiou a assinatura de um convênio entre a Harris School, vide Escola de Políticas Públicas da Universidade de Chicago, e o Programa de Pós-Graduação em Direito da Universidade Federal do Paraná. A Harris School tem como diretriz orientadora das suas pesquisas o desenvolvimento de mecanismos e metodologias que permitam aferir e avaliar de forma racional - baseada em evidências, portanto distante das crenças e convicções pessoais - os resultados dos programas governamentais e das políticas públicas a partir de metodologias e bancos de dados científicos que possibilitem analisar os precedentes e as consequências de cada situação da realidade social.

A segunda reportagem (13/7) destacou o uso da aprendizagem baseada em problemas adotada há 13 anos pelo curso de graduação em Medicina da Universidade Estadual de Maringá. O método, que tem, em síntese, por orientação estudar, discutir, pesquisar e resolver casos clínicos verídicos em equipe, com o auxílio de um professor tutor, vem ocupando o espaço das aulas tradicionais nas quais o professor ministra o conhecimento no quadro-negro - ou no "data show", ingenuamente entendido como sinônimo de avanço educacional. O objetivo é estimular o aluno a aprender a pesquisar as possíveis soluções para resolver o problema a partir dos desafios que um caso específico e real provoca. O conhecimento, nesses termos, não se constrói isoladamente, mas de forma interdisciplinar e autônoma e, mais do que isso, com resultados mais efetivos diante das demandas sociais.

A terceira reportagem (26/7) discute a necessidade cada vez mais premente de sintonia entre a formação universitária e o atendimento das necessidades do mercado e das necessidades dos profissionais que buscam um curso de graduação. Para tanto, as instituições de ensino superior podem - e devem - operacionalizar a atualização constante dos conteúdos ministrados e dos métodos de ensino e aprendizagem desses conteúdos. E, ainda, ressalta o texto, aplicar esses conteúdos aprendidos em projetos interdisciplinares de pesquisa e extensão para que os alunos tenham uma formação prática, completa e atualizada.

Finalmente a quarta reportagem (27/7) revela o anúncio do Ministério da Ciência e Tecnologia da liberação de R$ 865 milhões para financiamento de pesquisas neste segundo semestre de 2010, voltadas para determinadas áreas na tentativa de superar a falta de articulação entre a universidade e o mercado, entrave para a aplicação prática dos estudos.

Os temas abordados nas quatro reportagens convergem para o entendimento de que as atividades de pesquisa acadêmica, a preparação para o mercado e a resolução dos tão urgentes problemas que assolam a sociedade não são incompatíveis. Contudo, são pouco efetivas, em que pese as iniciativas da UFPR e da UEL. Em entrevista à agência Fapesp, José Ellis Ripper Filho, professor titular no Instituto de Física da Universidade Estadual de Campinas, afirma que a universidade brasileira pode se tornar um elo eficiente na cadeia de tecnologia e inovação, mas, para isso, além de formar pesquisadores, ela precisa começar a formar desenvolvedores, cujo perfil é mais adequado para as necessidades das empresas e das políticas públicas. O desenvolvedor é alguém que ajuda a equipe a resolver o problema, pois o trabalho de equipe é inerente ao desenvolvimento de produtos, de tecnologias e de processos. Nota, o emérito professor, que a universidade tende a formar gente à sua imagem e semelhança, mesmo nas carreiras menos especulativas e mais aplicadas porque, do ponto de vista da universidade, ser pesquisador é visto como algo mais nobre. Repensar essa cultura e essa prática é urgente para que a universidade ocupe o papel fundamental e central no protagonismo das aceleradas transformações políticas e sociais contemporâneas.

Laura Garbini Both, socióloga, é mestre em Antropologia Social e professora da UniBrasil