Notícia

Brasil Soberano e Livre

A redução do orçamento do Inpe - Editorial

Publicado em 07 agosto 2021

Por Brasil Soberano e Livre

Instituto de Pesquisas vem sendo asfixiado financeiramente pelo governo Bolsonaro

A exemplo do que ocorreu com o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), o Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe), que completou 60 anos de atividades no dia 3 agosto, também vem sendo asfixiado financeiramente pelo governo Bolsonaro. Para este ano, o orçamento é de apenas R$ 75,8 milhões – um dos menores de sua história.

Em valor real, esse montante representa menos da metade do que o Inpe recebeu em 2020 e cerca de 15% do que foi repassado em 2010. Do mesmo modo como o IBGE não teve recursos para fazer o Censo Demográfico de 2020, a asfixia orçamentária pode levar o Inpe a atrasar e até a paralisar projetos importantes, como os dos satélites de observação da Missão Amazônia e do programa Sino-Brasileiro de Recursos Terrestres, uma parceria com o governo chinês que já dura três décadas.

Os cortes orçamentários também ameaçam o funcionamento de importantes equipamentos. Um deles é o supercomputador Tupã, responsável por previsões de tempo e clima, tratamento e coleta de dados meteorológicos, monitoramento de queimadas e emissão de alertas climáticos. Essas informações são essenciais para a tomada de decisões nas áreas de agricultura, energia e transportes. O risco de uma eventual paralisação do Tupã coincide com uma das mais graves crises hídricas já enfrentadas pelo País. Por iniciativa liderada pelo Instituto Brasileiro de Orientação Ambiental, diferentes entidades do setor lançaram em junho uma carta aberta advertindo o governo para os problemas que a interrupção do Tupã poderá acarretar.

Além disso, a asfixia do Inpe está comprometendo seus recursos humanos. Em 1990, ele contava com 2 mil servidores. Atualmente, são apenas 744, dos quais 144 atuam na área de pesquisa, 456 no setor de desenvolvimento tecnológico e 144 na área de gestão. Do total de servidores, 200 têm condições de se aposentar, mas, como não há garantia do governo de que suas vagas serão preenchidas, eles continuam trabalhando para manter o Inpe em funcionamento.

Criado em 1961 com o objetivo de desenvolver tecnologia espacial, o Inpe é hoje uma das mais importantes instituições científicas brasileiras, com sede em São José dos Campos. Em seis décadas de atividades, ele se destacou por suas pesquisas de astrofísica, desenvolvimento de satélites, implantação do monitoramento ambiental na Floresta Amazônica e por oferecer um respeitado curso de pós-graduação que já formou mais de mil doutores e 2,5 mil mestres.

Mas, apesar de ser um dos órgãos “mais nobres da pesquisa brasileira e com grande reconhecimento internacional, o Inpe atravessa uma situação difícil do ponto de vista de sua sustentabilidade. Ele perdeu apoio não só de ordem financeira, mas, também, às suas atividades de longo prazo”, disse, em entrevista à revista Pesquisa Fapesp, o físico e engenheiro Ricardo Galvão, que presidiu o órgão entre 2016 e 2019.

Há dois anos, ele esteve no centro de uma polêmica – com enorme repercussão internacional – criada por Bolsonaro. Ela começou quando o Inpe divulgou que a Floresta Amazônica havia perdido 10,1 mil quilômetros quadrados de mata nativa – a maior taxa desde 2008. Sem qualquer base técnica, Bolsonaro acusou o órgão de mentir e de “estar a serviço de interesses contrários aos do Brasil”. Galvão, que é professor da USP, membro da Academia Brasileira de Ciências e foi apontado pela revista Nature como um dos dez cientistas mais respeitados do mundo, reafirmou a lisura das informações sobre o desmatamento na Amazônia e foi demitido por Bolsonaro, sob a justificativa de que estaria a serviço de ambientalistas que “ameaçam a soberania brasileira”.

Desde então, como ocorre com o IBGE, que se nega a manipular informações sobre emprego para melhorar a imagem do governo, o Inpe luta para manter suas atividades. Este é o destino das áreas responsáveis por coleta de dados e desenvolvimento tecnológico em um governo que, sob a justificativa de defender a tradição, se declara inimigo da pesquisa e da ciência.

O Estado de São Paulo