Notícia

Jornal da USP online

A realidade dos rankings

Publicado em 02 dezembro 2012

Pode-se gostar ou não dos rankings universitários internacionais; concordar ou não com seus critérios e metodologias; superestimá-los ou subavaliá-los – o que não se pode mais é ignorá-los, porque eles vieram para ficar. Se há vinte anos esse tipo de classificação para as universidades parecia impensável, como diz a pró-reitora de Cultura e Extensão Universitária da USP, Maria Arminda do Nascimento Arruda, atualmente os rankings, produzidos por várias instituições de diferentes países, são uma realidade que não pode ser desconhecida.

Isso não significa, é claro, que uma universidade deva pautar suas ações com o objetivo prioritário de alcançar melhor colocação. Como advertem vários professores ouvidos pelo Jornal da USP para a série de reportagens especiais sobre os rankings que publicamos nas páginas seguintes, subir nas classificações é uma consequência da melhoria da qualidade, do conceito e da reputação da universidade – e não o contrário.

“A reiteração de classificações sempre melhores da USP nos mais variados rankings mundiais nos últimos três anos demonstra que a Universidade é estrela crescente tanto nacional como internacionalmente. Isso assegura que a USP se encontra em um caminho certo e ascendente”, comemora o reitor da USP, João Grandino Rodas. “A USP é uma universidade sólida, detentora, ao mesmo tempo, de tradição e de modernidade. Está, portanto, preparada para galgar boas classificações nas variadas classificações internacionais, desde que haja um esforço de todos no sentido de estar sempre mais abertos para compartilhar com outras universidades de ponta sua pesquisa, seu ensino e, dentro do possível, sua extensão de serviços à comunidade.”

O pró-reitor de Pesquisa da USP, Marco Antonio Zago, que costuma analisar criteriosamente os rankings, faz uma ressalva. “Prestar atenção exagerada nessas classificações pode ser muito deletério. As universidades não podem viver e se planejar com vistas a eles”, considera. Para Zago, os rankings oferecem um sistema simplificado que, com diferentes parâmetros, ressaltam aspectos próprios e, em alguns casos, possuem mesmo metodologias imperfeitas ou criticáveis. “É necessário, pois, em cada caso, examinar os parâmetros para poder ‘entender’ qual a mensagem que aquela classificação está nos dando. Os rankings podem ser úteis para nos orientar, se examinados com cuidado”, diz.

O pró-reitor compara essas listagens com uma equipe olímpica: um país pode ter medalhistas de ouro em algumas modalidades e não conseguir classificação em outras. No caso das universidades, os rankings podem ser utilizados para analisar as razões que distinguem o desempenho nos diferentes itens avaliados. Alguns dos principais levantamentos se ocupam especialmente das publicações, enquanto outros se centram no que as instituições apresentam nas grandes áreas do conhecimento, consideradas individualmente. A presença de ganhadores do Prêmio Nobel no quadro docente e o índice de internacionalização – ou seja, quantos alunos e professores estrangeiros a universidade recebe e quantos envia a outros países – também são levados em conta em maior ou menor grau.

O Professor Emérito da Faculdade de Direito da USP e presidente da Fapesp, Celso Lafer, cita a elevada produção científica da USP como um dos fatores que a colocam entre as maiores universidades do mundo. Cerca de 50% da ciência brasileira é feita no Estado de São Paulo, e metade disso vem da USP, calcula. “Todos esses rankings mostram a presença crescente da reputação da USP no plano internacional, o que é muito bom e demonstra que ela está indo por um bom caminho”, acrescenta Lafer. “Como todos os indicadores, os rankings medem algumas coisas e deixam de medir outras. No caso das ciências humanas, compreendo a dificuldade de dar conta da complexidade desse universo. Os rankings dão um sentido de direção que é importante.”

Reputação – O ranking internacional que “deu origem à série” foi produzido pela Shanghai Jiao Tong University, da China, em 2003. Seu objetivo era comparar as universidades do país com as congêneres dos Estados Unidos e Europa. “Inicialmente havia essa preocupação, mas depois surgiu outro elemento que teve grande influência: dar informação aos alunos para a escolha da universidade em que iriam estudar”, diz o professor José Roberto Drugowich de Felício, assessor da Pró-Reitoria de Pesquisa da USP. A partir de então, outros levantamentos foram surgindo.

Nos principais rankings internacionais, a USP é a primeira universidade latino-americana, e na maioria deles sua classificação vem subindo ano após ano. No World University Rankings (WUR), elaborado pela Times Higher Education, por exemplo, a USP passou da posição 232, em 2010, para a 158 neste ano. Ou seja, galgou 74 posições em dois anos, é a única da América Latina entre as 200 primeiras e, em 2012, está empatada com a Universidade de Birmingham e à frente da de Newcastle, duas tradicionais escolas do Reino Unido, cita Drugowich.

O professor José Goldemberg, ex-reitor da USP, lembra que os diferentes critérios usados pelos rankings explicam a oscilação da Universidade, ora colocada entre as 50 melhores, ora numa posição mais baixa. “De qualquer forma, a USP está relativamente bem posicionada. Isso reforça a autoestima do corpo docente e dá confiança aos dirigentes da Universidade de que ela está se movendo no rumo certo.”

Avaliação – Docente do Instituto de Física de São Carlos (IFSC) e da Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras de Ribeirão Preto (FFCLRP) da USP, Drugowich ocupou cargos na Administração Central da Universidade e também passou pelo Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq). Essas e outras experiências foram decisivas para que o reitor João Grandino Rodas o convidasse a coordenar o Grupo Permanente de Integração de Dados do Sistema Acadêmico da USP. O grupo reúne representantes de todas as Pró-Reitorias e de outros órgãos, e foi criado em 2010 para consolidar as informações demográficas, de desempenho e de financiamento nas diferentes atividades-fim da Universidade disponíveis em vários sistemas e bases de dados. São essas informações que abastecem as instituições que elaboram os rankings.

Para os professores ouvidos pelo Jornal da USP, a pesquisa mantém papel preponderante nos levantamentos internacionais porque é mais fácil mensurar os seus índices – critérios como publicações, citações, impacto etc. são consagrados e de checagem mais objetiva. “A principal mensagem que o conjunto de rankings nos dá é de que melhoramos muito em pesquisa, mas há espaço para progredirmos mais”, afirma o pró-reitor Marco Antonio Zago. Os números, é claro, não devem estar dissociados da qualidade – mas, falando neles, em termos mundiais a USP é a quinta universidade em publicações e a que mais forma doutores.

A avaliação de outros itens, como qualidade do ensino ou atividades culturais, exige critérios diversos. No caso da graduação, por exemplo, algumas instituições buscam identificar a trajetória dos egressos da universidade, embora essa seja uma medição bem mais complexa e que inevitavelmente inclui subjetividade.

Especialistas da USP concordam que os rankings terão cada vez mais o papel de instrumentos de avaliação das universidades. O ex-reitor José Goldemberg (1986-1990) causou rebuliço na USP quando determinou que era preciso fazer o levantamento da produção dos trabalhos de alunos e professores. Para esses especialistas, a Universidade é um órgão público que recebe dinheiro público para cumprir determinadas tarefas. Não se espera que uma universidade pública somente forme profissionais. Ela tem que formá-los com qualidade, mas também tem que desenvolver pesquisa e estar na fronteira do conhecimento.