Notícia

Diário Popular (Pelotas, RS) online

A realidade dos jornalistas mutantes

Publicado em 20 janeiro 2014

por Carlos Eduardo Behrensdorf, jornalista

 

No fim de semana escolhi minha cadeira predileta, cruzei as pernas, ajustei os óculos de leitura e triturei quase uma centena de páginas do trabalho Quem é o jornalista brasileiro? Perfil da profissão no país. A realização é do Programa de Pós-Graduação em Sociologia Política da UFSC, em convênio com a Federação Nacional dos Jornalistas - Fenaj.

 

Realização da Universidade Federal de Santa Catarina, Centro de Filosofia e Ciências Humanas, Departamento de Sociologia e Ciência Política, Programa de Pós-Graduação em Ciência Política e o Núcleo de Estudos sobre Transformações no Mundo do Trabalho em convênio com a Fenaj. O apoio é do Fórum Nacional dos Professores de Jornalismo - FNPJ e da Associação Brasileira dos Professores de Jornalismo - SBP - Jr.

 

No embalo, li mais quatro páginas de um estudo da Universidade de São Paulo (USP), conduzida por Roseli Figaro, coordenadora do Centro de Pesquisa em Comunicação e Trabalho da Escola de Comunicações e Artes da Universidade de São Paulo (ECA/USP).

 

Procurei me classificar no tempo atual. Neste ano de 2014 completarei 50 anos de profissão. Depois da “carteira assinada” durante mais de 40 anos virei freelancer. As redações não têm mesa para quem chegou aos 75 anos, mesmo sem bronquite, surdez ou alguma outra caduquice mais evidente.

 

Pela pesquisa do primeiro trabalho agora sei que vivo num mundo profissional no qual 64% são mulheres e 36% homens. Estou classificado entre prováveis 8% ou bem menos, na chamada faixa etária acima de 51 anos. Atenção gurias: as mulheres jornalistas mais jovens, ganhavam (ganham?) menos que os homens, eram maioria em todas as faixas até cinco salários mínimos e minoria em todas as faixas superiores a cinco salários.

 

Metade dos jornalistas ouvidos se considerava de esquerda, mas quase um terço refutava qualquer classificação ideológica e nove em cada dez jornalistas não eram filiados a partidos políticos.

 

A pesquisa conduzida pela professora Roselí Figaro confirmou o que eu sabia por experiência, ao vivo na luta pela sobrevivência na estrutura do mercado de trabalho em Brasília, que não deve ser muito diferente de outras praças.

 

“A reestruturação produtiva ocorrida no mundo do trabalho, principalmente a partir dos anos 1990, transformou as relações de trabalho”, afirma a professora Roselí. “Foi a partir desta década que aumentou o número de jornalistas contratados sem registro em carteira profissional, abrindo caminho para novas formas de contratação, como terceirização, contratos de trabalho por tempo determinado, contrato de pessoa jurídica (PJ), cooperados e freelancers.”

 

Concordo com a professora quando ela recomenda uma transferência dos chamados “saberes profissionais” entre os mais jovens e os mais velhos. Como diz o Carlos Chagas, agora professor aposentado, “tendo em vista a parafernália tecnológica que nos alcançou, os jovens precisam ter mais paciência do que nós”. Assino embaixo.

 

No primeiro trabalho responderam a enquete 2.731 jornalistas de todas as unidades da federação e do exterior; no segundo, mais 538. Total: 3.269 profissionais de comunicação.

 

Roseli Figaro, responsável pela pesquisa O perfil do jornalista e os discursos sobre o jornalismo: os estudos das mudanças no mundo do trabalho do jornalista profissional em São Paulo teve apoio da Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (Fapesp).