Notícia

Língua Portuguesa

A raiz do falar

Publicado em 01 fevereiro 2008

Por Mário Eduardo Viaro

Embora boa parte do vocabulário, da sintaxe e de outras tantas decisões ilógicas da língua nos tenham sido impostas na tenra infância, outra parte é fruto da convenção.

As palavras migram de uma língua para outra com muita facilidade, independentemente do tronco lingüístico

Muito se comenta sobre as relações entre a gramática histórica e o darwinismo. Na verdade, os estudos que atrelam uma origem motivada por um ancestral comum é anterior a Darwin. A própria narrativa da Torre de Babel aponta para uma língua ancestral, sobre a qual Deus teria atuado, fazendo surgir outras que se diferenciavam dela. O biólogo Nelson Papavero relembra, em sua História da Biogeografia no Período Pré-Evolutivo (São Paulo: Plêiade/Fapesp, 1997), a figura do sábio Athanasius Kircher (1602-1680), o qual, em 1675, teorizava que as espécies animais existentes hoje em dia não foram exatamente as transportadas por Noé em sua arca: ele só teria levado nela os ancestrais dos animais modernos que, ao cruzarem uns com os outros, teriam gerado as espécies atuais. Assim, um animal chamado pardo, citado pelos antigos, teria cruzado com o camelo e gerado a girafa (donde, o nome científico Giraffa camelopardalis, vide Língua 20). O mesmo pardo, ao cruzar com o leão, teria gerado o leopardo; o rinoceronte seria descendente do unicórnio etc. Relatos de seres fabulosos, para ele, não podiam ser desconsiderados. Darwin, anos depois, valer-se-ia da idéia do ancestral para seu modelo evolucionista.

Em língua, os insights do húngaro Sámuel Gyarmathi (1751-1830), do dinamarquês Rasmus Rask (1787-1832) e do alemão Franz Bopp (1791-1867) formariam a base para a gramática histórico-comparativa, que adquiriria tonalidades biológicas bem mais tarde, com o alemão Schleicher (1821-1868). Dessa forma, uma língua, segundo a metáfora biológica, nasce, cresce, reproduz-se e morre. O atomismo do indivíduo biológico passa a ser transposto para a língua e a geração seguinte de lingüistas (os chamados neogramáticos) radicalizará essa visão, dentre eles, o mais famoso de todos, o suíço Ferdinand de Saussure (1857-1913), com seu princípio, depois transformado em dogma, do sistema. Saussure, após sua morte, recebeu, por muitos anos, o título de "Pai da Lingüís­tica", diminuindo assim todo o imenso trabalho dos alemães. Uma germanofobia não é de todo excluída nessa titulação. Esse título, todavia, foi-lhe retirado, aos poucos, a partir do momento em que os americanos entram em cena no pós-guerra. Aí, fala-se de uma lingüística científica não mais a partir de Saussure, mas do americano Chomsky...

Mas, se voltamos nossos olhos à metáfora biológica, entendemos que, como em toda metáfora, existe uma limitação. A língua não se compara a um indivíduo sob todos os ângulos: se ela tem uma organização interna, por um lado, o que aproximaria as duas realidades, por outro, nela, indivíduos não se mesclam ao longo de sua vida e formam seres híbridos, pois estaríamos entendendo um indivíduo como algo fluido e amorfo. Nesse sentido, muitos levantaram questionamentos. A mais famosa reação à árvore genealógica das línguas vem do alemão Johannes Schmidt (1843-1901) e sua Teoria das Ondas, a qual mostra que as línguas se entrecruzam como ondas geradas por pedras lançadas sob a superfície de um lago. Na verdade, os dois modelos estão parcialmente certos: ambos não são antagônicos, mas complementares. Se, por um lado, é verdade que há herança de certas palavras de uma geração para outra e uma conservação ao longo de séculos, por outro, também é verdade que há inovações, visíveis mesmo ao longo de uma existência individual.

Os elementos que mais se conservam em sua forma pertencem, em grande parte, ao chamado inventário fechado da língua: são artigos, preposições, pronomes, numerais, já os que mais inovam pertencem ao inventário aberto: substantivos, adjetivos, verbos. Um pronome como tu sobreviveu praticamente do indo-europeu até o português do século XV, quando foi, aos poucos, sendo substituído por você. O conservacionismo dos pronomes se vê inclusive na preservação das declinações latinas (ego > eu, mihi > mim, me > me, mecum > migo > comigo). Contrariando esse esquema, as conjunções, apesar de formarem um inventário fechado, são muito pouco conservadoras (praticamente, da extensíssima gama de conjunções latinas, apenas et > e, nec > nem, aut > ou, si > se e quando > quando se conservaram). Também há subgrupos que se comportam distintamente: os pronomes indefinidos não são tão conservadores quanto os demais pronomes. A mudança de sentido ocorre paralelamente, pois é um fenômeno à parte: todas as preposições portuguesas são herdadas de preposições latinas (ad > a, de > de, cum > com) ou provêm de advérbios ou aglomerados preposicionais (de ex de > desde). O caso de até é polêmico: uns apontam origem árabe, outros uma derivação da rara preposição tenus (embora eu esteja convencido, como já apontei em artigos científicos, de tratar-se de uma origem mais simples, proveniente da preposição intra, donde também provieram formas antigas como tra, ta, atra, atá, enta, inté, tro, atro etc.).

Desse modo, o inglês é considerado língua germânica e não língua românica, apesar do imenso vocabulário neolatino, porque seu inventário fechado é muito aparentado (ao menos na origem) com o do alemão, sueco, dinamarquês. O persa é língua indo-européia e não semítica, apesar do enorme vocabulário árabe, pelo mesmo motivo.

O modelo da árvore genealógica de Schleicher afilia, portanto, o inventário fechado à evolução, mas é defeituoso com relação ao inventário aberto, para o qual funciona indubitavelmente melhor o modelo das ondas de Schmidt. Palavras migram de uma língua para outra com muita facilidade, independentemente do tronco lingüístico. Assim, palavras chinesas entraram no vocabulário de muitas línguas asiáticas que não tinham nenhuma relação genealógica (vietnamita, coreano, japonês etc.).

Pela teoria de Schmidt, as línguas avançam como ondas geradas por pedras num lago

Palavras africanas entraram no português com a mesma facilidade das palavras formadas com radicais greco-latinos. Não existe nenhuma língua do mundo impermeável a esse fato, por mais que o anacrônico chauvinismo purista ainda esteja longe de deixar de existir. Usar estrangeirismo nunca foi algo reprovável, mas alimentar uma xenofobia disfarçada de preocupação pedagógica, onde se mesclam orgulho nacionalista e menosprezo à cultura alheia (motivado por frustrações alheias à língua), isso sim, é algo lamentável. O estrangeirismo revela apenas uma lacuna referencial dos signos e sempre foi a forma mais natural de resolver esse problema (muitas vezes uma tecnologia nova vem de fora junto com seu nome estrangeiro). Foi assim desde os egípcios até os românticos, que começaram a problematizar o fenômeno, levando o fato para o lado emocional, num crescendum que culminou nos populismos nazi-fascistas e nas guerras frias. A verdade é: se fosse possível retirar todas as palavras que tomamos emprestadas de outras línguas (sobretudo do francês, responsável pela cunhagem de palavras de origem culta), ficaríamos às voltas apenas com algumas centenas delas, todas inúteis para qualquer tipo de raciocínio elaborado.

Tabus

Mas rompimentos bruscos não inexistem na história das línguas. O fenômeno do tabu é o mais curioso de todos. Conta-nos Rosário Farani Mansur Guérios (1907-1987), na sua obra Tabus Lingüísticos (1956), que as culturas ocidentais tabuízam palavras que se referem ao nome de Deus, do Diabo, de excreções fisiológicas, de partes do corpo relativas às mesmas excreções, bem como ao ato sexual. Palavras tabus são fáceis de reconhecer no dicionário, pois têm muitos sinônimos: são uma espécie de obsessão cultural. Guérios relata em seu livro sobre culturas que tabuízam coisas completamente diferentes: o próprio nome do falante, o nome do marido, da esposa, dos filhos, do líder. Conta que na Rodésia, entre os ilas, "se, por exemplo (...), um homem for chamado Shamatanga 'feijão'(...) (sua mulher) não deve falar de melões com seu nome usual matanga (por causa da semelhança), mas dirá, p. ex., malúmi ángu, i. é, 'meus maridos'" (p.32). Conta ainda que em Madagáscar, quando "a princesa Rabodo veio a reinar (1863), adotou o nome de Rasoeherina. Por este motivo, soherina 'bicho-da-seda', passou a zany-dandy 'filho da seda'". Isso mostra uma ruptura enorme na história de uma língua. A hipótese de uma tabuização maciça de palavras e conseqüente modificação explicaria a indeterminação da origem de extensa parte do vocabulário japonês. Como essas mudanças dependem apenas de um acordo interno da comunidade, esquecido ao longo de algumas gerações, é possível imaginar a dificuldade que um lingüista pode ter se quiser levar a fundo seu trabalho de pesquisa etimológica quando se depara com esse fenômeno.

Em suma, a língua não é um ser independente do falante. Muito embora boa parte do vocabulário, todo o inventário fechado, a sintaxe e outras tantas decisões ilógicas da língua (gêneros dos substantivos, tempos verbais, declinações etc.) nos tenham sido impostas na tenra infância, outra parte é fruto de uma convenção e de um acordo. O inventário aberto é parcialmente maleável, o sentido das palavras, mais ainda: a norma, a entonação, a pragmática da língua se altera mais de uma vez diante de nossos olhos, ao longo de uma vida. Como o próprio Saussure nos dá a entender, a sincronia é pura abstração, é método, é recorte, não é a realidade. A mudança diacrônica, por outro lado, faz parte da essência de todas as línguas.

Mário Eduardo Viaro é professor de língua portuguesa da USP, autor de Por Trás das Palavras: Manual de Etimologia do Português (Globo: 2004)