Notícia

A Tribuna (Santos, SP)

A química do medo

Publicado em 24 maio 2010

Pesquisa feita por cientistas brasileiros e norte-americanos revela, por meio do estudo do sistema olfativo, informações inéditas sobre como certos comportamentos são gerados pelo cérebro. No futuro, os desdobramentos desse trabalho podem ajudar pessoas que hoje sofrem com distúrbios como a Síndrome do Pânico.

Quem afirma é o professor Fabio Papes, do Departamento de Genética, Evolução e Bioa-gentes do Instituto de Biologia IB da Unicamp, um dos autores do trabalho.

Segundo ele, os resultados são subsídios importantes para estudos na área médica, destinados à compreensão de doenças comportamentais humanas.

SEM MEDO

As investigações, que contaram com a participação de especialistas do Scripps Research Institu-te, da Califórnia EUA , foram feitas com camundongos de laboratório.

Quando expostos aos odores de predadores, como urina de gato, os camundongos manifestaram comportamentos associados à sensação de medo, tais como mudanças no ritmo de batimentos cardíacos, na taxa respiratória e no posicionamento na gaiola, além da liberação de hormônios de estresse.

Diferentemente dos seres humanos, onde a visão é o órgão sensorial mais desenvolvido, em muitas outras espécies o olfato permite captar moléculas presentes no ar que geram comportamentos ligados a situações que vão do acasalamento ao medo.

Entretanto, para surpresa dos cientistas, quando submetidos ao odor de predadores, camundongos mutantes nos quais um determinado gene ligado ao olfato foi desligado não apresentaram nenhuma reação - o medo, inato, desapareceu.

ENIGMÁTICO

Curiosamente, esse gene está associado a um pequeno e enigmático órgão sensorial presente no nariz de vertebrados, chamado de vomeronasal. Já que essa foi a única mudança nos animais mutantes, Papes afirma que tal experimento fornece forte evidência de que os odores de predadores qúe geram medo são detectados pelo órgão vomeronasal - também presente na cavidade nasal dos seres humanos.

Como as áreas do cérebro que respondem a essas proteínas de medo são as mesmas que respondem a situações de medo no ser humano, estudá-las nos animais é um caminho para entender a gênese de distúrbios comportamentais relacionados ao medo em seres humanos. Ainda não estudamos maneiras para tratar essas doenças, mas fazemos pesquisa básica que levará à compreensão detalhada de como o cérebro funciona para gerar o comportamento. Um dia será possível modular tais comportamentos com base nesses resultados. Trata-se de uma descoberta importante para a área médica , segundo Papes.

DEPRESSÃO

O professor lembra que o número de pessoas com doenças comportamentais ou que fazem uso de drogas para modular comportamentos é bastante significativo em nossa sociedade. Estima-se que três em cada dez pessoas tomem medicamentos para modular, tratar ou controlar problemas comportamentais nos EUA.

Os casos variam de efeitos simples até condições graves. Segundo o professor, os seguintes exemplos são relacionados em maior ou menor grau aos comportamentos estudados na pesquisa: fobias, Síndrome do Pânico, estresse pós-traumático PTSD , além de alguns aspectos da esquizofrenia e do autismo.

Em uma relação interessante, ele acrescenta que pessoas que não possuem olfato têm tendência à depressão e são mais suscetíveis a uma série de distúrbios e disfunções comportamentais. Com Agência Unicamp

Odor influencia comportamento sexual

SM Há muitos anos cientistas têm procurado partes do cérebro cujas funções poderiam explicar as grandes diferenças entre os comportamentos masculino e feminino. Agora, um novo estudo indica que a procura talvez tenha sido feita no lugar errado, uma vez que a origem de tais diferenças pode nem mesmo estar no cérebro.

Segundo Catherine Dulac, Ta-li Kimchi e Jennings Xu, da Universidade Harvard e do Instituto Médico Howard Hughes, nos Estados Unidos, o epicentro do comportamento sexual em muitas espécies pode ser o órgão vomeronasal.

A pesquisa indica que defeitos induzidos na estrutura desse órgão levaram fêmeas de camundongos a adotar comportamentos masculinos. Ao mesmo tempo, abandonaram condutas femininas, como aninhar filhotes. *

Os resultados são surpreendentes. Ninguém imaginava que uma simples mutação como essa poderia induzir fêmeas a se comportar como machos , disse Catherine.

Segundo ela, há duas interpretações possíveis. Ou o órgão vomeronasal pode ser necessário para o crescimento de um circuito neural específico das fêmeas durante o desenvolvimento, ou o cérebro de uma fêmea madura de camundongo pode requerer a atividade vomeronasal para reprimir o comportamento masculino .

Para testar as alternativas, os cientistas analisaram outro grupo, dessa vez não geneticamente modificado, mas com o órgão vomeronasal extirpado. O resultado foi que as fêmeas passaram a se comportar também como machos, apesar de apresentar níveis de testosterona e estrogênio indistinguíveis dos de fêmeas normais.

Nosso trabalho sugere que circuitos neuronais por trás de comportamentos tipicamente masculinos são desenvolvidos e persistem no cérebro da fêmea

de camundongo, mas são reprimidos pela atividade normal do órgão vomeronasal , destacou Catherine.

A cientista ressalta que os resultados não necessariamente se aplicam aos seres humanos. Diferentemente dos camundongos, cujo comportamento sexual depende basicamente da ação do olfato, os humanos respondem a uma combinação de estímulos sensoriais e visuais.

Apesar disso, a pesquisadora aponta que a descoberta deverá abrir novos caminhos para estudos sobre o comportamento sexual humano.

Com Agência Fapesp