Notícia

Revista França-Brasil

A quarta revolução é digital

Publicado em 04 dezembro 2018

Por Clarisse Sousa

Uma grande transformação vem sendo desencadeada pelas novas tecnologias adotadas nos processos produtivos: é a Indústria 4.0, também conhecida como quarta revolução industrial ou manufatura avançada. São soluções combinadas que envolvem inteligência artificial, robótica, big data, impressão 3D, computação na nuvem, internet das coisas (IoT) e muito mais. Graças a esses recursos, os algoritmos das máquinas são capazes de analisar dados a uma velocidade em que um humano não conseguiria durante uma vida inteira.

Carlos Américo Pacheco, presidente do Conselho Técnico-Administrativo da Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (Fapesp), considera que as mudanças devem ser significativas. “Essas tecnologias interagem entre si e têm produzido mudanças técnicas em várias dimensões”, aponta.

O termo Indústria 4.0 surgiu na Alemanha, em 2011, como uma iniciativa estratégica do governo, em parceria com universidades e a própria indústria, para impulsionar a produção e o uso de tecnologias da informação. Na França, uma iniciativa parecida começou a se desenvolver partir de 2013, com a Indústria do Futuro e o lançamento do programa Nova França Industrial (NFI). O objetivo era promover a modernização das indústrias e sua competitividade, com a difusão de tecnologias associadas à Indústria 4.0.

De acordo com a carta “Indústria 4.0: a Indústria do Futuro e a iniciativa NFI”, publicada pelo Instituto de Estudos para o Desenvolvimento Industrial (Iedi) da França, o banco público BpiFrance direcionou 2,2 bilhões de euros para pequenas e médias empresas modernizarem instalações industriais. Grandes empresas também receberam aportes para investir em tecnologia digital, robótica e eficiência energética, entre outras evoluções. O governo francês instituiu ainda um benefício fiscal, da ordem de 5 bilhões de euros, para empresas que modernizassem a produção, entre abril de 2015 e abril de 2017.

No Brasil, algumas iniciativas, como a “Agenda Brasileira para a Indústria 4.0”, lançada em março deste ano pelo Ministério da Indústria, Comércio Exterior e Serviços, em parceria com a Agência Brasileira de Desenvolvimento Industrial, tentam acelerar a modernização das indústrias, que caminha a passos lentos. O programa contempla ações que vão da difusão desse novo conceito à disponibilização de linhas de crédito mais acessíveis para que indústrias de todos os portes possam investir na adoção ou geração de novas tecnologias. A Agenda quer aproximar indústrias e startups, por meio do programa Startup Indústria 4.0, que destinará R$ 30 milhões até 2019, para que empresas nascentes desenvolvam soluções tecnológicas para as indústrias nacionais.

Atualmente, o Brasil ocupa a 69ª colocação no Índice Global de Inovação e a indústria representa menos de 10% do Produto Interno Bruto (PIB). Além disso, de 2006 a 2016, a produtividade da indústria caiu mais de 7%. Com o programa, o governo brasileiro quer ajudar a transformar pelo menos 50 indústrias e cem startups até 2019. Para isso, instituições financeiras devem oferecer linhas de crédito para a modernização das plantas produtivas, produção de máquinas ou sistemas que somam aproximadamente R$ 9,1 bilhões.

A Confederação Nacional da Indústria (CNI) vem trabalhando o tema desde 2015. No ano passado, lançou o estudo “Oportunidades para a Indústria 4.0: aspectos da demanda e oferta no Brasil” para mapear o impacto das inovações em 24 setores brasileiros. Ele analisa o grau de urgência para a adoção de tecnologias digitais e oferece propostas para auxiliar o País a se desenvolver.

Segundo Vinícius Fornari, especialista em políticas e indústria na CNI, o desenvolvimento da indústria 4.0 apresenta desafios tanto para o setor público quanto para o privado, “mas é, acima de tudo, uma gigantesca oportunidade”. Ele explica que os atrasos em produtividade e tecnologia no Brasil podem ser supridos a partir da entrada dessa revolução. “É essencial tanto para setores que já são competitivos internacionalmente, para se manterem competitivos, quanto para aqueles com gap tecnológico”. Para que isso ocorra, no entanto, “entendemos que o governo tem papel fundamental na criação de políticas para o desenvolvimento e a adoção das tecnologias da Indústria 4.0”, defende.

Indústria francesa no Brasil

Para Pacheco, da Fapesp, o atraso da modernização da indústria brasileira é reflexo da crise econômica: “O grau de penetração das novas tecnologias é heterogêneo e depende de cada setor. No entanto, há setores que já estão avançados nesse sentido, como o agronegócio. Nesse segmento, observa-se um grande avanço da instalação de sensores para controles de umidade, clima, níveis de insumos e, mais ainda, nas máquinas agrícolas.” O agronegócio é um dos poucos setores que mantiveram resultados positivos em meio ao declínio de outros segmentos. Acredita-se que a agricultura de precisão, que é dotada de ferramentas da Indústria 4.0, como IoT e big data, é fator preponderante.

O diretor da Fapesp lembra que “existe uma nata de empresas que estão na ponta, avançadas nesse processo”. Esse é o caso de muitas indústrias francesas presentes no Brasil. A aposta nas tecnologias da Indústria 4.0 tem sido foco, por exemplo, do Grupo PSA, que se dedica a modernizações pelo projeto Fábrica do Futuro.

De acordo com Jean Mouro, vice-presidente sênior de Operações Monozukuri do grupo na América Latina, as fábricas no Brasil e na Argentina têm diversas iniciativas a mostrar. “O sistema de medição a laser é uma das ferramentas implementadas na fábrica de Porto Real (RJ) para obtermos melhor qualidade nos veículos”, exemplifica. Segundo ele, com medição robotizada, a geometria de cada veículo é avaliada e qualquer problema pode ser corrigido imediatamente. “Outro exemplo é o processo de full kitting. Temos ‘zonas de kitting’, onde peças são colocadas em carrinhos transportados por robôs, que abastecem os operadores na borda da linha, aumentando a eficiência”, conta (uma curiosidade: monozukuri é uma expressão em japonês para “fabricação”).

O grupo recentemente anunciou a criação de um laboratório de inteligência artificial (IA), o OpenLab, para estudos de veículos autônomos e serviços de mobilidade, entre outros. “O trabalho enfoca algoritmos de IA para a condução de veículos autônomos em ambientes complexos, manutenção preditiva, otimização da concepção dos grupos motopropulsores e a modelagem de sistemas, para oferecer serviços de mobilidade adaptados às necessidades”, explica Mouro. Outra iniciativa é a simulação digital de motores, uma forma mais rápida e barata do que os protótipos.

A Renault é outra montadora francesa atenta a essas transformações. A empresa levou, entre outras inovações, impressão 3D para o complexo Ayrton Senna, em Curitiba. Na fábrica foram adotadas tecnologias como realidade aumentada, cloud computing, big data e IoT, entre outras. As soluções de realidade aumentada ajudam o operador na parte cognitiva. “A tecnologia mostra as operações que precisam ser feitas e o operador se concentra na qualidade do processo. Nosso foco é ter uma fábrica com alta produtividade, otimização de custos e, principalmente, elevada qualidade dos produtos”, explica Angelo Figaro, diretor de IS/IT (sistemas e tecnologia da informação) da Aliança Renault-Nissan para a América Latina.

Outro exemplo de companhia francesa adepta da Indústria 4.0, para se manter atualizada e competitiva, vem do Grupo Safran. “Desenvolvemos um projeto específico para a introdução dessas tecnologias nos diferentes negócios. Com a participação direta da Safran Tech, nosso centro de pesquisa e desenvolvimento, e a participação de universidades e centros tecnológicos, estamos nos preparando para essa nova era da indústria”, conta o diretor de operação Jonatan Melo, da Safran Helicopter Engines Brasil. As ações incluem projetos para a introdução de realidade aumentada e virtual, manufatura aditiva, simulação, clone digital, robótica e AI, já em andamento no grupo.

O projeto Clone Digital da Safran, por exemplo, permite monitorar equipamentos críticos e identificar problemas potenciais a distância, com a identificação e realização de intervenções necessárias. “Cada vez que nos deparamos com falhas necessitamos da vinda de técnicos da França, o que, além de demora, eleva custos. O clone digital ajuda a solucionar problemas remotamente com interação de equipes da França e do Brasil”, sublinha Melo.

O momento desafiador pelo qual passa o Brasil se tornou mais um estímulo para a Saint-Gobain também investir em mudanças na sua estrutura produtiva no País. A companhia está remodelando operações, flexibilizando processos de produção e apostando em novas tecnologias. “É um movimento contínuo rumo à inovação iniciado há bastante tempo. Porém, agora temos de crescer e de nos adaptar mais rapidamente. Esses novos conceitos [da Indústria 4.0] são o motor da evolução do nosso sistema produtivo, visando aumento de produtividade e competitividade”, destaca Elmar Campos da Costa, diretor de Suprimentos e Programas de Excelência Operacional na Saint-Gobain.

Entre as iniciativas da Saint-Gobain em novas tecnologias, o executivo cita o sistema de construção a seco e custo acessível pensado para estimular a modernização de processos na indústria da construção civil. “Também desenvolvemos um sensor para medir níveis de conforto de um ambiente em quatro aspectos: umidade do ar, luminosidade, temperatura e ruídos”, salienta.

Em algumas de suas fábricas, a companhia utiliza tecnologias como os cobots, robôs colaborativos que interagem com humanos. “A Saint-Gobain tem 176 projetos em Indústria 4.0 em andamento, considerando desde a fase de infraestrutura até a estruturação. Todas essas tecnologias têm como foco a resolução de problemas de maneira mais rápida e assertiva, com redução de custo, aumento de produtividade e melhor eficiência”, diz Costa. Ele conta que a adoção de cobots contribuíram para ampliar o índice de produtividade em cerca de 30%, enquanto iniciativas de inteligência artificial e learning machine elevaram em 25% a produtividade na central de cadastros de materiais.

Impactos positivos

Mesmo com os contínuos avanços, o desenvolvimento da Indústria 4.0 no Brasil e no mundo ainda está engatinhando. O consenso é de que empresas que desejam sobreviver devem investir em otimização de processos, inclusive reduzindo desperdícios e fazendo o uso inteligente de materiais. “O pacote de novas tecnologias não afeta somente a operação fabril”, alerta Carlos Pacheco, da Fapesp. Segundo ele, grandes mudanças tecnológicas devem se estender aos segmentos de logística, distribuição e varejo, igualmente importantes quando se pensa em ganhos globais de produtividade e competitividade do negócio.

“Se a indústria produzir de forma inteligente, com melhor uso de recursos, as pessoas consumirão assim também. É um ciclo benéfico para todos”, considera Angelo Figaro, da Renault. Ele aponta que a personalização da manufatura é um dos impactos tangíveis das mudanças. Isso significa que a demanda de produção deve ficar muito mais conectada às necessidades das pessoas e grupos de consumidores. A produção seriada, completamente uniforme, pode estar com os dias contados. O uso de dados na indústria permite fabricar itens inteligentes e ajustáveis”, conclui. De fato, sobram razões para acreditar que essas transformações são mesmo uma revolução.