Notícia

O Dia (SP)

A quarta força militar

Publicado em 26 novembro 2006

Por Luis Nassif

Durante um dia de discussões sobre tecnologia militar, em evento promovido semana passada pelo Projeto Brasil (www.projetobr.com.br), o ponto que saltou à vista foi a carencia de um novo-agente, institucional, que possa coordenar os esforços de pesquisa e desenvolvimento do setor — hoje distribuídas sem maior coordenação pelas três forças.
Por exemplo, na área de pesquisa acadêmica, o grande agente indutor são os sistemas de avaliação, não apenas de trabalho como de instituição. Os sistemas de avaliação (Capes, CNPQ, Fapesp) exiem publicidade das pesquisas e avaliação. Na industria da segurança, muitas pesquisas são sigilosas. O Instituto Tecnológico da Aeronáutica (ITA), por exemplo, é prejudicado pelo fato de muitas de suas pesquisas terem caráter sigiloso.
O mesmo se aplica aos financiamentos do BNDES. O banco exige planos de negócios detalhados. Na indústria de segurança, seria inviável, pois identificaria questões estratégicas para adversários ou concorrentes.
O modelo que o país poderia se espelhar seria o da DGA francesa, cujo funcionamento foi explicado, no seminário, por Yves Robins, vice presidente da Dassault Aviation. A DGA é a responsável pela industrialização de todo o sistema de defesa da França. Foi constituída quando a França decidiu desenvolver equipamentos nucleares de dissuasão.
E considerada uma espécie de quarta força, ao lado do Exército, Marinha e Aeronáutica. Seu papel e fornecer às Forças Armadas todos os equipamentos necessários, coordenar as pesquisas e obter a sinergia com o meio acadêmico e empresarial em sete campos de tecnologia de base, entre os quais informática, matemática e robótica mecânica física de fluidos e sólidos: ótica e fotônica etc.
A OCA desenvolve uma política bastante ativa de prêmios e concursos na Europa. No ano passado montou um concurso franco-europeu, no qual juntou todas as universidades em um campus, para discutir o desenvolvimento de veículos sem piloto. O encontro gerou um conjunto grande de idéias sobre técnicas de propulsão e controle de vôos.
Um de seus principais projetos é o Programa de Estudos à Montante (PEA). Nele, a OCA determina em que área da tecnologia ela precisa avançar. Definida, se dirige à indústria civil e às universidades e encomenda esses avanços.
A nova geração dos radares de varredura alternativa do Ratard (novíssimo avião de combate da Dassault) foi desenvolvida e aperfeiçoada graças a essa fórmula do PEA.
Além disso, a DOA apóia teses, estágios, pós-doutorados. Nos últimos anos, a tecnologia militar passou a buscar cada vez mais sistemas de prateleira para desenvolver seus pro fetos, visando baratear o desenvolvimento e permitir a sinergia com outras aplicações. E aí mais uma vez, a centraliza ção nas mãos de um organismo central ajuda a dar foco aos investimentos.
Obviamente, modelo nenhum dará certo se não houver recursos orçamentários permanentes, e não sujeitos ao contingenciamento que tem marcado o superávit fiscal à brasileira.