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Gazeta Mercantil

A produtividade começa na Fapesp?

Publicado em 05 setembro 2007

Por Leonardo Trevisan, editorialista da Gazeta Mercantil

O fato parece muito ruim, e de verdade é: nos últimos 25 anos a produtividade do trabalhador brasileiro despencou. Dados da Organização Internacional do Trabalho (OIT) mostraram que em 1980 cada trabalhador gerava um valor agregado para a economia do País de US$ 15,1 mil por ano. Em 2005 esse valor caiu para US$ 14,7 mil. No ranking da OIT (publicado no Estado, em 3/9), a produtividade do brasileiro está em 65 posição entre 124 países. Em 1980, nosso trabalhador do setor industrial produzia 19% do valor agregado do colega americano; em 2005, caiu para 5%. Esses números são discutíveis, mas são significativos.

Baixa produtividade tem custo social alto. Por homem/horarabalho, segundo a OIT, o Brasil produz um quarto do americano, um terço do francês e pouco mais da metade do chileno. Apesar da baixa produtividade, conforme esse estudo, um brasileiro trabalha muito mais horas do que um europeu ou um americano. Portanto, alterar esse quadro não passa apenas por mais trabalho. Óbvio: quanto menor for a qualificação do trabalho, menor será a produtividade. A OIT mostrou que o pior desempenho do brasileiro está no setor de serviços, queda de 3,4% na produtividade ao ano. No setor industrial, em 1980, cada trabalhador agregava valor de US$ 7,1 mil por ano e em 2005 reduziu para US$ 5,6 mil. Nesse mesmo período, a taxa de produtividade de um chinês passou de 5% da alcançada pelo americano para 12%.

A escolaridade do trabalhador é importante, mas a máquina e a estrutura física que ele tem para produzir também é. E isso, óbvio, tem a ver com desenvolvimento tecnológico, bem ligado ao sentido que é dado ao ensino básico e superior. Esse problema é mundial, sem dúvida. A reportagem de capa da Newsweek , edição de 20 a 28/8 (Global Education — The race is on) mostra que China e Índia enfrentam o mesmo drama do Brasil: formaram, em 2005, 600 mil e 500 mil engenheiros, respectivamente, mas reconhecem que estão longe de formar gente capaz de gerar tecnologia. Aliás, elas querem desafiar a liderança dos EUA na área, mas insistem em que só falar de inovação não basta.

No Brasil parece que percorremos outro caminho. Em 24 de agosto, a Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo, a Fapesp, foi realocada da Secretaria do Desenvolvimento para a recém-criada Secretaria do Ensino Superior, junto à USP, Unicamp e Unesp. Os empresários criticaram. Em nota, a Associação Nacional de Pesquisa, Desenvolvimento e Engenharia das Empresas Inovadoras (Anpei) temeu pelo enfraquecimento dos laços da Fapesp com o setor produtivo. A direção da fundação rebateu garantindo que não haverá "nenhum prejuízo".

No entanto, os números da Fapesp mostram que em 2006 as três universidades receberam mais de 60% dos recursos da entidade (total de R$ 521 milhões), enquanto as empresas receberam diretamente para pesquisas só 5,8%. Se a melhor e a mais bem organizada agência de fomento faz essa divisão de recursos, talvez a busca de tecnologia que ajude o trabalhador brasileiro a produzir mais fique mesmo para depois. É uma pena.