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Jornal da Unicamp online

‘A produção científica se faz pela diversidade’

Publicado em 29 outubro 2018

Por Luiz Sugimoto

Programas de pós-graduação da Unicamp estão implementando políticas de ação afirmativa com cotas étnico-raciais, sob pioneirismo do Instituto de Filosofia e Ciências Humanas (IFCH), que já as adotou em nove programas, cinco deles desde 2015 – há um décimo programa, multicêntrico, sediado na Unesp e sem cotas. No lastro do IFCH seguiram o Instituto de Economia (IE), com política de cotas em seus dois programas (Ciência Econômica e Desenvolvimento Econômico), a Faculdade de Educação (FE) em Pedagogia e o Instituto de Estudos da Linguagem (IEL) em Teoria Literária.

“A produção científica se faz pela diversidade. O fato de se ter aberto a Universidade a pessoas com trajetórias variadas, vem trazendo novos debates, novos referenciais teóricos e novos objetos de pesquisa, enriquecendo a produção acadêmica dentro do IFCH”, afirma o professor Michel Nicolau Netto, coordenador de Pós-Graduação da unidade. “Temos observado resultados bastante importantes”, atesta.

Nicolau Netto recorda que as cotas étnico-raciais começaram a ser implementadas em edital de 2015, nos programas de Sociologia, Antropologia, Ciência Política, História e Ciências Sociais. “Os outros programas [Ambiente e Sociedade, Demografia, Filosofia e História] foram aderindo à política nos anos seguintes e, hoje, todos aqueles sediados no IFCH aplicam cotas étnico-raciais para pretos, pardos e indígenas, e dois deles também para pessoas com deficiência.”

O professor Mário Augusto Medeiros da Silva, coordenador do programa de Sociologia, conta como se deu o processo de implementação de cotas na pós-graduação do instituto, do qual foi um dos participantes, juntamente com alunos e outros docentes. “Os debates sobre ações afirmativas aconteceram em 2014, envolvendo professores (alguns tinham acabado de prestar concurso), a Frente Pró-Cotas (com uma maioria de pós-graduandos) e o Núcleo de Consciência Negra. Discutiu-se inicialmente uma política para a graduação do IFCH, mas em conversas com docentes mais antigos, chegamos à conclusão de que seria mais fácil iniciar as ações pela pós-graduação, que tem maior autonomia para definir a política de ingresso.”

Segundo Medeiros, a política de cotas étnico-raciais foi ratificada pela Congregação do IFCH em março de 2015, com os processos seletivos começando já no segundo semestre, para ingresso em 2016. “A Congregação entendeu a importância das ações afirmativas do ponto de vista da diversidade não apenas de pessoas, mas também da diversidade científica – logo à frente, no processo seletivo da Sociologia, vimos a variedade de temas sobre a sociedade trazidos pelos estudantes cotistas.”

Mário Medeiros lembra que em 2016 já houve um número expressivo de ingressantes por cotas, que representavam 25% dos pós-graduandos na maior parte dos programas – proporção que vem sendo mantida desde então. “Geralmente são homens e mulheres pretos e pardos, havendo ainda pouca procura por indígenas. Mas é uma política que tem continuidade e êxito em muitas direções. Este ano, por exemplo, temos 153 inscritos na Sociologia e 20% se declaram optantes pela política de cotas: no doutorado, são 80 inscritos e 13 declarados pretos, pardos ou indígenas; e, no mestrado, 73 inscritos com 15 optantes pelas cotas.”

Michel Nicolau Netto conta que a partir da implantação no IFCH, vários de seus professores e alunos foram chamados para discutir o tema em outras unidades da Unicamp. “A ideia foi se espalhando e, hoje, o Instituto de Economia tem editais de políticas afirmativas com cotas em seus dois programas, assim como a Faculdade de Educação, que possui apenas o de Pedagogia, mas que é o maior da Universidade e talvez do país, e o Instituto de Estudos da Linguagem, em Teoria Literária. Os coordenadores de pós-graduação dessas unidades formaram um grupo que vem discutindo políticas de expansão e de permanência de alunos nos programas.”

Divulgação

Divulgar a existência da política de cotas na pós-graduação é uma das dificuldades enfrentadas para a sua expansão, conforme o coordenador do IFCH. “No ano passado tivemos 13% de inscritos optando por esse sistema e, este ano, foram 20%. O número tem subido e, quanto mais programas aderirem, mais vai se criando a ideia de que a Unicamp possui uma política de ações afirmativas na pós. Temos trabalhado para mostrar que não se trata de política isolada de certos programas ou de um instituto, e sim que já se trata de uma política institucional. Tanto que a discussão na pós-graduação pautou a política de cotas étnico-raciais da Unicamp para a graduação.”

Mário Medeiros recorda que, em 2016, houve um primeiro seminário “comemorativo” para avaliar o que foi feito em 2015 e os rumos que a política de cotas tomaria. “A partir dali, nenhum programa retrocedeu na política, o que é absolutamente positivo. E é importante reiterar que professores e alunos do IFCH, tanto da graduação como da pós-graduação, participaram majoritariamente dos GTs [grupos de trabalho] criados pela Reitoria para debates sobre a política de ações afirmativas na graduação e de modificações nos sistemas de ingresso para o vestibular de 2019. Os GTs foram informados basicamente pelo que fizemos no IFCH.”

Conforme o coordenador do programa de Sociologia, ainda em 2015, os mentores da política no IFCH foram procurados por programas também de áreas fora das humanidades. “Fui pessoalmente à Engenharia Civil, Arquitetura e Urbanismo (que pautou agora a questão das cotas na Congregação), à Medicina e conversei com colegas e estudantes da Faculdade de Ciências Aplicadas de Limeira. O tema se espalhou pelas três grandes áreas do conhecimento. E também externamente, já que a colegas da Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas, a partir de nossas conversas, levaram o assunto para o Conselho Universitário da USP, que não tinha cotas na graduação nem na pós.”

Nicolau Netto ainda vê, no entanto, certa desinformação sobre a política de cotas e uma delas, segundo ele muito recorrente nos debates, é a oposição que se faz entre cotas e mérito. “É uma oposição tacanha. As pessoas ignoram, ou querem ignorar, que todos os programas de pós-graduação que adotam as cotas estabelecem um patamar mínimo de condições para ingresso. São todos alunos muito capacitados, tanto que, no IFCH, alguns deles têm bolsa Fapesp e fizeram suas qualificações e defesas nos prazos adequados – até hoje nunca tivemos qualquer problema com isso. É uma política que funcionou justamente porque não opõe as relações de mérito e de cotas: ela pressupõe o mérito.”

Apoio institucional

O coordenador da pós-graduação informa que 9% do total de pós-graduandos matriculados hoje no IFCH entraram pelo sistema de cotas, com resultados interessantes, mas também com muitos problemas. “A grande vantagem é que os programas são autônomos da própria universidade, o que permitiu que começássemos na pós-graduação, quando ainda não havia esta política na graduação. Por outro lado, não tivemos apoio institucional, sendo esta a primeira vez que falamos em outra instância [ao Jornal da Unicamp] que não seja dos institutos.”

Mário Medeiros ressalta o casamento feliz entre uma renovação do corpo docente da Unicamp e um movimento de expansão das formas de ingresso na pós-graduação e agora na graduação, renovando paulatinamente o corpo discente. “Isso é bom para a ciência, o resultado certamente será altamente positivo. Mas é preciso reforçar que a Universidade precisa se responsabilizar por isso, o que significa que os estudantes cotistas têm as mesmas necessidades que os não cotistas: estamos falando de bolsas, cujo número é limitado, bem como de moradia e acesso à saúde como condições de permanência.”

No caso da Sociologia, acrescenta Medeiros, foi possível garantir todas as bolsas de mestrado para cotistas e não cotistas desde 2015, mas para o doutorado o número de bolsas sempre foi menor em função do limite estabelecido pelo CNPq e pela Capes. “E a Fapesp, nos últimos anos, tem diminuído ou tornado mais difícil o acesso às bolsas de iniciação científica e de pós-graduação. Já a Moradia Estudantil não cobre todos os estudantes que demandam o seu uso, sendo que a política de cotas implica temas novos trazidos por estudantes que vêm de outras regiões do país. Nesse sentido, um apoio maior da instituição para a permanência desses alunos seria extremamente positivo.”

Mário Medeiros observa, finalmente, que a Capes havia anunciado, em 2015, a existência de um GT para que parte dos seus recursos para a pós-graduação do país fosse destinada a programas que tivessem ações afirmativas. “Esta discussão se perdeu e não foi retomada. Talvez, as universidades que possuem programas com essas políticas pudessem, por meio de suas pró-reitorias, recolocar a questão em discussão com as agências de fomento, como forma de suplementar e contribuir para a continuidade das ações, que têm se mostrado muito positivas. Tanto na graduação como na pós-graduação, os diagnósticos mostram que só tivemos a ganhar em termos de ciência brasileira.”