Notícia

Jornal Democrata

A produção científica e a falta de divulgação no Brasil

Publicado em 10 agosto 2019

Por Letícia Kaori Hanada

Ao nos depararmos com o atual cenário presente no Brasil, em relação às ameaças e aos ataques diretos à educação e à pesquisa, nos questionamos os possíveis motivos que fizeram com que chegássemos até o ponto crítico ao qual atualmente nos encontramos e esses motivos que aqui coloco não provém de uma única origem, a culpa não é só de um dos lados, quando digo que falhamos com a educação, digo que falhamos todos, pois se o barco afundar, afundaremos, talvez não de mãos dadas, mas sim todos juntos.

Conforme, o Diário Oficial de 29 de março de 2019, neste ano, o governo de Jair Bolsonaro determinou um contingenciamento de 29 bilhões de reais do orçamento federal. Nesse contingenciamento, o Ministério da Educação, o mais afetado, teve 5,8 bilhões de reais congelados, o que tem impacto direto sob as bolsas de estudo, principalmente no setor da pós-graduação, um setor responsável pela maior quantidade e qualidade da pesquisa no país: as universidades públicas são responsáveis por mais de 95% da produção científica. Ao me deparar com essa notícia me aterrorizei, talvez não só pela decisão tomada pelo presidente, mas também, e principalmente, pela população que não defendeu e não defende com unhas e garras a educação. E a partir disso, me pergunto: por quê? A resposta que obtive com a minha participação, durante toda a graduação, dentro do universo científico foi: Existe uma gigantesca falta de comunicação entre os cientistas, os jornalistas e a população. De um lado, os cientistas procuram obter resultados para suas pesquisas e esses resultados circulam sim, mas dentro do mundo acadêmico, e quando há a comunicação entre um pesquisador e um jornalista, ainda há a dificuldade de ser transmitido, de uma forma compreensível para a população, um conteúdo tão acadêmico e específico, uma vez que, diferentemente do que muita gente pensa, os resultados das pesquisas são pequenos e contínuos e não algo como: “Pesquisador X descobre a cura do câncer”. Para chegarmos a um resultado grande e revolucionário é necessário pesquisas menores e contributivas. E, finalmente, quando há a pesquisa e a publicação desses resultados em jornais, podcasts, vídeos, programas de televisão etc., há ainda a falta de procura, de leitura e de interesse da população.

Faz-se necessário ressaltar também que a nossa divulgação científica é escassa e ainda muito jovem e, infelizmente, devíamos ter começado a notá-la e a trabalhar com ela há muito tempo antes, antes de chegarmos ao ponto em que chegamos, mas não desanimo, pois já vejo o início de muitas mudanças: presenciei os movimentos de “ciência na rua”, em que os cientistas conversaram e explicaram suas pesquisas cara a cara com a população, a atenção da academia tem se voltado, cada vez mais, ao tema “Divulgação Científica”, blogs, sites, youtubers estão crescendo gradualmente, explicando, de forma simplificada e chamativa, suas pesquisas e a importância destas para a sociedade.

No entanto, também de nada adianta aperfeiçoar a divulgação científica se a população não tem interesse em se informar mais, conforme Helena Nader, professora da Unifesp expõe: “55% da população brasileira não completou o ensino médio. Essa população não vai procurar na internet ou ler jornal para se informar sobre ciência” (Fapesp). Portanto, uma resposta simples para esse cenário problemático se faz improvável, mas não partimos do zero, pois uma certeza precisamos ter e espero que tenhamos: contingenciar investimentos na educação e na pesquisa não vai melhorar nem esse e nem qualquer outro cenário, a economia, a saúde e a segurança também dependem da educação.

Bibliografia:

Fapesp. Disponível em: http://agencia.fapesp.br/crise-na-ciencia-nao-se-deve-apenas-a-falta-de-recursos-avaliam-cientistas/27103/. Acesso em 05/06/2019.