Notícia

Diário de S.Paulo

A poluição no Interior

Publicado em 08 outubro 2001

Por CARLOS NASCIMENTO
A velha desculpa de que o rio Tietê é sujo na Grande São Paulo é limpo no Interior já não vale mais. Um estudo dá professora Maria do Carmo Calijuri, da USP de São Carlos, mostra que a poluição produzida na Capital e municípios vizinhos chega a quase quatrocentos quilômetros de distância. A professora de Hidráulica e Saneamento pesquisou, a qualidade da água nos reservatórios do Médio e Baixo Tietê até 1997. E os resultados que agora divulgamos, segundo ela, não correm nenhum risco de estarem defasados. Pelo contrario, só podem, ter se agravado. A pesquisa, com a participação de alunos de mestrado e doutorado, e custeada pela Fapesp, Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo, foi feita durante anos nos reservatórios das cidades de Barra Bonita, Bariri, Ibitinga, Promissão Nova Avanhandava e Três Irmãos. Há pelo menos quinze anos uma outra universidade, a Unesp, campus de Botucatu, alerta para a contaminação do primeiro grande lago do Tietê, o de Barra Bonita, inclusive por metais pesados. Pirambebas, também chamadas de piranhas, com partículas de mercúrio, foram encontradas na represa, que recebe também as águas do Rio Piracicaba. Mas agora a radiografia da poluição vai muito além. A pesquisa da professora Maria do Carmo Calijuri demonstra que os reservatórios seguintes, os das cidades de Bariri e Ibitinga, também sentem os mesmos efeitos da carga poluidora. O fenômeno chama-se eutrofização, e se materializa numa densa camada verde na água até a profundidade alcançada pela luz do sol. É uma coloração tão forte que chega a tingir os pilares das pontes. Uma gosma, fedorenta e repugnante, que a professora Maria do Carmo chama de "nata". A professora Maria do Carmo explica que a eutrofização natural se dá em períodos geológicos longos, pela ação de agentes espontâneos sobre o meio-ambiente. Já a eutrofização cultural antrópica, que está acontecendo no Tietê, é resultado direto da ação do homem. A alta concentração de esgotos domésticos, de efluentes industriais e de fertilizantes e agrotóxicos provoca um aumento de nitrogênio e fósforo na água. Em conseqüência, as bactérias, algas e plantas desordenadamente, formando a camada verde. A "nata" se espalha pelas represas em vários períodos do ano, especialmente no verão e em dias de pouco vento. A poluição do Tietê na região Metropolitana, embora inadmissível nos dias de hoje, pode ser explicada pelo crescimento desordenado e pelo descaso do Poder Público com o meio-ambiente. Mas permitir que a sineira se estenda rio abaixo é um crime. Faz tempo que ambientalistas, cientistas e Organizações Não Governamentais (Ongs) vêm protestando contra a lentidão dos governos federal, estadual e das prefeituras da Capital e Grande São Paulo ao enfrentar a poluição. Quem prestou atenção às imagens da chuva na semana passada viu bateladas de garrafas plásticas, pneus velhos, móveis, colchões e toda sorte de detritos que desceram pelo Tietê. Esse lixo percorre algumas centenas de quilômetros e vai se depositar nas margens da represa, de Barra Bonita., Moradores da cidade chegam a tirar caminhões de sujeira. Sem contar o que fica pelo caminho, especialmente nos municípios de Santana de Parnaíba, Itu e Salto. É inacreditável que um estado como São Paulo, tão ligado em questões ambientais, não faça nada. Já que não sé pode eliminar de uma vez a poluição dos esgotos, que se cuide pelo menos dos detritos sólidos. Uma simples rede de contenção ajudaria; a segurar o lixo que desce pelo Tietê, que poderia ser reciclado ali mesmo, nas margens do rio ou em barcaças. O que não pode é deixar que toneladas de porcaria contaminem gigantescos reservatórios que, além, de gerar energia elétrica, podem ser usados para piscicultura, irrigação, turismo, a prática de esportes aquáticos é a recreação de milhões de paulistas que vivem no Interior. Há menos de cinqüenta anos o Tietê tinha piscinas naturais no Corinthians, no Espéria, no Germânia e em tantos outros clubes vizinhos da ponte das Bandeiras. Em 1950 eram mais de 5.000 embarcações registradas na Capital, Guarulhos, Osasco e cidades vizinhas. Que isso tenha acabado em nome da industrialização e da expansão imobiliária se entende. O que não dá para aceitar é que o mesmo destino seja reservado aos lagos do Tietê no Interior, um patrimônio que em vez de servir ao lazer e ao abastecimento das cidades paulistas está se transformando na mesma calda fétida de poluição da Capital, e que tanto incomoda e envergonha a todos os paulistas. Carlos Nascimento é jornalista