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Jornal Brasil

A política desenvolvimentista de Roberto Simonsen

Publicado em 25 fevereiro 2016

Um novo livro examina como se construiu o pensamento do industrial paulista Roberto Cochrane Simonsen (1889-1948), um dos principais teóricos a defender o avanço da industrialização e da intervenção do Estado na economia brasileira a partir do governo Vargas, nos anos 1930.

A obra, escrita por Luiz Felipe Bruzzi Curi, doutorando em história econômica pela USP, mostra que Simonsen estruturou seus argumentos em favor de uma política desenvolvimentista e protecionista adaptando à realidade do país um conjunto eclético de teóricos internacionais, incluindo economistas que atuavam na Alemanha, na Romênia e na então União Soviética.

Com o título Entre a História e a Economia: O Pensamento Econômico de Roberto Simonsen, o livro, publicado com apoio da FAPESP, será lançado em 26 de fevereiro. A obra é também resultado do mestrado de Curi, para o qual contou com Bolsa da FAPESP.

O livro mostra também como o trabalho do empresário trouxe contribuições importantes para a maneira como ainda se concebe a trajetória econômica do Brasil desde os tempos coloniais – uma influência que continua presente, por exemplo, nos livros didáticos de história dos ensinos fundamental e médio. Simonsen foi um dos responsáveis por conceber a economia do Brasil, nos tempos coloniais e do Império, como um ambiente dominado por uma série de ciclos de caráter agrário ou extrativo – o ciclo da cana-de-açúcar, o do ouro e o do café são os mais conhecidos.

“A semente que Simonsen plantou com essa concepção em seu livro História Econômica do Brasil, de 1937, foi, mais tarde, retrabalhada e sofisticada por outros autores, como Caio Prado Júnior, Celso Furtado e Fernando Novais, mas uma ideia principal foi mantida: a importância do processo de colonização para explicar o atraso do desenvolvimento brasileiro”, explica Curi.

A questão é que, para Simonsen e os especialistas que adotaram sua perspectiva sobre o tema, os ciclos ligados a um produto agrícola ou mineral, além de naturalmente efêmeros, não teriam sido suficientes para gerar cabedais duradouros de riqueza no território brasileiro após sua conclusão. O exemplo mais claro é o do ciclo do ouro, metal precioso basicamente usado pelos portugueses para comprar produtos manufaturados, de valor mais alto, de outras nações europeias. “Seria algo que não é permanente, que não gera desenvolvimento econômico a longo prazo”, disse Curi, ressaltando que muitos especialistas atuais consideram que essa visão é simplista.

Virada pela indústria

De acordo com Simonsen, o caminho para escapar da aparente inevitabilidade dos ciclos econômicos necessariamente tinha de passar pela industrialização do Brasil, que já acontecia de forma incipiente nas primeiras décadas da República, mas teria de ser acelerada.

Diante da dificuldade de competir com os países industrializados da América do Norte e da Europa Ocidental, ele propunha tanto a criação de barreiras alfandegárias, para diminuir as importações e favorecer o consumo de produtos fabricados no país, quanto o planejamento estatal da economia. Atuando como deputado federal, por exemplo, Simonsen foi uma das principais vozes contrárias a um tratado de comércio com os Estados Unidos que, segundo ele, favoreceria a indústria americana (o acordo, mesmo assim, acabou sendo ratificado em 1935).

Nascido em Santos e formado em engenharia pela Escola Politécnica de São Paulo (mais tarde incorporada à USP), Simonsen presidiu diversas companhias e atuou em grandes projetos de infraestrutura urbana e militar nos anos 1910 e 1920. Na década seguinte, seria fundador e presidente da Federação das Indústrias do Estado de São Paulo (Fiesp), além de participar do esforço de guerra paulista contra o governo de Getúlio Vargas, em 1932.

“Ele começa como representante de classe, atuando na defesa dos interesses dos industriais, mas em dado momento a atuação do Simonsen se torna algo mais amplo, passa a analisar a história econômica nacional e tentar entender suas especificidades”, disse o historiador Alexandre Macchione Saes, professor da Faculdade de Economia, Administração e Contabilidade da USP e orientador de Curi no mestrado e no doutorado.

No mesmo ano em que Simonsen publica História Econômica do Brasil, Vargas assume poderes ditatoriais ao instituir o chamado Estado Novo, que duraria até 1945. Apesar de sua ligação com a resistência paulista ao presidente gaúcho em 1932, Simonsen passa a se aproximar do Estado Novo, graças à criação de conselhos consultivos do governo federal dos quais grandes empresários como ele participavam.

Nesse momento, Vargas também adota políticas econômicas mais próximas das posições de Simonsen. Ao teorizar sobre a necessidade de uma economia industrializada e com planejamento estatal, o empresário se apoia no pensamento de figuras como o romeno Mihail Manoilescu (1891 – 1950) e o russo Wladimir Woytinski (1885 – 1960).

Para Saes, é interessante que o industrial brasileiro tenha buscado referências não apenas nos teóricos econômicos clássicos, mas em figuras de “países periféricos” que também passaram por um processo de industrialização relativamente tardio. “Há justamente esse esforço de tentar achar as especificidades da história econômica brasileira”, analisa o professor da USP.

Ainda que pareça paradoxal que um grande empresário como Simonsen tenha sido um dos criadores de uma corrente – a do intervencionismo estatal nacionalista na economia – que acabaria associada à esquerda brasileira, Curi recorda que a desconfiança em relação ao livre mercado era uma característica muito comum em todos os espectros políticos nos anos 1930 e 1940. “Isso não era uma prerrogativa da esquerda, muito pelo contrário. Após a crise econômica mundial de 1929, havia uma descrença geral em relação ao liberalismo econômico, à ideia de que as leis do mercado vão regular naturalmente a economia”, disse Saes.

Muitos analistas atribuem a atual crise econômica brasileira ao excesso de intervencionismo na economia do primeiro mandato de Dilma. Para Curi, o debate sobre os problemas econômicos de hoje lembra muito as discussões travadas entre Simonsen e seus opositores liberais, como Eugênio Gudin Filho (1886 – 1986). “A lição que fica é que é muito difícil considerar que um dos lados é sempre o melhor. Com uma perspectiva histórica, sem imediatismo, não dá para defender colocar todas as fichas num único campo.”

Entre a História e a Economia: O Pensamento Econômico de Roberto Simonsen
Autor: Luiz Felipe Bruzzi Curi
Editora: Alameda
Preço: R$ 45,00
Lançamento: 26 de fevereiro, às 14 horas, na Faculdade de Economia, Administração e Contabilidade (FEA) da USP, à av. Prof. Luciano Gualberto 908, Cidade Universitária, São Paulo.

Fonte Agência FAPESP