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A política científica entre cobras e lagartos

Publicado em 27 maio 2010

Mais de 10 dias já se passaram depois do incêndio que destruiu um patrimônio incalculável, constituído de espécimes de cobras, aranhas e escorpiões no Butantã, comprometendo o trabalho de pesquisadores do Instituto, do Brasil e do mundo inteiro.

Na verdade, não foi apenas a atividade de pesquisa que foi interrompida ou que, em muitos casos, não será mais possível pela destruição do acervo. O que o fogo do Butantã deixou escancarado foram as vulnerabilidades dos nossos centros de produção do conhecimento, a precariedade da gestão da coisa pública e as lacunas de uma política imperfeita de ciência e tecnologia.

As recorrentes notícias da imprensa (que costuma despertar apenas quando as tragédias acontecem porque não cobre o dia-a-dia das universidades e dos institutos de pesquisa ou não está atenta para questões estruturais da produção da ciência e da tecnologia brasileiras) mostram que os nossos administradores e autoridades são, no mínimo, descuidados (seria melhor rotulá-los de irresponsáveis, ou é pesado demais?).

Reportagem publicada pelo Estadão no dia 23 de maio de 2010 traz depoimentos de pesquisadores do Butantã denunciando a sobrecarga elétrica nos prédios históricos e a existência de fios expostos na área onde o fogo se alastrou. Fica claro, portanto, que o acidente não ocorreu por um golpe de azar ou que um gênio do mal tenha resolvido se vingar da pesquisa brasileira, lançando labaredas pela boca.

Mas outras leituras podem, infelizmente, ser feitas a partir do episódio e de sua repercussão na mídia. Em primeiro lugar, o caso do Butantã não é único e está na mesma situação a maioria esmagadora dos acervos, como, por exemplo, o Museu de Zoologia da USP, o Museu Paraense Emílio Goeldi e o Museu Nacional da Universidade Federal do Rio de Janeiro, para só citar 3 casos flagrantes. Segundo o diretor do Museu de Zoologia da USP, Hussan Zaher, em matéria publicada pela Agência de Notícias da FAPESP - Fundação de Amparo a Pesquisa do Estado de São Paulo (19/05/2010), se o incêndio tivesse acontecido na sua instituição, o estrago seria ainda maior e explica: "temos 10 milhões de exemplares depositados: são 280 mil répteis, 8 milhões de insetos, 1 milhão de moluscos, 820 mil crustráceos." Em segundo lugar, estas catástrofes anunciadas, se nada for feito com urgência, irão se repetir muitas vezes, com prejuízos imensos para as nossas coleções, algumas, como a do Butantã, que demandaram mais de um século para sua construção. Finalmente, ficou patente que existe a necessidade de uma política específica para dar conta da segurança da infraestrutura física dos prédios que abrigam o nosso acervo, porque não é razoável que se permaneça refém de administradores que não enxergam um palmo além do seu próprio umbigo.

É imperioso ainda destacar o embate entre o ex-presidente do Instituto Butantã, Isaías Raw, e os pesquisadores da casa, provocado pela declaração infeliz do ex-dirigente de que "guardar cobra é bobagem" (Folha de S. Paulo, 20 de maio de 2010, p.A18) e de que o que se fazia nesta área do Instituto era uma "ciência de quinta categoria".

Não é possível tolerar este tipo de manifestação porque ela expressa preconceito em relação à pesquisa com animais e desrespeito a colegas que, ao longo do tempo, têm dado efetiva contribuição à ciência brasileira. De qualquer forma, como Isaías Raw foi diretor do Instituto durante mais de uma década (saiu recentemente em virtude de um escândalo envolvendo desvio de verbas públicas, embora não tenha ele próprio sido acusado diretamente pelo fato), se o que diz é verdade, deveria então ter feito alguma coisa para sanar o problema. Afinal de contas, uma boa gestão em ciência, tecnologia e inovação implica também privilegiar a ciência e a pesquisa de qualidade, monitorar a produtividade dos pesquisadores, enfim zelar pela boa aplicação dos recursos públicos. Se o Instituto preservava pesquisadores incompetentes e incentivava projetos desnecessários, estava agindo erradamente. Mas todos sabemos que o prof. Isaias Raw generalizou equivocadamente e que, em todo lugar, há pessoas mais competentes e menos competentes. O Butantã sempre foi um local de excelência e esta imagem não pode ser destruída numa hora triste como essa.

Arrombada a porta, o negócio agora é (o ditado popular não está correto) colocar a tranca porque o que menos se deseja é que o episódio se repita em outro lugar.

Não adianta apostar na tecnologia para a exploração do Pré-Sal, em pesquisas para produção de nanotubos, desenvolver a investigação sobre células tronco ou mapear a biodiversidade brasileira, se não cuidarmos de aspectos básicos, como a segurança dos edifícios onde trabalham os pesquisadores e estão depositados os nossos acervos. Isso vale para a coleção de "animais" mas também para as nossas bibliotecas. Alguém que se disponha a circular pelos campi das universidades paulistas (que se situam entre as maiores e mais importantes do País) ficará surpreendido com a instalação precária e sem segurança das nossas bibliotecas. Ficará também horrorizado pelos inúmeros desfalques dados ao patrimônio público por roubos e assaltos freqüentes que visam sobretudo se apropriar dos equipamentos utilizados para o ensino e a pesquisa. O mesmo vale para as universidades federais que exibem, em muitos casos, instalações tão precárias que deveriam ser interditadas pelos riscos que impõem a pessoas e materiais.

Uma autêntica política de ciência e tecnologia precisa estar atenta também para esses problemas e dotar recursos para que a infraestrutura ofereça segurança para os que pesquisam e para os materiais que subsidiam a investigação, sejam eles as coleções como a que se perdeu com o incêndio no Butantã, sejam livros, periódicos e documentos depositados nas bibliotecas.

Espera-se que a imprensa tenha percebido que há boas pautas nessa área e que deveria estar mais presente junto aos centros produtores de conhecimento, contribuindo para o debate mais amplo da política cientifica e tecnológica. Está na hora de a imprensa chegar antes dos bombeiros, embora seja de sua índole viver a reboque quando se trata da cobertura de ciência e tecnologia.

Fica um alerta também: os gestores da coisa pública não devem ser escolhidos apenas em função de sua titulação (algumas vezes a disputa por cargo e poder chega a ser encarniçada nessas instituições e inclui um jogo político nem sempre muito limpo), mas de sua competência para administrar. Isso significa zelar pela preservação do patrimônio, pela excelência da pesquisa e pelo bom uso dos recursos públicos. Isto não tem nada a ver com o famoso currículo Lattes que não se presta para indicar administradores competentes.

Numa organização privada, os responsáveis diretos e indiretos por uma tragédia como a ocorrida no Butantã seriam definitivamente descartados, mas não há dúvida de que, nesse caso, como em muitos outros, tudo acabará em pizza (que os culpados a engulam com veneno das cobras, aranhas e escorpiões que contribuíram para destruir), com acusações recíprocas e nenhuma apuração séria porque, na prática, todos têm culpa pelo lastimável episódio.

Infelizmente, só temos a lamentar o ocorrido. Que as cobras, os escorpiões e as aranhas nos desculpem, que os pesquisadores prejudicados nos desculpem. A ciência e a tecnologia brasileira estão definitivamente de luto. O Butantã não merecia ter vivido essa tragédia. Mas falta de capacidade e de zelo pela coisa pública andam proliferando mais do que ratos e baratas em nosso País. Aí está um bom tema para dissertações e teses e uma dica de pauta para a imprensa brasileira. É pegar ou largar. Ter que aturar tanta incompetência é fogo!

Em tempo: Anúncio de página inteira, assinado pelo Ministério da Ciência e Tecnologia, e publicado nos principais jornais brasileiros no dia 27 de maio de 2010, proclama a excelência da ciência brasileira. Não há dúvida de que temos feito progressos, mas episódios como o do Butantã mostram que temos muito a caminhar. Ciência, tecnologia e inovação não dependem apenas de leis, normas, dinheiro e o talento dos pesquisadores, mas requerem gestão competente, capacidade de gerenciamento e administradores comprometidos com a coisa pública. Alguém tem dúvida de que estamos falhando por aí?

* Wilson da Costa Bueno é jornalista, professor da UMESP e da USP, diretor da Comtexto Comunicação e Pesquisa. Editor de 4 sites temáticos e de 4 revistas digitais de comunicação.