Notícia

Jornal da USP

A PLENA UNIÃO ENTRE CIENTISTA E ALUNO

Publicado em 03 março 2002

Por ROBERTO C. G. CASTRO
As aulas de graduação precisam ser enriquecidas com os dados obtidos pelos professores em seus laboratórios, afirma o pró-reitor de Pesquisa, que também pretende incentivar a realização de projetos interdisciplinares O professor Luiz Nunes de Oliveira assumiu o posto de pró-reitor de Pesquisa com duas idéias principais em mente. Ele quer mais integração entre a pesquisa e o ensino de graduação - de modo que as aulas sejam enriquecidas pelos resultados obtidos em laboratório - e divulgar para toda a sociedade as descobertas dos pesquisadores da USP. Além disso, Oliveira pretende incentivar a colaboração entre cientistas de diferentes áreas do conhecimento, reunidos em torno de pesquisas interdisciplinares. "Precisamos criar uma cultura para que a integração entre a pesquisa e o ensino e entre os pesquisadores seja algo natural, e não uma iniciativa isolada de alguns professores", afirma o pró-reitor. Formado pelo Instituto de Física de São Carlos, com doutorado pela Universidade de Cornell, nos Estados Unidos, Oliveira é um físico teórico que se dedica a estudos sobre magnetismo. Ele recebeu o Jornal da USP para a seguinte entrevista. Jornal da USP - Como o senhor avalia a pesquisa feita na USP? Luiz Nunes de Oliveira - A pesquisa na USP vai bem, como todos sabemos: aqui há vários grupos que são lideranças internacionais, por exemplo. O que falta, acredito, é mais integração. Há espaço para mais integração, que, se for feita, beneficiará muita gente, principalmente grupos pequenos, que têm dificuldade para crescer. JUSP - Que tipo de integração? Oliveira - Existem dois tipos de integração que poderiam ser feitos. Um é a integração entre grupos de pesquisa. Não me refiro apenas a grupos de uma mesma área - por exemplo, os pesquisadores em Odontologia de Bauru e os de São Paulo. Penso que, se tivermos temas que sejam propícios à pesquisa multidisciplinar, poderemos atrair para o mesmo programa pesquisadores de diferentes áreas. O contato que resulta disso é muito frutífero. JUSP - E o segundo tipo de integração? Oliveira - O segundo tipo se refere à integração entre as várias áreas de atuação da Universidade. Precisamos de mais integração entre o setor de pesquisa e o ensino de graduação. Seria interessante se conseguíssemos levar os resultados da pesquisa para as salas de aula. Trata-se de uma experiência nova, mas certamente é possível. É preciso estabelecer uma cultura. Temos de estabelecer uma parceria entre a Pró-Reitoria de Pesquisa e a Pró-Reitoria de Graduação para estimular esse tipo de cultura. JUSP - Como implementar essa proposta? Oliveira - É preciso estimular as pessoas e pedir idéias. Não é uma coisa que a Pró-Reitoria possa fazer individualmente. Seria interessante criar uma cultura nos docentes que fizesse com que eles levassem para a sala de aula os resultados da pesquisa que realizam. Para os alunos, é muito motivador que o docente ilustre suas aulas com resultados obtidos no laboratório. Acredito que muitos professores façam isso isoladamente, mas não é o que ocorre de forma geral. Além disso, os alunos de iniciação científica precisam ter a oportunidade de expor na sala de aula o resultado do seu trabalho. JUSP - E como criar essa cultura? Oliveira - Esse é um trabalho que tem de ser feito dentro das unidades. Para isso, temos que contar com o apoio das comissões de Pesquisa e de Graduação. É necessário que haja material didático que facilite essa atitude do professor. JUSP - Além da integração, que mais o senhor pensa em fazer? Oliveira - Queremos estimular a divulgação dos resultados das pesquisas feitas na USP. Os jornais de grande circulação têm dificuldade em interpretar um artigo científico, geralmente escrito em linguagem muito especializada. Acredito que é obrigação da Pró-Reitoria de Pesquisa divulgar esses resultados numa linguagem intermediária, que permita aos jornalistas expor a matéria para o público leigo. Outro problema que dificulta a divulgação é que existe uma tendência, na imprensa, de dar importância a resultados que tenham interesse prático. JUSP - É possível reverter essa tendência? Oliveira - Há muitos resultados de ciência básica que são atraentes, desde que explicados de maneira que se possa entender. O melhor exemplo disso é a astronomia. Certamente 99% deles não têm nenhuma conseqüência prática. E, no entanto, despertam muito interesse e ganham bastante espaço na mídia porque são apresentados com imagens belíssimas, uma linguagem que todos entendem. Da mesma forma, se apresentarmos qualquer outra pesquisa - de física ou de química, por exemplo - numa linguagem adequada, acredito que muita gente se interessaria por ela. JUSP - Em seus primeiros pronunciamentos como reitor, o professor Melfi destacou que pretende se esforçar para direcionar a pesquisa científica, de modo a buscar soluções para os problemas do País. O que o senhor acha disso? Oliveira - Isso combina perfeitamente com a idéia de projeto integrado de que falei antes. Por exemplo, já está em andamento um grande programa interdisciplinar de hidrometeorologia, para estudar problemas de recursos hídricos - chuvas, rios, depósitos aqüíferos, água na agricultura etc. Esse projeto reúne pesquisadores de várias áreas. Além de render muito mais - mais resultados, mais publicações -, está voltado para uma questão social. Chuvas de verão são um problema sério aqui em São Paulo. Se pudermos prever essas chuvas com algumas horas de antecedência, poderemos salvar vidas. A Universidade pode dar uma ótima contribuição à sociedade através desses projetos integrados. JUSP - Mas não corremos o risco de afastar a pesquisa da sua legítima vocação, que é o conhecimento descomprometido? Oliveira - Não. Em primeiro lugar porque esse tipo de pesquisa multidisciplinar só funciona quando existem lideranças científicas estabelecidas. Não adianta eu falar "o problema social mais importante do Brasil é este, vamos pesquisar para combatê-lo", se no País não existe ninguém que entende do assunto. Não vai funcionar. Em segundo lugar, nesse tipo de projeto há uma grande liberdade de trabalho. Nesse programa sobre hidrometeorologia que citei, os pesquisadores da área de agricultura continuam a trabalhar em sua área. Não se trata de querer que especialista em agricultura trabalhe com meteorologia, por exemplo. Cada um faz aquilo que entende, com grande liberdade. A soma dos esforços acaba sendo muito mais produtiva do que esforços isolados. JUSP - De que forma o aluno de graduação pode se dedicar à pesquisa na USP? Oliveira - Nós temos dois tipos de bolsas: o programa Pibic, que é a bolsa de R$ 241,51 concedida pelo CNPq, e o programa de treinamento, conhecido também como Projeto 4, que são bolsas de maior valor mensal - R$ 500,00 -, dadas pela Pró-Reitoria de Pesquisa, e que exigem do bolsista uma dedicação maior, de 30 horas por semana. Esses dois tipos de bolsas somam um número grande. São cerca de 1.200 bolsistas, a maioria deles ligada ao Pibic, fora as bolsas concedidas pela Fapesp. Os alunos interessados precisam ter disponibilidade de tempo e, junto com um docente, submeter um projeto à Pró-Reitoria. Já as bolsas de mestrado e de doutorado são dadas pelas agências de fomento à pesquisa e estão mais relacionadas à Pró-Reitoria de Pós-Graduação. JUSP - A Pró-Reitoria realiza anualmente um encontro de iniciação científica. O que é esse encontro? Oliveira - É o Simpósio Internacional de Iniciação Científica da USP, o maior evento do gênero no Brasil. É realizado anualmente. Através dele, os alunos de graduação têm a oportunidade de apresentar os resultados de suas pesquisas. Na última edição do simpósio, em novembro de 2001, foram apresentados mais de 2.300 trabalhos, elaborados por mais de 7.300 autores. Os autores dos dez melhores trabalhos são enviados pela USP para participar de um congresso semelhante nos Estados Unidos. Os alunos ficam nos Estados Unidos durante uma semana, visitando laboratórios e conhecendo professores. Sempre são convidados para permanecer lá e fazer mestrado. JUSP - Há mais coisas que o senhor pretende realizar à frente da Pró-Reitoria? Oliveira - Uma coisa que precisa ser mencionada é que o trabalho dos pró-reitores anteriores foi muito bom. Foram criados vários programas de que a comunidade científica da USP gosta muito e que vamos manter. Por exemplo, o chamado Projeto 1 é um programa em que os pesquisadores que recebem um auxílio da Fapesp ou do CNPq ganham um adicional da Pró-Reitoria de Pesquisa, que pode chegar a R$ 3.500. Isso é muito importante porque o pesquisador pode gastar esses recursos com despesas que não são contempladas pela verba dada pelas agências de fomento e que são necessárias ao projeto, como viagens, por exemplo. Há também o projeto "A USP fala sobre", que promove eventos sobre temas de interesse da sociedade. São iniciativas da Pró-Reitoria de Pesquisa que precisam ser mantidas.