Notícia

A Tribuna (Santos, SP) online

A pindaíba e a tabebuia

Publicado em 03 abril 2006

Por Da Reportagem
Segundo o Ministério da Saúde, mais de cinco milhões de brasileiros são portadores da doença de Chagas, número que ultrapassa os 12 milhões de infectados em todo o continente americano. Apesar de descrita há 97 anos, em um dos mais belos episódios de nossa ciência, ela permanece até hoje sem cura.
Vários fatores contribuem para essa situação. O primeiro deles, e talvez o principal, é que da mesma forma que a malária, a leishmaniose e outras, ela afeta principalmente populações de baixa renda, geralmente em áreas tropicais.
Os grandes laboratórios pouco investem nesse tipo de enfermidade. Segundo a organização Médicos Sem Fronteira (MSF), 1% dos 1.393 novos medicamentos, registrados entre 1975 e 1999, destinavam-se a doenças tropicais e tuberculose.
Resultado: só a malária mata três mil pessoas por dia no mundo e, segundo a MSF, a maior parte dos recursos para pesquisas são destinados a drogas que combatam disfunções sexuais, calvíce, obesidade, problemas cardíacos ou degenerativos.
Porém, na contramão desse processo, cientistas brasileiros vêm conseguindo avanços surpreendentes. É o caso, por exemplo, de dois novos trabalhos, que se não significam a cura em curto prazo para a doença, renovam as esperanças para 500 milhões de novos infectados a cada ano.
Apesar de feitos por grupos diferentes, os estudos têm algo em comum: as substâncias já testadas com sucesso em laboratório foram obtidas de plantas genuinamente brasileiras.

Em segredo
No Rio de Janeiro, pesquisadores da Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz) desenvolveram um extrato vegetal que mostrou alta taxa de letalidade contra o Tripanossoma cruzi, o protozoário causador do Chagas.
A fórmula é mantida em segredo. O que surpreende, porém, são as suas origens. A droga é feita a partir de plantas bastante comuns, como o ipê (Tabebuia alba), encontrado em várias partes da Cidade de Santos. Ainda entram no processo o jacarandá e a lágrima de cristo - uma trepadeira muito usada em paisagismo.
Segundo Rubem Figueiredo Barreto, um dos pesquisadores, além do combate ao parasita, o composto se revelou promissor em outro importante aspecto: baixa toxicidade, "o que pode significar um baixo efeito colateral para o indivíduo infectado".
Primeiro passo
Já a outra substância, desenvolvida pela farmacêutica Sonia Valéria Bonotto, em parceria com especialistas da Universidade de São Paulo, Superintendência de Controle de Endemias (Sucen) e pelo Instituto Adolfo Lutz, vem de uma planta pouco conhecida, mas com um nome popular muito sugestivo: pindaíba (Duguetia lanceolata) - veja coluna lateral.
Os cientistas, com o apoio da Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (FAPESP), um órgão público de fomento à Ciência, descobriram que um extrato feito com a folha da pindaíba também combate os parasitas.
"Esse é o primeiro passo de uma longa jornada", explica Sonia. Uma jornada que teve início no começo do século passado, e que tornou mundialmente famoso um modesto médico brasileiro.

Vacina para o corpo
Além das pesquisas desenvolvidas no Brasil, um grupo de cientistas espanhóis, do Instituto de Parasitologia e Biomedicina López-Neyra, diz estar próximo de criar uma vacina genética capaz de destruir os agentes infecciosos da doença. O princípio é muito parecido com o que foi feito com a Aids: se é difícil destruir a fonte do problema, a saída é fortalecer o sistema imunológico do ser humano, para que este reaja e controle a doença. Pensando dessa forma, o grupo espanhol desenvolveu uma vacina. Da mesma forma que as duas pesquisas brasileiras, a droga também se mostrou eficaz nos testes de laboratório. O mal de Chagas tem diferentes fases.
A primeira se caracteriza por sintomas fortes e pouco determinados, como dores de cabeça ou febre, o que dificulta o diagnóstico. Posteriormente, acontece a chamada fase indeterminada, que pode durar até 15 anos para chegar ao estado crônico, no qual se produzem alterações graves, como a inflamação do músculo cardíaco, do cólon ou esôfago. Às vezes, o problema pode chegar ao sistema nervoso e, associado a doenças imunodepressoras como a Aids, pode afetar o cérebro.