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Nexo Jornal

A pauta identitária dos jovens da periferia de São Paulo

Publicado em 23 julho 2020

Esta tese de doutorado, realizada na Uerj (Universidade Estadual do Rio de Janeiro), busca entender como processos de mobilidade social influenciam as lutas por cidadania conduzidas por moradores das periferias de grandes cidades.

Por meio de um questionário feito com cerca de 400 famílias e entrevistas qualitativas nas periferias de São Paulo, o autor traçou perfis que explicam como três gerações diferentes equilibram ambições de ascensão individual e esforços por direitos coletivos.

Segundo seus resultados, a geração mais jovem foi responsável por concentrar a organização política na produção cultural, buscando se apropriar da identidade periférica como forma de orgulho, e não de estigma — em oposição à geração anterior, que de modo geral tentou se distanciar da periferia por meio da ascensão socioeconômica.

A qual pergunta a pesquisa responde?

A pesquisa busca entender as possíveis relações e contradições entre mobilidade social e luta pela cidadania. No contexto vivido pelo Brasil entre 2005 e 2015, de ascensão social de milhões de pessoas pobres, moradoras de periferias de grandes cidades, questiona-se se esses indivíduos tendem a se engajar em movimentos por direitos coletivos como saúde e educação pública de qualidade, ou tendem a se tornar mais individualistas e se preocupar apenas com seu próprio bem-estar.

Por que isso é relevante?

A questão a respeito de comportamentos mais individualistas ou coletivistas dos seres humanos sempre esteve presente em alguma medida na teoria sociológica. No Brasil, esse tema ganhou grande repercussão, primeiro, com o debate sobre a chamada “nova classe média” ou “nova classe C” no fim dos anos 2000 e, depois, com as manifestações de junho de 2013. Muitos sociólogos e economistas criticaram o processo de mobilidade social experimentado nos anos do governo Lula e Dilma por ser apenas focado no consumo e não na efetivação de direitos de cidadania. Quando eclodiram as manifestações de junho de 2013, algumas interpretações apressadas apontavam, de um lado, que as mobilizações refletiam uma classe média “ressentida” ou “ingrata” com os ganhos que os mais pobres obtiveram nos anos anteriores e, de outro, que aqueles movimentos seriam uma consequência da ascensão social de pessoas que lutavam por ter seus direitos ampliados para além do acesso a bens materiais, sobretudo o “direito à cidade”. A pesquisa alerta que, mais do que buscar uma relação direta entre mobilidade social e mobilização coletiva por direitos, é preciso entender quais projetos de vida estão em jogo em cada momento histórico e como eventualmente as pessoas se formam politicamente e decidem se organizar para reivindicar determinados direitos.

Resumo da pesquisa

A pesquisa foi realizada em dois bairros das periferias de São Paulo: Brasilândia e Jardim Ângela, que foram escolhidos por terem apresentado uma quantidade relativamente grande de pessoas que deixaram a zona da pobreza e ingressaram num estrato intermediário em termos de renda. Nessas regiões, passei pouco mais de um ano fazendo uma pesquisa que envolveu métodos quantitativos — com um questionário para cerca de 400 famílias — e métodos etnográficos — que incluem entrevistas em profundidade, conversas informais com moradores e o que chamamos de “observação participante” em locais como reuniões comunitárias e eventos culturais.

Quais foram as conclusões?

A realidade é sempre mais complexa e não nos permite apontar relações diretas de causa e efeito entre ascensão social e mais ou menos individualismo. Por isso, a pesquisa procurou traçar linhas históricas que mostram como diferentes gerações de moradores das periferias de São Paulo lutaram para alcançar algum nível de ascensão econômica e conquistar direitos sociais. De modo geral, a tese aponta que a primeira geração, formada por pessoas que migraram para São Paulo nos anos 1970 e 1980 em busca de “melhorar de vida”, construiu sua identidade por meio da oposição entre “trabalhadores” e “bandidos”. Havia, para muitos, o sonho de “trabalhar duro” para proporcionar a seus filhos condições de alcançar melhores níveis de ensino e conseguir empregos melhores. Essa geração se organizou politicamente de forma bastante eloquente, principalmente por meio das CEBs (Comunidades Eclesiais de Base) e dos sindicatos.

A geração seguinte, na qual há muitos já nascidos e criados nas periferias e que chegou à vida adulta nas décadas de 1990 e 2000, viveu, por um lado, um período de aumento da violência e consolidação do crime organizado em torno do PCC (Primeiro Comando da Capital). Por outro lado, essa geração, que vivenciou nos anos 1990 um processo de perda de empregos mais estáveis com a saída de boa parte das indústrias da cidade de São Paulo e a flexibilização das relações trabalhistas, teve, nos 2000, oportunidades importantes de ingressar no ensino superior e conseguir empregos com uma remuneração um pouco melhor, ainda que em postos de trabalho precários. Essa geração teve seu espírito contestatório enfraquecido, uma vez que os sindicatos e as CEBs perderam poder de mobilização. A atuação política para aqueles que seguiram engajados ficou mais restrita a canais institucionais, como conselhos, conferências e audiências públicas, e à formação de ONGs que passaram a gerir serviços públicos de assistência social como creches e outros projetos. A crise econômica que teve início em 2015 no Brasil é motivo de grande frustração para essas pessoas que vivenciaram pequenas melhorias na década anterior e agora veem parte de seus projetos abortada.

Para os mais jovens, que hoje estão na casa dos 20 e poucos anos de idade e que protagonizaram mobilizações políticas importantes nos últimos anos, como as manifestações de junho de 2013 e as ocupações de escolas públicas no fim de 2015, a cultura aparece como principal espaço de formação política. Esse jovens têm se engajado em coletivos culturais que organizam saraus, slams, cineclubes, entre outras atividades, e trazem para o debate público temas como o racismo, o machismo, a homofobia, além das tradicionais pautas ligadas a direitos sociais. Como esses jovens, que num primeiro momento se mostram céticos e frustrados com a política institucional, vão se comportar politicamente e quais projetos de vida poderão construir no atual contexto de agravamento da crise política e econômica ainda é algo a ser desvendado.

Outro achado importante da tese está na mudança de relação de cada geração com seus bairros periféricos e com a cidade como um todo. Os primeiros moradores das periferias se preocuparam em lutar para conquistar serviços públicos e uma infraestrutura básica para suas regiões como asfaltamento, saneamento básico, postos de saúde, linhas de ônibus e escolas públicas. A segunda geração, especialmente marcada pelo estigma da violência que atingiu as periferias de São Paulo, buscou construir discursos e desenvolver práticas que os diferenciassem das marcas negativas de seus bairros, inclusive por meio de projetos sociais que buscavam afastar os jovens do “mundo do crime”. Aqueles que conquistaram níveis de mobilidade social mais expressivos procuraram, em muitos casos, se mudar para regiões mais próximas do centro da cidade como forma de anular o estigma de serem “periféricos”.

Por fim, a terceira geração, formada politicamente nos movimentos culturais, passou a desenvolver uma narrativa de orgulho de seus bairros, buscando valorizar traços antes estigmatizados, como o fato de serem negros, pobres, e seus modos de se vestir e de agir. Defendo que, para além da ideia de uma luta por “direito à cidade”, os jovens das periferias têm se engajado em torno de um “direito à periferia”. Busco, com esse conceito, sintetizar uma luta contemporânea pela cidadania que não seja excludente e discriminatória a partir de traços físicos ou pelo lugar de origem e moradia das pessoas.

Quem deveria conhecer seus resultados?

Sociólogos e antropólogos que pesquisam questões ligadas ao espaço urbano e suas periferias, bem como aqueles interessados na temática da mobilidade e estratificação social. A tese pode também ser do interesse de cientistas políticos que buscam analisar o comportamento político das classes populares e formuladores de políticas públicas para as periferias urbanas.

Leonardo de Oliveira Fontes é pesquisador de pós-doutorado do Cebrap (Centro Brasileiro de Análise e Planejamento), bolsista Fapesp (Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de S. Paulo), onde desenvolve a pesquisa: “A crise vista da periferia: luta pela mobilidade social nas fronteiras da (i)legalidade”. Bacharel em relações internacionais e mestre em sociologia pela USP (Universidade de São Paulo), doutor em sociologia pela Uerj (Universidade Estadual do Rio de Janeiro). Recebeu o prêmio de melhor tese do Instituto de Estudos Sociais e Políticos da Uerj em 2018 e menção honrosa no prêmio Capes (Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior) de Tese 2019.

Referências:

FELTRAN, Gabriel. Fronteiras de tensão: política e violência nas periferias de São Paulo. São Paulo: Unesp, 2011.

LEFEBVRE, Henri. O direito à cidade. São Paulo: Editora Moraes, 1991.

MACHADO DA SILVA, Luis Antonio. Da informalidade à empregabilidade (reorganizando a dominação no mundo do trabalho). Cadernos CRH, v. 15, n. 37, p. 81–109, 2002.

SADER, Eder. Quando novos personagens entraram em cena: experiências, falas e lutas dos trabalhadores da Grande São Paulo (1970-80). Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1988.

ZALUAR, Alba. A máquina e a revolta: as organizações populares e o significado da pobreza. 2a edição ed. São Paulo: Brasiliense, 2000.