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Carta Capital online

A ousadia discreta

Publicado em 06 março 2009

Por Rosane Pavam

Ser mulher no século XIX era usar a porta de trás. Julieta de França adentrou deste modo à Escola Nacional de Belas Artes, no Rio. De corpo rombudo, próprio a quem manipulava o cinzel, Julieta destacava-se nas aulas do pequeno grupo feminino. Contudo, era incapaz de reproduzir de forma convincente, em bronze, uma cena de amor. Como o Brasil impedia as mulheres de frequentar as aulas de modelo vivo, ela lutou contra o Brasil. Foi a primeira mulher a frequentar um salão em que posavam jovens despidas e homens de tapa-sexo, em 1897, e se pôs a desenhá-los, mesmo que o fizesse com a estranheza de quem descobre um peixe na janela.

As brasileiras de então pintavam as flores, as outras mulheres, a despensa e as crianças, elementos ao alcance de sua visão cotidiana. E por isso, em um efeito circular, os homens ridicularizavam sua arte, como fez o escritor João do Rio. Qualquer pintora acadêmica recebia o epíteto de amadora, junto a meninos de 13 anos. As mulheres não eram criticadas pela imprensa, apenas notadas coletivamente dentro de um salão de arte, porque se temia que seus nervos não suportassem a apreciação justa. Temia-se, quem sabe, a própria mulher. E ela apenas iniciava-se no mundo do trabalho porque a base econômica mudava e era preciso que um burguês negasse o modo de viver dos coronéis das fazendas.

A paraense Julieta carregou o pioneirismo enquanto aguentou. Rareou nas aulas de modelo vivo, possivelmente constrangida na presença de pintores em sala exígua, acotovelados diante de músculos modelares. A anatomia era crucial à pintura acadêmica porque exaltava o herói, o protagonista das batalhas. Julieta sabia que era preciso estudar o assunto. Por essa razão, pleiteou bolsa em Paris e a ganhou. Deixaram que ela aprendesse a arte com o escultor francês Auguste Rodin, um defensor de seus progressos, aliás, notados por um jornal parisiense que a ombreou ao mestre em uma escultura. Julieta é um caso exemplar na arte do Brasil. Procure o leitor, contudo, o nome dessa mulher nas enciclopédias. Se o encontrar, o verbete será sucinto e trará uma falta. Ele possivelmente deixará de dizer em que ano Julieta de França morreu. E um paradeiro desconhecido é uma história sem fim.

As mulheres do século XIX como Julieta, pesquisada além de quatro outras artistas por Ana Paula Cavalcanti Simioni, em um livro monumental intitulado Profissão Artista: Pintoras e escultoras acadêmicas brasileiras (Edusp-Fapesp, 360 págs., R$ 74), começam a deixar os escombros da documentação histórica. Doutora em Ciências Sociais na Universidade de São Paulo, Ana Paula, como outras pesquisadoras dispostas a bisbilhotar bilhetes, diários, cartas e registros escolares, os únicos em que as mulheres do período aparecem, desvela um cenário aterrador. Não somente as brasileiras se submetiam à autorização dos pais e irmãos para trabalhar, como estabelecia o Código Civil de 1916, e se viam impedidas de votar até 1933.

Mulher não andava à noite. Mas os cursos de arte eram noturnos. Artistas como Abigail de Andrade tinham de se ver com essa limitação, que escondia um ato corrupto. Os diretores das escolas do governo, como era a de Belas Artes, tinham a liberdade de formar cursos particulares. E isolavam as mulheres para que tivessem aulas pagas em suas salas durante o dia. Pobres ou remediadas sofriam para estudar ou não estudavam nesse Brasil velho, que pode explicar o atual. Abigail certa vez fez um autorretrato em que aparecia de costas em um ateliê arrumado. Na mesma época, o mais celebrado dos acadêmicos paulistas, Almeida Júnior, mostrava uma mulher nua que posava para ele na sala de trabalho ampla.

Abigail de Andrade foi uma das primeiras a receber convites para vender seus quadros, mas não o fez, possivelmente por pressão familiar. O desenhista e caricaturista dos jornais Angelo Agostini, contudo, prosseguia elogiando a aluna nas críticas à imprensa. Amaram-se e ela engravidou, sem casar. Os dois foram para Paris, ele sempre apaixonado. A filha Angelina virou pintora, mas nunca citou a mãe nem usou seu sobrenome. Abigail esteve por muito tempo morta, ao contrário de artistas como Berthe Worms, cujo quadro Saudade de Nápoles ilumina uma sala da Pinacoteca do Estado de São Paulo. A sorte de Berthe foi ter nascido na França, onde escolas como a Académie Julian ofereciam cursos específicos e exigentes a centenas de mulheres. Retratos vendiam e ela os quis vender. Fez como outra artista impressionante, Nicolina Vaz de Assis, que, como escultora, viveu de encomendas, a exemplo da Fonte Monumental na praça Júlio Mesquita e do túmulo do general Couto de Magalhães, no Cemitério da Consolação, ambos em São Paulo.