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A origem de ‘A Origem das Espécies’ Por Olívia Fraga, Guilherme Falcão e Rafael Tozi em 13 de Setembro de 2018

Publicado em 13 setembro 2018

Charles Darwin era cria de seu tempo, pródigo em formar “naturalistas”. Em criança, era fascinado por química, flores, pedras e animais. Colecionava besouros, abria insetos. Só não era lá muito dedicado aos estudos. Largou pela metade quase todos os cursos que começou - entre eles o de medicina, na Escócia. Seu pai já estava ficando preocupado com o filho meio preguiçoso quando insistiu que ele fosse estudar para ser clérigo, ideia que lhe pareceu bem atraente. Darwin foi até o fim do bacharelado e formou-se em artes no respeitado Christ’s College da Universidade de Cambridge, na Inglaterra.

O curso era a melhor credencial para virar sacerdote da Igreja Anglicana, mas as coisas não aconteceram bem assim. Em vez de buscar emprego, quis continuar pesquisando, movido por curiosidade insaciável. Pegou gosto pelas viagens exploratórias quando saiu pelo País de Gales com um de seus professores, o reverendo e geólogo Adam Sedgwick. Na viagem, estudou a formação de montanhas.

A corrida pelo conhecimento financiada pela Coroa britânica estava em estreita conexão com seus objetivos imperialistas e colonialistas

Voltando de Gales, aceitou o convite de outro professor e mentor, o reverendo botânico John Henslow.

Ele o indicou à vaga de “cavalheiro de companhia” de Robert FitzRoy, um jovem capitão da Marinha inglesa que buscava um “companheiro para as refeições a bordo”, alguém treinado em botânica e geologia com quem pudesse trocar ideias e manter conversas instigantes pelos próximos dois anos, durante uma viagem pela costa da América do Sul. A contragosto, o pai de Darwin acabou aceitando a proposta e liberando o filho. Os dois anos viraram quase cinco. A corrida pelo conhecimento financiada pela Coroa britânica estava em estreita conexão com seus objetivos imperialistas e colonialistas.

O Império Britânico viveu um apogeu no século 19, tanto na produção de riqueza como na produção de ciência. A tradição naval inglesa, reconhecida pelo seu potencial bélico, também participava do projeto de expansão da Coroa mundo afora. Assim, a expedição de que Darwin participou tinha como pano de fundo uma série de viagens marítimas bancadas pelo Império, com o claro propósito de descobrir futuras colônias, investigar matérias-primas a serem exploradas e identificar mercados consumidores para seus produtos manufaturados.

A Revolução Industrial estava a pleno vapor. Neste especial, o Nexo destaca as inspirações filosóficas, científicas e sociais que entraram junto com Darwin no bergantim Her Majesty Ship Beagle em 27 de dezembro 1831, quando ele tinha 22 anos, e conta o que o naturalista trouxe consigo quando voltou à Inglaterra, em 1836. Sua bagagem acabou sendo fundamental para que, décadas depois, ele publicasse uma obra revolucionária: “A Origem das Espécies”.

As origens filosóficas

Muitos séculos antes de Charles Darwin virar a epítome do cientista, centenas de pensadores formularam proposições sobre a origem das coisas do mundo e o papel do homem no planeta.

A genialidade de sua teoria, entretanto, marcada por observações e leituras de contemporâneos e clássicos, foi ligar os pontos de muitas disciplinas das ciências naturais e, sobretudo, subverter a pergunta principal. “Ele sabia usar as referências que estavam disponíveis naquele momento. Darwin sabia buscar respostas: se ele tinha dúvida ou não estava seguro em determinado ponto da teoria dele, parava tudo que estava fazendo para se corresponder com as pessoas que poderiam proporcionar as respostas que estava buscando”, afirma Maria Isabel Landim, bióloga e chefe da divisão de difusão cultural do Museu de Zoologia da USP (Universidade de São Paulo).

O ponto fundamental do pensamento de Darwin, que se desdobra em várias hipóteses e teses, desconstrói a visão teleológica do mundo — uma crença de fundo filosófico e também religioso que afirma que a vida de todos os seres vivos caminha em direção ao aperfeiçoamento, ou seja, que há um “sentido”.

A análise darwiniana afirma o contrário. Não há finalidade na natureza. O que vemos hoje é apenas o instantâneo de uma história que começou muitos milhões de anos atrás, em que milhares de possibilidades conviviam e foram sendo mais ou menos adequadas a determinado ambiente. Hoje temos isto, mas podia ter sido aquilo. Os fósseis, as aves e as plantas podem nos contar essa outra história.

Alguns pensadores foram fundamentais para a construção da teoria da evolução de Darwin - por complemento ou oposição ao proposto em 1859, ano do lançamento de “A Origem das Espécies”. Darwin chegou a citar alguns deles em edições subsequentes do livro.

ARISTÓTELES (384 a.C — 322 a.C)

Segundo o professor da USP e biólogo Nélio Bizzo, Darwin foi filosoficamente bastante eclético; tentava ler na língua original dos pensadores, estudou grego, latim e alemão — algo que nem sempre dava certo.

Em capítulo introdutório de sua obra-prima, acrescentado a partir da quarta edição, Darwin cita Aristóteles “de maneira completamente errada — na verdade ele demonstra não ter uma boa ideia do pensamento do mestre estagirita [nascido na antiga Estagira macedônica, hoje na Grécia]”, afirma Bizzo.

De qualquer forma, o pensamento do filósofo grego é inescapável a qualquer um que faça ciência. Aristóteles foi algo como o pai da biologia; estabeleceu na filosofia o método que leva seu nome, baseado em empirismo, observação, dedução e lógica.

Com seus discípulos, criou a taxonomia, um método de classificação a partir da observação da anatomia e da morfologia de plantas e animais. Além disso, é de Aristóteles a proposição da “scala naturae”, uma linha evolutiva dos seres que marcha rumo à perfeição — teleológica, portanto, com uma finalidade.

Aristóteles foi, assim, o grande cristalizador de conceitos finalistas na biologia, a famosa “causa final”. “Na Antiguidade, e também, posteriormente, na Modernidade, os seres vivos serão vistos, pelas mais diferentes perspectivas, a partir de um mesmo prisma: a ideia de que eles devem ser explicados em termos de integração funcional, de relação necessária entre as partes e o todo, e, portanto, a partir da suposição de que uma finalidade governa não apenas a sua existência, como também o seu modo de atuação”, explica o professor de filosofia da USP Pedro Paulo Pimenta, na introdução à edição de “A Origem das Espécies” traduzida por ele e publicada pela Ubu.

Pimenta prossegue: “Essa lei geral do estudo dos seres vivos quase não foi contestada desde que Aristóteles a formulou, e por boas razões: pouco importa se verdadeira ou não, se correta ou não, é uma lei tão forte, tão pertinente, que produziu ao longo dos séculos conhecimentos consideráveis acerca dos seres vivos. Daí a sua autoridade”.

Embora Darwin acabe usando termos emprestados do grego contaminados por essa visão finalista, como “aperfeiçoamento”, sua obra máxima se descola dela. Para ele, a evolução era lenta e gradual, sem grandes rompimentos ou descontinuidades.

Como descreveu Otavio Frias Filho em um texto para revista Piauí, em 2008, “não é que alguma intencionalidade tenha dirigido a organização dos seres vivos: é o resultado gradualmente acumulado que, visto em perspectiva, parece ter sido intencional”.

HERBERT SPENCER (1820-1903)

Há debate entre a comunidade científica sobre a influência de Spencer sobre Darwin. Existe pelo menos uma certeza: um acabava usando o trabalho do outro para responder aos críticos. E há provas documentais de que havia admiração recíproca entre os dois.

“Darwin tomou emprestado das teorias de Spencer não apenas as ideias de ‘sobrevivência do mais apto’ (‘survival of the fittest’), mas também conceitos da psicologia, como a distinção entre emoções e sensações como consequências de experiências vividas (‘feelings’). Ele aplicará esses conceitos em seu livro de 1872, ‘Sobre as expressões nos animais’”, afirma o professor Nélio Bizzo.

Spencer, que trabalhava com mecânica e viveu da renda de diversas patentes que registrou (como a do velocímetro), chegou ao evolucionismo por um caminho próprio e antes de Darwin, lendo Adam Smith e Thomas Malthus, teóricos de economia clássica — também pensadores-chave para a construção de “A Origem das Espécies”.

Foi o primeiro pensador da área das ciências humanas a falar em competição humana na luta pela sobrevivência, o que ficou conhecido mais tarde como darwinismo social.

THOMAS MALTHUS (1766-1834)

A obra “Ensaio sobre o princípio da população”, de 1798, foi importante para o pensamento de Darwin.

O tema central do trabalho do clérigo inglês era que o crescimento populacional sempre prevaleceria sobre o aumento da oferta de alimentos, gerando fome, doença e lutas. Foi esse aspecto que chamou atenção de Darwin, que construiu um de seus pressupostos sobre essa mesma proposição.

É a doutrina de Malthus, aplicada à totalidade dos reinos animal e vegetal. Como nascem muito mais indivíduos de cada espécie do que os que poderiam sobreviver e como, por conseguinte, há uma constante e recorrente luta pela existência, segue-se que qualquer ser, desde que varie em benefício próprio, um mínimo que seja, terá, dadas condições de vida complexas e não raro também variáveis, mais chance de sobreviver e, assim, de ser selecionado naturalmente. E, graças ao poderoso princípio da hereditariedade, qualquer variedade selecionada tenderá a propagar a nova forma modificada. trecho de ‘A Origem das Espécies’

Antes de entrar em contato com o ensaio de Malthus, Darwin acreditava que as populações se expandiriam até estarem em equilíbrio com os recursos existentes no ambiente e, depois disso, se estabilizariam.

Malthus inspirou Darwin a refinar a tese sobre a seleção natural, a partir do dado sobre a disposição de alimentos para o ponto fundamental de competição significativa entre membros da mesma espécie. Mas Darwin não era malthusiano. “A gente tem de tomar cuidado com essa aproximação entre os dois. Ela existe, mas é circunscrita. Em momento algum Darwin aderiu às ideias de fundo. Malthus naturalizava a pobreza e dizia que ela era um mecanismo divino para controle populacional. Darwin tinha mais objetividade: lia Malthus e extraía dele a tese objetiva sobre a disputa pelos recursos naturais”, afirma Maria Isabel Landim.

CHARLES LYELL (1797-1875)

Certamente a maior influência no trabalho de Darwin, Lyell era autor de um livro de título modesto, “Princípios da Geologia”, que Darwin carregou consigo para o Beagle.

À época, Darwin considerava-se um geólogo mais do que naturalista, e concordava com a ideia central de Lyell: o mundo passava por lentas mudanças geológicas, causadas por forças que estavam constantemente em ação, na superfície e no profundo da Terra, como vulcões, erosão e desgaste.

A tese batia de frente com a corrente catastrofista de então: a maioria dos cientistas tentava incorporar descobertas às explicações bíblicas sobre o desígnio divino. Assim, as mudanças geológicas seriam causadas por Deus — o dilúvio do Gênesis era o exemplo máximo dessa visão.

A explicação de Lyell, derivada do trabalho de outro geólogo, James Hutton, ficou conhecida como uniformitarismo, ou doutrina da uniformidade. “Lyell não acreditava que os Alpes suíços tivessem surgido do dia para a noite por força de um transtorno cataclísmico: eles só poderiam ter-se formado gradualmente, ao longo de muito tempo”, explica C. James Goodwin no livro “História da Psicologia Moderna”. “Lyell era uma pessoa extremamente influente no ambiente acadêmico”, comenta Landim. “Se você olha a estrutura do texto do ‘A Origem das Espécies’, ela é muito parecida com o livro do Lyell. Na verdade, com o livro, Darwin queria representar para o campo de conhecimento da ciências o que Lyell tinha representado para a geologia.”

“Quem leu os ‘Princípios de Geologia’, obra-prima de Sir Charles Lyell, a que os historiadores futuros atribuirão uma verdadeira revolução nas ciências naturais, e, mesmo assim, não se sente preparado para admitir o quão inconcebivelmente longos foram os períodos de tempo passados, faria melhor em fechar o presente volume.” trecho de ‘A Origem das Espécies’

JEAN-BAPTISTE LAMARCK (1744-1829)

A tese deste grande pensador francês, famoso pela “lei do uso e do desuso”, causou um rebuliço no meio científico de seu país e ecoou na Inglaterra.

Lamarck dedicou-se a compreender como determinadas características são conservadas e passadas de geração em geração — o que permitiria ou não a sobrevivência de um indivíduo, a existência de uma espécie e, o mais importante, sua reprodução. Aspectos anatômicos e morfológicos de qualquer ser vivo recrudesceriam entre os descendentes quanto mais fossem usados, e outros, menos acionados, tenderiam a desaparecer.

Darwin oscilava a respeito das proposições de Lamarck. Em carta ao geólogo e amigo Charles Lyell, Darwin chegou a dizer: “[a obra de Lamarck] parece-me extremamente pobre; não adquiri dela um fato ou uma ideia”.

Apesar da declaração, alguns aspectos da teoria de Lamarck aparecem em “A Origem das Espécies” por serem temas recorrentes no pensamento científico da época. Ambos acreditavam que há algum papel do hábito na fixação de determinadas características. Também é notável a dedicação de ambos ao tema dos fósseis, especialmente para explicar as lacunas na sequência das espécies.

“É um erro pensar que os dois pensadores são antagônicos, porque não são. Mas Darwin era, além de tudo, um excelente estrategista. Ele queria se desvincular de uma herança maldita associada ao pensamento evolutivo lamarckista. Quando se opõe ou critica Lamarck, está, na verdade, marcando território”, opina Landim. “Lamarck estava preso ao pensamento do século 18, ao sistema linear de organização natural — a grande corrente dos seres que remonta às ideias platônicas e aristotélicas, uma hipótese especulativa. Darwin, por sua vez, não queria especulação. Lamarck o obrigou a pensar em questões muito importantes, que de outra forma talvez ele não tivesse pensado.”

“Podemos agora entender a importantíssima distinção entre afinidades reais e similaridades analógicas ou adaptativas. Lamarck foi o primeiro a chamar a atenção para ela, que [William Sharp] Macleay e outros adotaram com destreza.” trecho de ‘A Origem das Espécies’

A viagem do Beagle 1831-1836

A expedição comandada pelo capitão FitzRoy tinha como objetivo refazer os mapas da costa da América do Sul para a Marinha inglesa e estudar o potencial portuário da região. Além disso, o barco empreenderia uma circunavegação para verificar a localização de alguns pontos marítimos importantes, checando latitudes e longitudes.

Cerca de 70 pessoas, entre oficiais, geógrafos, pesquisadores e tripulação, faziam parte da excursão do Beagle. O trajeto do navio o levou primeiro a Cabo Verde (na África), depois explorou partes da costa brasileira, territórios onde hoje ficam Argentina, Chile e Uruguai, a Terra do Fogo, e três anos e meio depois rumou para as ilhas Galápagos, no Oceano Pacífico. Em seguida, passou pelo Taiti, Nova Zelândia, Austrália e África do Sul.

Darwin compartilhava uma cabine com outros dois peritos da Marinha e dormia em uma rede, com o rosto a 60 centímetros da parte inferior do convés. Como o barco atracava pela costa, Darwin tinha a chance de descer em terra e colher espécimes, rochas, insetos, e se livrar dos terríveis enjoos que vivia no barco.

Ao final da viagem, o diário pessoal de Darwin continha 770 páginas, 1.383 páginas com anotações de geologia e 368 sobre zoologia. Os animais recolhidos eram preservados em álcool e quase 4.000 itens foram etiquetados e identificados, entre ossos, fósseis, peles e espécimes.

O que Darwin trouxe na bagagem

Não há provas suficientes de que Darwin tenha desembarcado do Beagle com a teoria da evolução na cabeça (ou nos diários de anotação). Ao longo da vida, em notas, cartas e comentários, o inglês mal citava as ilhas Galápagos.

Mas a tese de Lyell foi provocando uma série de reflexões sobre a origem das espécies. Se a Terra passou por lentíssimos e cumulativos eventos — certamente o mundo não tinha apenas alguns milhares de anos, como a Bíblia levava a crer —, os seres vivos também podem ter experimentado um processo semelhante: algo lento e gradual, cujas provas estariam enterradas no solo, espalhadas pelo tempo.

Pouco depois de retornar, Darwin casou-se com uma prima, Emma Wedgwood. Tiveram dez filhos. Moraram em Londres, mas Darwin, logo que voltou à Inglaterra, apresentou um quadro de enfermidade recorrente: males do estômago e dores de cabeça fizeram o casal procurar sossego em Down, cidade a 30 km da capital inglesa.

A genialidade de Darwin foi ligar os pontos de muitas disciplinas das ciências naturais e, sobretudo, subverter a pergunta principal

Darwin levou 23 anos para publicar o “resumo” de suas ideias. Enquanto isso, tratou de organizar o pensamento: revisou anotações, publicou muitos artigos sobre a vida natural e geologia das ilhas vulcânicas da América do Sul, fez muitos contatos, acompanhou a recepção de outros trabalhos revolucionários no campo da ciência e tentou conferir sentido para o “problema das espécies”.

“Hoje é consenso: não houve atraso na publicação do livro. Darwin não perdeu tempo. O Darwin da década de 1850 não é o Darwin da década de 1830. Ele estava no século 19 e falava com o mundo por cartas. Contava com a eficiência do correio britânico para se corresponder com viajantes e naturalistas de todo o planeta, era mega conectado, tinha uma rede enorme de articulação, era muito visitado. Não estava isolado”, diz Landim.

Em 1842, Darwin elaborou um primeiro esboço do que viria a ser “A Origem das Espécies”, mas não chegou a divulgá-lo. Sua casa em Down virou lugar de experimentos: ele passou a cruzar cachorros, plantas e pombos para observar as variações mantidas na prole, deduzindo que um processo determinado artificialmente poderia responder ao que acontece na natureza, em um intervalo de tempo infinitamente maior.

A maior razão para a demora da publicação, contudo, era a saúde de Darwin. Ele passava vários meses acamado.

O artigo que mudou tudo

Em 18 de junho de 1858, Darwin levou um chacoalhão. Em carta, o jovem Alfred Russell Wallace pedia que Darwin lesse um artigo seu sobre plantas. Wallace, que começara sua vida de naturalista no Brasil (foi o primeiro europeu a percorrer o Rio Negro, no Amazonas), viajava pela Malásia e chegara a conclusões muito parecidas às de Darwin. Abalado com a semelhança entre as ideias, Darwin confidenciou a Lyell: “Se Wallace tivesse lido meu esquema de 1842, não teria feito um resumo melhor!”

Assim foi que, em julho do mesmo ano, um trabalho conjunto de Darwin e Wallace foi lido na Sociedade Lineana de Londres. “Sobre a tendência das espécies de formar variedades” era fruto de dois relatos individuais: “Trecho de uma obra não publicada sobre as espécies”, aquele mesmo artigo de Darwin, de 1842, e “Sobre a tendência das variedades a afastarem-se indefinidamente a partir de um tipo original”, de Wallace.

A ideia central do trabalho da dupla era que todos os seres vivos vieram de um único ancestral comum, e que as diferenças entre eles só podiam ser fruto do acaso. Embora Gregor Mendel já estivesse experimentando com cruzamento de ervilhas na Áustria, a genética ainda era uma ciência por acontecer.

Simples na elaboração, a tese de Darwin e Wallace refutava, de uma só vez, o catastrofismo e a teleologia nas ciências naturais. Mais tarde, como prova de que é possível deixar escapar o momento científico mais importante da história, o presidente da organização comentou apenas que não havia visto “nada de revolucionário” naquele ano.

Hoje, a história da ciência lega importante espaço a Wallace pelas suas contribuições à zoogeografia. Para Landim, ele tem o tamanho adequado — Darwin não faz sombra a ele. “Darwin é maior porque sintetiza um conflito humano importante, o embate em nós de ciência versus religião. Sua vida tem a beleza do conflito filosófico e religioso. Como anglicano, expressou muitas vezes em seus relatos autobiográficos a dicotomia. Afirmava, por exemplo, ter sido mais devoto que os marinheiros do Beagle.”

O impacto da obra-prima de Darwin

“A Origem das Espécies”, ou “Da origem das espécies por meio da seleção natural, ou a preservação das raças favorecidas na luta pela vida”, chegou às livrarias em 22 de novembro de 1859.

O editor John Murray tirou 1.250 cópias e vendeu tudo no primeiro dia. Recebeu pedidos para mais 1.500 antes do dia da publicação, incluindo 500 para uma biblioteca em circulação. Um mês depois, produziu outras 3.000 cópias. “O livro esgotou no primeiro dia na editora porque houve uma venda casada na época. Além disso, os exemplares foram parar em lugares de empréstimo e circulou muito, o que mostra o potencial de leitura que um trabalho desses teve”, conta a bióloga Maria Isabel Landim.

Darwin alavancou as vendas do próprio livro por meio de uma tática supercomum hoje em dia: apresentava a obra em revistas e jornais, aparecia em panfletos e revistas de livre-pensadores. Seus amigos foram seus “assessores de imprensa” e resenhavam seu livro em jornais e revistas. Entre os mais importantes estavam Thomas Huxley (avô do escritor Aldous Huxley) e o naturalista americano Asa Gray.

Darwinista de primeira hora, Huxley analisou de forma notável a relevância do pensamento de Darwin, combatendo as ideias que pregavam uma “doutrina de criação especial”, que recorre ao sobrenatural e ao “exército da bibliolatria”, afirmando que a biologia precisa ser contaminada pelo método já provado das ciências mecânicas, da astronomia e da ciência econômica. “Mas a hipótese da criação especial não é apenas uma máscara especiosa de nossa ignorância; sua presença na biologia trai a juventude e imaturidade dessa ciência. Pois o que é a história de cada ciência senão a história da eliminação da noção de interferências, do Criador ou de outras, na ordem natural dos fenômenos que constituem a matéria dessa ciência?”

Asa Gray, também em 1860, o posicionou, em termos de importância, ao lado de Thomas Hobbes, o matemático do século 16 autor de “Leviatã”. Em sua resenha, escreveu: “Por curioso que pareça, a teoria [da seleção natural] está fundamentada nas doutrinas de Malthus e de [Thomas] Hobbes. (...) Apenas Hobbes, no entanto, com sua teoria da sociedade, e Darwin, com sua teoria da história natural, ergueram sistemas sobre ela. (...) Ao sr. Darwin cabe o mérito de ter estendido essa aplicação e extraído dela resultados imensamente diversificados, com rara sagacidade e incansável paciência, trazendo à luz as verdadeiras causas que operam no estabelecimento da atual associação e distribuição geográfica das plantas e dos animais.”

No total, antes de o livro perder o direito autoral em 1901, cerca de 100 mil cópias foram produzidas, entre reproduções do livro no formato original e em edições populares.

O livro era um sucesso, mas não entre os anglicanos. Apesar de “A Origem” não discutir a evolução dos seres humanos — essa análise foi feita em outras duas obras, “A descendência do homem e a seleção em relação ao sexo”, de 1871, e “Expressões das emoções no homem e nos animais”, de 1872 —, Darwin foi denunciado em púlpitos. Entre os cientistas, a obra foi rapidamente aceita, um pouco por ecoar o “espírito do tempo”. O maior temor de Darwin era publicar uma teoria incompleta, um sistema falho que daria munição a detratores e destruiria tantos anos de dedicação

Os ecos do livro na ciência de hoje

A pesquisa de Darwin popularizou os métodos e a investigação científica.

Foi como se o inglês abrisse uma janela de compreensão para o funcionamento da natureza, baseado em muita observação de plantas, animais e meio ambiente, no nível do detalhe.

Darwin lutava contra seus próprios demônios ao entrar nessa aventura como religioso e sair dela agnóstico. Prevalecia ainda a crença, na época, na literalidade do relato bíblico sobre “a Criação”. Segundo Stephen Greenblatt, no livro “Ascensão e queda de Adão e Eva”, “O darwinismo não é incompatível com a crença em Deus, mas com certeza é incompatível com a crença de Adão e Eva”.

Na biologia, na taxonomia e nos estudos sobre evolução, Darwin é a grande baliza, para o bem e para o mal. Para alguns estudiosos, especialmente da genética, o darwinismo quase se tornou uma camisa-de-força, que não daria conta de explicar todos os fenômenos da evolução.

Descobertas sobre DNA e genômica complexificaram a teoria da evolução e a herança de caracteres adquiridos em vida. Há uma grande corrente dentro da biologia, chamada epigenética, que investiga como mudanças ocorridas durante a vida de um indivíduo, no nível dos genes, podem ser transmitidas para a próxima geração.

Pensadoras como Eva Jablonka, autora de “Evolução em Quatro Dimensões” (2005), contextualizam Darwin à luz dessas descobertas da biologia molecular, e recorrem — e reabilitam — a algumas análises de Lamarck nessa história.

Mais importante — e nisso a maioria dos cientistas concorda — é a percepção de que Darwin teorizou uma resposta bem acabada para o grande problema da Evolução, com E maiúsculo, dos grandes processos biológicos da vida na Terra.

“Ler Darwin hoje em dia é ainda muito útil e pode trazer descrições de fenômenos conhecidos, além de interpretações muito criativas”, afirma o biólogo Nélio Bizzo.

“Darwin foi até às últimas consequências de seu pensamento, sem fazer concessões. A teoria da evolução é muito contraintuitiva. Falamos de adaptação e o senso comum é pensar numa adaptação pontual, não em um mecanismo que opera ao longo de séculos, milênios, difícil de explicar com os termos já contaminados pelo uso comum. Darwin teve tempo de reclamar dessa limitação da linguagem ainda em vida. Ele dizia, por exemplo, que em vez de usar ‘seleção natural’, preferia ter mantido o termo original, ‘descendência com modificação’”, argumenta Landim.

Esse longo processo de conversão e reflexão é o que reforça o fato de ele ter virado um ícone. Para a biologia isso foi fundamental, porque representou uma mudança de paradigma radical. “Darwin rompe com o dualismo platônico, uma construção milenar de visão de mundo”, afirma a pesquisadora.

Aos cientistas de hoje, além de um riquíssimo arcabouço conceitual e material, Darwin legou a desconstrução de preconceitos.

“Precisamos continuar traduzindo. Estudá-lo, conhecê-lo, ler sua vasta obra é uma maneira de nos haver com nossas crenças e caminhos de entender a vida. A gente precisa qualificar o debate e mostrar como a ciência é produzida”, reafirma Landim.