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A nova realidade do Pantanal

Publicado em 06 novembro 2020

Por Marcos Pivetta, da revista Pesquisa FAPESP

Em 18 de outubro passado, a régua da Marinha que há 120 anos mede a altura do rio Paraguai no município sul-mato-grossense de Ladário, vizinho a Corumbá, marcou -33 centímetros (cm) em relação ao zero.

Foi o menor registro desde setembro de 1971, quando atingiu -51 cm, e entre os seis piores da história da escala, a mais antiga das seis instaladas ao longo da bacia do Paraguai, cujas cheias e secas ditam o pulso periódico de inundação que faz o Pantanal ser a maior província alagada do planeta.

O recorde negativo foi em 1964, quando a régua de Ladário apontou -61 cm. Em 18 de outubro de 2019, um ano não chuvoso, a marca da escala estava em 1,76 m acima do zero, 2 metros mais alta.

Entre novembro e meados de março deste ano, período que costuma concentrar o grosso das chuvas anuais sobre a região, a pluviosidade sobre a bacia foi de apenas 350 mm, pouco mais de 40% da média histórica, segundo levantamento da Embrapa Pantanal.

“Neste ano, temos o menor nível de inundação do Pantanal em meio século”, comenta o biólogo José Sabino, especialista em peixes da Universidade Anhanguera-Uniderp, de Campo Grande. O zero da régua de Ladário indica que o rio Paraguai apresenta, naquele trecho, apenas 4 metros de profundidade. Além de inviabilizar a navegação na hidrovia, com prejuízos para o escoamento da produção de soja e minério do Centro-Oeste, níveis tão baixos atestam a gravidade da escassez hídrica.

A grande seca

A grande seca é o pano de fundo da escalada atual de queimadas que assola o Pantanal, o menor dos seis biomas terrestres brasileiros. No Brasil, o Pantanal se estende por 150 mil quilômetros quadrados (km2) dos estados de Mato Grosso e Mato Grosso do Sul, área equivalente a 1,8% do território nacional.

Uma pequena parte do bioma, algo como 30 mil km2, encontra-se em áreas adjacentes do Paraguai e da Bolívia, coladas à fronteira brasileira. A intensidade do fogo em 2020 não tem registro histórico recente e contribui para sufocar ainda mais o pulso das águas no bioma, causando destruição em sua flora e fauna.

Cenas de grandes labaredas consumindo a vegetação — um misto de florestas, cerrados e campos que ocupam 84% do Pantanal — e imagens dramáticas de onças, jacarés e aves mortos correram o noticiário nacional e internacional.

Entre janeiro e 18 de outubro de 2020, 27% da área do ecossistema tinha sido alvo de incêndios, inclusive setores dentro de unidades de conservação e terras indígenas, segundo dados do Laboratório de Aplicações de Satélites Ambientais (Lasa), da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ).

“Em média, a área do Pantanal brasileiro que sofre com queimadas não passa de 10%”, diz a climatologista Renata Libonati, uma das coordenadoras do Lasa, que acompanha o avanço das labaredas no bioma desde o ano passado.

Adaptação ao fogo

“O Pantanal se desenvolveu com um certo grau de adaptação ao fogo e é capaz de se regenerar em parte, mas não se mantivermos os níveis atuais de incêndios.” Com o emprego de um algoritmo que reconhece automaticamente áreas de queimadas em meio às imagens captadas pelo sensor Visible Infrared Imaging Radiometer Suite (VIIRS) do satélite norte-americano S-NPP, o trabalho do Lasa consegue identificar incêndios em áreas de pelo menos 25 hectares, um quadrado com 500 metros de lado.

Dados do programa de queimadas do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe) também apontam uma incidência sem paralelo do fogo no bioma. Até 25 de outubro, haviam sido contabilizados 20.996 focos de incêndio no Pantanal, mais do que o dobro de todo 2019, quarto pior ano da série histórica.

Biodiversidade ameaçada

A quantidade de focos nos 10 primeiros meses de 2020 supera com folga os números referentes aos anos inteiros desde 1998, quando se iniciam os registros do programa no Pantanal. Antes de 2020, o ano mais crítico para as queimadas na região tinha sido 2005, com 12.536 focos.

A forte estiagem prolongada cria condições para que o fogo se mantenha e se propague mais facilmente, mas, sozinha, é incapaz de acender a faísca que inicia os incêndios. “São necessários três ingredientes para que ocorra um incêndio florestal”, explica Libonati.

O material combustível é a vegetação, que em anos secos fica mais exposta e ainda mais suscetível ao avanço das labaredas. O comburente, aquilo que reage com o combustível e alimenta o fogo, são as condições meteorológicas, como estiagem prolongada, baixa umidade do ar, altas temperaturas e forte vento. O processo de ignição pode se dar de duas formas, naturalmente, por meio de raios, ou causado pelo homem.

Diferentemente do que ocorre na Amazônia, um bioma muito úmido onde os incêndios naturais são considerados inexistentes, raios podem iniciar focos de fogo no Pantanal, mas apenas em condições muito específicas. A combustão da vegetação sem intervenção humana ocorre somente na transição entre a estação seca e a úmida e vice-versa, quando há produção de raios. No entanto, esses incêndios causados por descargas elétricas costumam ser extremamente raros.

Ação humana

“A estação chuvosa de 2019 tinha sido fraca no Pantanal. A de 2020 também foi menor do que o normal. Essa estiagem prolongada, somada ao ar seco e quente, favorece a ocorrência de queimadas de maior extensão”, explica o climatologista José Marengo, chefe do setor de Pesquisa e Desenvolvimento do Centro Nacional de Monitoramento e Alertas de Desastres Naturais (Cemaden). Em 2020, dois terços dos quase 21 mil focos de queimadas se concentraram em agosto e setembro, bem no auge da estação seca, segundo dados do Inpe.

Essa situação reforça a ideia de que a maior parte dos incêndios do Pantanal tenha se iniciado por ação humana. Usar o fogo para queimar excesso de vegetação e regenerar o solo para a agricultura é uma prática antiga, usada em várias partes do mundo. Além de eventuais benefícios para o plantio, esses incêndios, se pequenos e controlados, diminuem a quantidade de biomassa que poderia ser usada para provocar grandes queimadas. No Pantanal, não é diferente. Embora polêmico, o procedimento, quando feito dentro da lei e com critérios técnicos, não tem potencial de gerar incêndios na quantidade e na extensão verificadas neste ano.

Futuro incerto

É possível que, em um ano muito seco como 2020, alguns fogos intencionais que seriam facilmente administráveis tenham saído de controle por uma combinação de fatores, como inexperiência de seus propagadores ou excesso de biomassa (vegetação) disponível no solo. Resta também a hipótese de fogo proposital, incêndios criminosos com o objetivo de abrir novas áreas de pastagem para gado, a grande atividade econômica do Pantanal, e de agricultura.

“Não se pode descartar o dolo como causa de muitos incêndios”, comenta Sabino. “Vemos que muitas queimadas se iniciam fora de áreas protegidas e avançam pelo interior das unidades de conservação.” Embora um decreto federal de 15 de julho tenha proibido as queimadas em propriedades rurais de todo o país por 120 dias, e os governos dos estados de Mato Grosso e Mato do Grosso do Sul também tenham adotado medidas semelhantes, o Pantanal continuou ardendo.

Diferentemente da Amazônia, onde há grandes extensões de florestas públicas, mais de 90% da área do Pantanal é propriedade privada. “É possível saber quem são os donos das terras em que as queimadas ocorrem e responsabilizá-los na forma da lei”, diz Libonati. A atuação de órgãos federais da área do meio ambiente também tem sido tímida e descoordenada na prevenção e no combate aos incêndios. 

Estudos:

LÁZARO, W. L. et al. Climate change reflected in one of the largest wetlands in the world: An overview of the Northern Pantanal water regime. Acta Limnologica Brasiliensia. 18 set. 2020.
THIELEN, D. et al. Quo vadis Pantanal? Expected precipitation extremes and drought dynamics from changing sea surface temperature. Plos One. 7 jan. 2020.

Fonte: O Pantanal pede água/Revista Fapesp  CC BY-ND 4.0

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