Notícia

Revista Rumos

A nova fronteira da saúde

Publicado em 01 setembro 2001

A medicina tradicional e a indústria farmacêutica vivem a aurora de um novo tempo que promete drásticas mudanças na abordagem da saúde humana e de todo o sistema econômico que gira em torno dela. Essa profunda inovação vem de um domínio do conhecimento, a Biotecnologia médica, que avança a todo vapor. Rumos ouviu a respeito um jovem e renomado cientista brasileiro do ramo, Jerson Lima, do Instituto de Ciências Biomédicas da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ). Sua expertise na área merece atenção. A Biotecnologia médica é uma ciência muito recente que promete transformar a medicina e as formas de tratamento, podendo trazer a cura para o câncer, a AIDS e outros males hoje incuráveis. Seu impacto deverá ser maior do que o causado pela descoberta do antibiótico e vai gerar muita polêmica. Jerson Lima Silva, conhecido especialistas do assunto no Brasil, mostrou a Rumos que essa nova modalidade médica deverá, em 15 anos, ser uma realidade e revelou que o país detém a tecnologia, mas precisa continuar investindo para não ficar para trás na história. Em fevereiro deste ano, o mundo parou para ouvir uma das mais importantes descobertas científicas da história: o genoma humano estava totalmente mapeada. Trata-se da seqüência completa do nosso DNA, constituído por quatro tipos de base. Hoje, já se sabe a posição de cada um deles, mas o grande mistério é conhecer a função que cada um exerce no nosso corpo. É como se tivéssemos encontrado uma grande enciclopédia que explica como funciona, em detalhes, o nosso corpo. O problema é que esse livro está escrito num alfabeto que desconhecemos. A tarefa, agora, é "traduzir" essa enciclopédia para que possamos usar esse conhecimento a nosso favor. Quando a ciência souber quais genes estão relacionados a determinadas doenças, será possível recriar a estrutura dessas proteínas, tomando saudáveis as células antes doentes ou degeneradas. Ficção científica? Não! Já existem aplicações reais baseadas nesse tipo de conhecimento e se espera que, em 10 ou 15 anos, os avanços sejam significativos. Código da vida - Tudo começou em 1953, na Inglaterra, quando cientistas conseguiram, pela primeira vez, identificar a estrutura do DNA, que compõe a formação celular de todos os seres vivos. A partir de então, muitos estudos começaram a ser realçados em vários países. No início dos anos 70, chegou-se à determinação da estrutura das proteínas, depois de muitos estudos básicos com bacteriófagos. Esse novo conhecimento da biologia molecular mostrou que a informação genérica do DNA codifica outra macromolécula - o RNA -, que codifica, por sua vez, a seqüência de proteínas que exercem as diversas funções de uma célula, seja ela de uma bactéria, seja de um ser humano. Com a nova tecnologia, foram feitas muitas descobertas importantes nas áreas da bioquímica, virologia, entre outras, o que permitiu mapear todo o genoma humano. O professor titular do Departamento de Bioquímica Médica do Instituto de Ciências Biomédicas e diretor do Centro Nacional de Ressonância Magnética Nuclear de Macromoléculas da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), Jerson Lima Silva, afirma que o Brasil domina a nova tecnologia e acompanha o andamento mundial. Precisa ficar atento aos avanços para não perder a oportunidade de ter nas mãos um recurso tão significativo para o desenvolvimento humano e econômico. As pesquisas nessa área estão mais desenvolvidas na Alemanha, Inglaterra, EUA e Japão, este último um dos que mais investem nas ciências básicas, incluindo a biotecnologia: "Os japoneses utilizam a técnica de alta-pressão hidrostática na produção de alimentos, proteínas humanas e animais, tecnologia dominada também pela UFRJ, que possui o único equipamento desse tipo da América Latina." O especialista, que também é membro da Academia Brasileira de Ciências e participou, de 1996 a 1998, do Comitê Nacional de Biossegurança do Ministério de Ciência e Tecnologia (MCT), diz, que, aqui, a produção científica tem crescido muito mais do que em outros países - um trabalho que se concentra nas universidades e é, geralmente, executado com recursos públicos. O setor empresarial, porém, já está começando a participar. Foi o que aconteceu com um grupo de produtores que está com um projeto desenvolvido pela Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (Fapesp), que estuda o genoma do microorganismo causador de uma doença na laranja conhecida como "amarelinho". Eles apostam na pesquisa porque sabem que, no final, terão uma forma de combater a praga e aumentar seus lucros. Abordagem molecular - A identificação da estrutura do DNA, em 1953, gerou uma explosão de conhecimento nessa área, com cientistas de todo o mundo trabalhando para entender como essas funções são reguladas, como as células se diferenciam, como funciona um organismo unicelular ou uma bactéria. Houve um desvio da genética clássica para a abordagem molecular. Foi nos anos 80, entretanto, que os pesquisadores começaram a entender, utilizar e realizar mutações que podem resultar em aplicações bem imediatas, o caso da reprodução acelerada da pele humana, feita em laboratório, desenvolvida e aplicada na UFRJ. Da mesma forma, foi possível retirar um gene referente à produção de insulina humana, colocá-la sob determinadas condições numa bactéria, que passou a produzi-la, substituindo a insulina animal e evitando eventuais rejeições. Esse conhecimento foi se abrindo cada vez mais, abrangendo os microorganismos e as células de organismos superiores, como dos mamíferos. Tudo isso combinado com um entendimento cada vez maior das funções das proteínas, começou-se a ter para cada problema, uma abordagem molecular da medicina, no âmbito da biotecnologia. Inúmeros trabalhos são, hoje, realizados com o uso de células-tronco - células com estruturas completas que ainda não se diferenciaram e que podem gerar, em condições adequadas, diversos tecidos e órgãos. Atualmente, existe na UFRJ um banco de células que são retiradas do cordão umbilical. Estas podem, a partir dali, diferenciar em outras células, como as da medula óssea. "Hoje, o custo de manutenção é muito alto, pois esse material precisa ser mantido em nitrogênio líquido, a menos 1% centígrados, e o nitrogênio tem que ser substituído a cada 15 dias", conta o pesquisador. Pode parecer futurismo, mas qualquer brasileiro com alguma folga financeira pode guardar células do cordão umbilical ou da medula óssea do filho que acabou de nascer e mantê-las por lá até que a ciência descubra como curar várias doenças que de ainda não desenvolveu. Isso poderia salvá-lo até de uma leucemia. Jerson Lima explica que, hoje, é muito difícil separar a pesquisa pura da aplicada, na área de biologia molecular e celular. E cita como exemplo uma que foi desenvolvida por sua equipe na universidade. O objetivo é determinar a estrutura da proteína supressora de tumor. Sabe-se que, em 50% dos casos de neoplasias (câncer), nota-se uma mutação nessa proteína. Um dos efeitos dessa célula supressora de tumor é impedir que ela se multiplique, desordenadamente, e forme a massa do tumor. Quando essa proteína está funcionando bem, ela faz com que a célula que está "oncologicamente estressada" morra, impedindo sua multiplicação. Assim, o microtumor regride. "Atualmente, detecta-se um tumor ainda com um grama, ou seja, com cerca de 100 milhões de células. Geralmente, quando a proteína está funcionando bem, ela consegue suprimir um tumor antes que atinja esse tamanho. Quando ela sofre, porém, uma mutação, perde sua função supressora. Queremos descobrir por que ela perde essa função e até acaba induzindo outras proteínas que ainda não perderam a função a fazer o mesmo." Os estudos já mostraram que algumas moléculas fazem com que essa proteína mutante fique com funções parecidas com a normal, pois restitui a ligação da estrutura onde está modificada. Quando a equipe encontrar substâncias que fazem com que da fique com propriedades parecidas com a normal, a droga está criada. A pesquisa pura terá aplicação médica quase imediata. São necessários vários testes para que um medicamento seja aprovado e colocado no mercado, o que leva de um a cinco anos. Foi o que aconteceu com a protease do HIV, uma proteína importante para o processamento do vírus. A partir do conhecimento da sua estrutura, buscou-se um desenho racional de uma droga que inibisse a enzima. Um ano depois, ela estava no mercado, melhorando muito o tratamento popularmente conhecido como "coquetel". A AIDS é outro foco das pesquisas do especialista, que coordena o Programa de Núcleos de Excelência, com apoio do Howard Hughes Medical Institute. O estudo é intitulado Enovelamento Protéico e seu objetivo é bem simples: eliminar totalmente a função do vírus, como hoje se faz contra as bactérias, mediante o uso de um antibiótico, debelando-se a infecção. Detenção de conhecimento - Uma provável vilã desta história é a indústria farmacêutica. Infelizmente, grande parte dessas empresas no Brasil é multinacional, por isso suas pesquisas são realizadas em seus países de origem. Já existe, no entanto, um movimento para convencê-las a montar, aqui, laboratórios e centros de pesquisa e algumas já dão sinais de interesse. Tudo vai depender de iniciativas que incentivem esse tipo de investimento, incluindo vantagens fiscais. De qualquer forma, a indústria farmacêutica se interessa pelas pesquisas, uma vez que, se a biotecnologia médica ocupar o lugar dos tratamentos tradicionais, a base de remédios alopáticos, da passaria a vender drogas ainda mais caras, baseadas em proteínas. Nesse caso, a informação ao público e a postura dos governos será de suma importância. Basta observar o que aconteceu no desenvolvimento de medicamentos contra a AIDS. A indústria farmacêutica foi pressionada, inclusive, pela população dos países desenvolvidos, a baixar os preços dos remédios. A alegação de que os valores acompanhavam os altos custos envolvidos no desenvolvimento dos remédios foi derrubada porque a maior parte do investimento em pesquisas provinha de recursos públicos. O governo brasileiro mostrou que era capaz de produzir o inibidor de protease e ameaçou quebrar a patente, em prol do interesse público. Assim, o laboratório recuou e baixou os preços em 45%. É incontestável que a pesquisa biomédica é muito cara e o Brasil vive período de recursos escassos. Mesmo assim, o país pode conta com muitos centros de excelência. Entre eles estão a UFRJ - onde os programas de pós-graduação nas áreas Biomédica e de Ciência e Tecnologia têm grau máximo de avaliação da Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior (Capes); a Universidade de São Paulo (USP); a Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG); e a Fundação Oswaldo Cruz. São centros que não produzem apenas conhecimento; também formam pessoal gabaritado, aumentando o entendimento internacional de que se faz pesquisa de ponta no país. Esse reconhecimento abre possibilidade para que alguns especialistas brasileiros em Biotecnologia estrutural optem por não atuar na área acadêmica, e sim na área empresarial. Isso aumenta a garantia de que os testes clínicos - caros e demorados - serão feitos imediatamente após a descoberta, pois interessa à indústria farmacêutica o retorno mais rápido possível desse investimento. No caso da AIDS, a experimentação e os testes são mais difíceis, pois não há um modelo animal para realizá-los. Jerson Lima explica que, mesmo o chimpanzé, que pode adquirir o vírus, não apresenta a imunodeficiência registrada nos seres humanos: "Há pouco, conseguiu-se um modelo de ratos transgênicos que têm um sistema imunológico parecido com o humano e, se der certo, responderia com uma imunodeficiência parecida. Se houver sucesso, poderemos testar as drogas nesses animais, antes de fazê-lo em seres humanos, ficando mais fácil prever e controlar os efeitos colaterais típicos de qualquer droga. O desafio agora é buscar uma relação de mais eficácia e menos efeitos colaterais." Medicina do futuro - O cientista aposta na Biotecnologia como a medicina do futuro, mas garante que as novas técnicas não substituirão as anteriores: serão complementares. Uma coisa, porém, é certa: os médicos vão mudar. Como a Biotecnologia médica tende a trabalhar no sentido de determinar a propensão de um recém-nascido para desenvolver determinadas doenças, isso pode evoluir para terapias mais individualizadas. Por isso, o médico também terá que lidar com as diferenças de uma pessoa para a outra, pois o tratamento não poderá ser o mesmo para todos: "A solução para os problemas provavelmente será encontrada nas informações contidas no próprio corpo e na relação entre esse corpo e a célula que o atinge negativamente." O modelo de tratamento hospitalar também tende a se modificar, tomando-se mais preciso e individualizado. Isso, provavelmente, vai gerar um tratamento mais humanitário. Os métodos terapêuticos e de diagnóstico não vão poder se sobrepor à interação médico-paciente. De qualquer forma, o médico vai ter que olhar muito mais o paciente no seu todo do que focar apenas na doença. Dessa forma, o papel do clínico tende a ser cada vez mais importante. Longevidade e ética - Se as pesquisas e resultados caminharem nessa direção, nos próximos 10 ou 20 anos estaremos mais próximos de recompor o que não estiver saudável a parar do próprio corpo doente. Todo esse processo vai, com certeza, gerar o aumento da longevidade humana. Hoje, nos EUA, a expectativa de vida é de 80 anos. No Brasil essa projeção é de mais de 65 anos - isso porque esse índice é calculado por média estatística e o país tem altas taxas de mortalidade infantil e neonatal. As doenças cardiovasculares, que nos países desenvolvidos eram a principal causa de mortes, já perdem para doenças como câncer e as degenerativas - Alzheimer e de Parkinson -, que tendem a aparecer em pessoas com idade avançada. O fato é que, cada vez que se descobre uma nova droga, a expectativa cresce, aumentando a população mundial. Como resolver o problema da escassez de alimentos? Talvez a solução esteja na própria Biotecnologia, com alimentos geneticamente modificados, livres de pragas e doenças. Se os alimentos transgênicos são seguros, é outra questão, havendo, ainda, muita discussão sobre a ética relacionada com a modificação da essência dos seres vivos. Jerson lima reconhece que ainda não há tempo para garantir que esses são alimentos 100% seguros, mas lembra que há incompatibilidades pessoais, como no caso das alergias a determinados produtos. Afirma, porém, que o que se sabe hoje sobre as Biociências permite que se diga, com alguma segurança, que esses produtos não têm efeitos danosos. E alerta: "Como esses alimentos são transformados para resistir a pragas e herbicidas, podem até ser mais saudáveis, se comparados com os cultivados com agrotóxicos e fertilizantes". A seu ver, só o debate e a informação podem esclarecer as dúvidas, orientando o consumidor: "É evidente que existem problemas, como a provável relação de dependência do agricultor para com o produtor de sementes. No entanto, há que matar a fome de uma enorme quantidade de seres humanos. O fundamental é manter todos informados e não radicalizar." No caso da aplicação médica da Biotecnologia, o debate - é ainda mais acirrado e envolve até questões religiosas. O uso em experiências das células-tronco pluripotentes - cuja melhor fonte é a oriunda de embriões - promete um ainda longo e quente debate para evitar abusos. Países que permitem o aborto poderiam utilizar essas células? Isso não seria eticamente questionável? Sem dúvida. Nos EUA, onde o aborto é legal em algumas unidades da federação, já se permitem pesquisas com células-tronco obtidas de embriões até determinado período, mas o Congresso limitou as verbas para esse ripo de experiência a fim de exercer um controle mais rígido sobre os estudos. No Brasil, onde o aborto é ilegal, é totalmente proibido fazer experiências desse tipo.